A REVISTA GUITAR PLAYER NORTE-AMERICANA FOI FUNDADA DURANTE O VERÃO DE 1967 QUANDO JIMI HENDRIX PÔS FOGO NA SUA STRATOCASTER EM MONTEREY E DETONOU UMA REVOLUÇÃO NA GUITARRA ELÉTRICA. EM TRÊS DÉCADAS, DESDE AS CHAMAS SAGRADAS DE JIMI, MILHARES DE ÁLBUNS DE GUITARRAS FORAM LANÇADOS E, EMBORA MUITOS APENAS OSCILARAM POR UM MOMENTO NO OUVIDO DO PÚBLICO, OUTROS MARCARAM REGISTROS PERMANENTES NA CABEÇA DOS GUITARRISTAS.
SEIS EDITORES DA GP NORTE-AMERICANA - JOHNSTON, GORE, OBRECHT, ROTONDI, THOMPSON E ELLIS - VASCULHARAM AS SUAS MEMÓRIAS, COLEÇÕES DE DISCOS, NÚMEROS ATRASADOS E LIVROS DE REFERÊNCIAS PARA DESCOBRIR OS MELHORES DISCOS DE GUITARRA DOS ÚLTIMOS 30 ANOS. A PARTIR DAÍ, HOUVE UM GRANDE ESFORÇO PARA ESCOLHER O SINGLE MAIS IMPORTANTE E INFLUENTE PARA CADA ANO. "MISSÃO IMPOSSÍVEL", VOCÊ DIRIA? ANDY ELLIS CHEGOU A ARGUMENTAR CONTRA O CONCEITO JORNALÍSTICO DE COLOCAR UM SINGLE DE UM DISCO SOBRE OUTRO. NO ENTANTO, OS DEMAIS MEMBROS DA "COMISSÃO JULGADORA" DECIDIRAM INSISTIR NO CARA-OU-COROA INTELECTUAL E PROVÁVEL DILÚVIO DE CARTAS DO TIPO "COMO VOCÊS PUDERAM DEIXAR DE FORA...?", NA ESPERANÇA QUE AS ESCOLHAS POSSAM INSPIRAR OS GUITARRISTAS A BUSCAREM A MÚSICA ESSENCIAL. A SURPRESA, AO FINAL, FOI QUE A LISTA DOS ESCOLHIDOS COMBINA COM A ÊNFASE EDITORIAL DA GUITAR PLAYER NO QUE DIZ RESPEITO AO ECLETISMO. DOS RENEGADOS DAS CORDAS DE NYLON AOS FUSIONISTAS E PUNKS PRIMAIS, AS ESCOLHAS TOP E VICE-CAMPEÃS CONFRONTAM AS POSSIBILIDADES DO INSTRUMENTO COM UMA INDIVIDUALIDADE SEM COMPROMISSO.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

SONIC YOUTH, Grupo Tenta Estrada do Estrelato

A banda de Nova York lança "Dirty", seu oitavo álbum e segundo gravado através de uma grande gravadora

O Sonic Youth, que a baixista Kim Gordon diz ser uma banda 'absolutamente americana'
FABIO MASSARI

Uma década de construções e reformas na estrada do rock independente norte-americano não foi o suficiente para que o Sonic Youth tivesse um lugar garantido no clube do megaestrelato. E nem um barulhento contrato com uma grande gravadora e seu primeiro rebento garantiram ao quarteto de Nova York essa regalia.
Mas isso pode mudar. Tudo depende da recepção de "Dirty", oitavo álbum da banda, segundo lançado pela Geffen, que tem produção assinada pelo cobiçado Butch Vig (produtor de "Nevermind", do Nirvana).
Desde sua primeira aparição no "Noise Festival", organizado pela galeria de arte nova-iorquina White Columna, em 81, o Sonic Youth se dedica a torcer não só o hardcore, mas sim o próprio rock norte-americano para todos os lados. Fazendo uso das tradições musicais locais, mas abusando das experiências sonoras com paredes de ruído e distorções, o Sonic Youth oferece como resultado instantâneos sócios-musicais de uma América que eles conhecem como poucos: violenta e apaixonante.
"Dirty" não é nenhum alvo fácil para os que acham que o Sonic Youth é um traidor da "causa underground", e os menos radicais na paixão pelo rock "diet" terão uma agradável surpresa.
Kim Gordon, baixista e vocalista do Sonic Youth,  falou com a Folha de Amsterdã.
***
Folha - Como foi o processo de composição e gravação do disco?
Kim Gordon - As músicas basicamente acontecem. Criamos uma bola de barulho e trabalhamos em cima disso. Para gravar "Dirty", ficamos seis semanas num pequeno estúdio de Nova York , tocando ao vivo, mas tudo num clima bem relaxado.
Folha - Essa é a primeira vez que vocês trabalham com um produtor, e ainda por cima Butch Vig. Você acha que haverá algum tipo de pressão por causa disso?
Gordon - A pressão existe sempre. Nós a ignoramos. Existe sempre a nossa pressão, que diz a toda hora que devemos mudar isso, mudar aquilo... Tem sempre algo que nos incomoda, até nesse disco que acabou de sair. O Butch ajudou muito. Queríamos ter esse toque objetivo, capaz de nos dizer "faça isso", "não faça aquilo".
Folha - É difícil trabalhar com o Sonic Youth?
Gordon - É super fácil trabalhar conosco. Fazemos isso há um bom tempo, somos organizados e não nos entupimos de drogas o tempo todo. Sabemos bem o que queremos.
Folha - Como você analisa o sucesso do Nirvana? O fato de vocês serem da mesma gravadora, terem usado o mesmo produtor, de que maneira isso aproxima vocês?
Gordon - Há uma grande diferença entre nós: eles fazem música pop e nós não.
Folha - Sempre achei que o Sonic Youth é uma banda tipicamente norte-americana. Você concorda com isso?

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

JIMI HENDRIX, Sai No Brasil Reedição Remasterizada da Obra Completa do Guitarrista, Cantor & Compositor Norte-Americano

O guitarrista, cantor e compositor norte-americano Jimi Hendrix (1942-70), cuja obra, restaurada e remasterizada, é relançada agora no Brasil
PEDRO ALEXANDRE SANCHES

O mercado brasileiro se esperta e incorpora a obra completa do guitarrista, cantor e compositor norte-americano Jimi Hendrix (1942-70), recém-recomposta e remasterizada a partir de fitas mestras das sessões originais de gravação.
Além da restauração de seus quatro álbuns originais (leia nesta página), o pacote traz o "inédito" "First Rays of the New Rising Sun", álbum em que Hendrix estaria trabalhando quando morreu.
A novidade nem é tanta: o disco condensa material postumamente desmembrado em "The Cry of Love" (71), "Rainbow Bridge" (71) e "War Heroes" (72).
São sessões de estúdio feitas pelo artista entre 68 e 70. Incluindo demos e faixas atípicas, jamais se poderia dizer que formariam um álbum - muito com a capa "Rei Leão" que a família Hendrix (que acaba de retomar o controle da obra do guitarrista) lhe impingiu.
Reconstrução
No mais, a reconstrução é impressionante. As modulações criadas pelo trio Experience, completado pelo baixista  Noel Redding e pelo baterista Mitch Mitchell, reaparecem límpidas e evidentes como nunca estiveram.
A viagem se inicia por "Are You Experienced?", disco de revelação do músico canhoto de Seattle, que entrou na história por tocar guitarra como se estivesse no cio.
É resultado do encontro com Chas Chandler, baixista dos Animals, que se encantou com Hendrix - até então músico secundário de Little Richard, B.B. King, Ike & Tina Turner - e o convenceu a se radicar na Inglaterra.
Sob a batuta de Chandler, Hendrix surgia como, a um tempo, mantenedor raivoso do blues, modernizador negro do rock dos Rolling Stones e propulsor da onda psicodélica na Inglaterra.
De lá, dialogava diretamente com o pop psicodélico da Califórnia, de Love, Doors, Jefferson Airplane, Buffalo Springfield, Byrds.
Ia além, encarnando entidade que reunisse num só Elvis Presley e Bob Dylan (não sem pitadas psicodélicas do trovador Donovan). Ia mais além, trazendo ao rock estirpes negras de soul (Curtis Mayfield, Wilson Pickett), blues (Buddy Guy) e jazz (Miles Davis).
Ia ainda mais além: sua estreia já lançava, unida às de Sly Stone e George Clinton, os alicerces de um novo gênero: o funk.
Tudo isso "Are You Experienced?" apresentou, e "Axis: Bold As Love", lançado só sete meses depois, apimentou, ainda no formato das cançonetas de dois minutos, em tempo de pleno desbunde hippie/lisérgico.
No meio tempo entre os dois discos, Hendrix se apresentou no festival de Monterey e conquistou, afinal, o país natal. Aí se instalou a mística do músico literalmente incendiário, que destruía guitarras e fazia sexo com elas no palco.
Jams e rock progressivo
O ícone de projeto conceitual "Electric Ladyland" (68), álbum duplo dominado por jam sessions jazzísticas, vem fazer a reviravolta.
O Experience - Noel Redding, Jimi Hendrix e Mitch Mitchell - em 67
No pacote atual, o disco vem despido da antológica capa das mulheres nuas (que teria sido incorporada para encorpar o mito sexual que cercava o artista).
A canção pop passava a importar menos que o virtuosismo - Hendrix lançava os fundamentos de mais duas vertentes, bem mais depressivas: a do rock progressivo (Pink Floyd, Soft Machine) e a do hard rock (Led Zeppelin).

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

PRINCE, A Cor do Príncipe Pop

Prince com sua velha Telecaster (guitarra): uma fusão do pop negro e branco
PEPE ESCOBAR*

E continuamos sem poder sair do cinema nesta cidade. Os filmes do indiano Satyajit Ray estão na Mostra Internacional. Hoje estreia a Traviata de  Zefirelli, o amor voraz de Walter Hugo Khouri, o "Jubileu de Ouro do Pato Donald", "Nunca Fomos Tão Felizes", de Murilo Salles (prêmio no festival de Brasília, no último fim-de-semana), "The Karate Kid" (veja na última página deste caderno). Mas o grande relâmpago é mesmo o que anuncia uma certa chuva púrpura. Estreia hoje no Metrópole e Top Cine "Purple Rain" (EUA, 84, direção de Albert Magnoli), o filme de Prince, o garoto-prodígio de Minneapolis, um dos superstars dos anos 80. Esta é a história de um iconoclasta cool vivendo no meio de uma comunidade noturna punk-funk multiracial. Um filme que é puro rock'n'roll: agressividade sexual, humor irreverente, revolta existencial, tudo banhado em uma visão exasperada de uma espécie de "neon-noia" noturna. O maior mérito de "Purple Rain" como filme é demonstrar mais uma vez que um acorde de guitarra é capaz de transfigurar qualquer realidade adversa. Mas o mais interessante é a farta mitologia por trás deste sucesso absoluto há quase três meses, em mais de mil cinemas americanos, e em toda a Europa.
"Antes da noite acabar, você verá meu ponto de vista", canta Prince em "Baby, I'm a Star". Este garoto baixinho de 24 anos sabe como demonstrar sua equação pop. Nos EUA ele é "the hottest" (o mais quente). Arisco, alheio a entrevistas, recluso, comandando um império de sua mansão em Minneapolis. É o príncipe do paradoxo. Isola-se no fim do mundo. Mas quer ser o líder da garotada anos 80. Fala sem parar sobre sexo. Mas dedica seus álbuns (seis, com mais de 20 milhões de cópias vendidas) ao Divino lá em cima. Ou seja, é um solerte manipulador de imagens. E o que é mais interessante: revestido pela figura de um idealista, alguém que propõe uma nova ordem amorosa de comunhão multirracial. Megalomania? Um pouco. Afinal, estamos falando de um fenômeno made in USA. 
União
Prince é um "case history" de cruzamentos. Ele funde soul e funk com pop negro e branco. Em Prince estão desde os grupos vocais masculinos do início dos anos 60 até James Brown, passando pelo filho do vudu Hendrix. Este é o ícone-chave na mitologia pessoal principesca. "Purple Rain", o LP, lançado aqui há dois meses, deriva diretamente dos sobretons hippies da era Hendrix. A cosmologia hendrixiana exposta em "Purple Rain" (Bruma Púrpura) - "me dê um tempo enquanto beijo o céu" - vira uma chuva de amor nas palavras e acordes do multi-instrumental Prince. Claro que o som da guitarra não é o mesmo (Hendrix era um experimentalista progressivo; Prince ataca de soul e funk). Mas a atitude tem a mesma abrangência.

DAVID BOWIE, O Deus-Diabo da Era do Rock & da Técnica

O compacto "Let's Dance", de David Bowie, chegou ao primeiro lugar das paradas inglesas logo na semana de seu lançamento, e o LP - o 19º da carreira do cantor, ator e compositor - está entre os dez primeiros na Inglaterra e nos EUA. Síntese de várias influências musicais, será lançado no Brasil nas próximas semanas e é comentado nesta página em primeira mão

Ele veio para subverter todas as concepções de classe, sexo, etnia e expressão musical
PEPE ESCOBAR

Esta é a história exemplar do corpo-a-corpo entre o artista moderno e seu tempo. David Bowie e estes anos loucos não apenas foram feitos um para o outro; até certo ponto, criaram-se um ao outro, e não uma só vez, mas infinitamente.
David Bowie - nascido vagamente classe média em um subúrbio londrino de sólida tradição proletária, em 1947 - surgiu para o mundo em 72:  cabelos alaranjados, lamê, andrógino, metálico, estridente. Choque radical: não tanto pela insinuante decadência, produto da era da lua, mas pela teatralidade com que se apresentava. A convicção emocional sempre foi a matéria-prima do rock'n'roll, desde suas origens no blues e no folk., Bowie preferiu transgredir: manipulativo, surreal, até mesmo camp. A mensagem era muito menos perturbadora do que o mensageiro. Ele aparecia através de seu alterego, Ziggy Stardust: um messias sintético, alien que caiu na terra para atuar uma paródia do rock-estrelato. Um deliberado camaleão: sem passado, sem identidade. Para uns, o futuro. Para outros, um posador sem alma.
A verdade era mais complexa. Bowie era um produto típico do ecletismo da era Sgt. Pepper. Um outsider, claro, mas nem sempre escolhendo exaltar esta condição. Preferia se deixar influenciar por tudo: o estilo vocal de Anthony Newley, a visão de mundo cabaré-kitsch de Jacques Brell, mímica (estudos com Lindsay Kemp), misticismo (flerte com Zen), arte de vanguarda (experimentos em multimídia à la Warhol). E mergulhava na poesia simbolista, mesclada com a boemia artística de Oscar Wilde. Acima de tudo, um objetivo: fazer rock'n'roll.
Bowie chegou muito tarde para os anos 60. Mas já no álbum "Hunk Dory" inventava-se pela primeira vez, não como o imaturo romântico do início da carreira, mas no calculado papel de revisionista cool dos anos 70, criando imagens de segunda mão a partir de detritos culturais, forjando uma nova síntese. O artista como herói auto-referente, a meta-linguagem, precursores (Dylan, Lou Reed. Warhol) tratados como pedras de toque culturais - toda esta bagagem modernista empregada por Bowie já havia sido enterrada na literatura, mas era nova para o rock. Agora, preparava-se o terreno para uma nova geração de rock'n'rollers, frios, sexualmente ambíguos, emergindo das cinzas dos 60 para forjar uma irônica consciência futurista.
Com "Ziggy Stardust", Bowie tornou-se o avatar da nova era. Nos LPs seguintes, ele continuou mantendo em permanente transformismo sua persona de eterno outsider/ camaleão sem face (cuja utilização de, como símbolos de desorientação analógicos ou expressivos, ele já havia descoberto no tempo de "Space Oddity", em 68). Continuava elaborando equivalentes alegóricos para a morte do mito dos anos 60. Mas, no processo, já inventava cenários alternativos para a própria época. Na era do artifício, era o artífice-mestre.
Que habilidade! Qualquer quimera subjetiva que criasse funcionava como fantasia de massa. Mas esta habilidade dependia de sua recusa em se engajar em qualquer destas invenções. Redefinindo o conceito de estrelato como uma série de personificações brilhantes, expandiu suas possibilidades de utilização: qualquer garoto de subúrbio podia ser um criador; ele era apenas mais um. E, porque era intelectual e alienado, foi capaz de entender o rock'n'roll criticamente - como mito, construção artística, fenômeno social e força cultural -, de uma maneira a que seus predecessores, vivendo o mito por dentro, nunca poderiam aspirar.
Conferindo novos matizes às noções de elegância e estilo, Bowie abandonou o "glitter" e os efeitos dramáticos grandiloquentes, adotou um estilo visual rígido e foi gravar na Filadélfia um LP funky: "Young Americans". Outro ousado experimento de adaptação de sua mensagem a formatos da mídia. Continuou elaborando conexões, inventando paralelos, brincando com contextos - recriando branco como negro, sexo como política, política como sexo; método paródico, involutivo - e transformou a soul music em plástico (era o auge da discoteca), mecanizando todos os seus componentes formais, para criar sua própria versão de soul, transfigurada pela persona. Toque de extrema classe, épico senso do momento histórico e suas possibilidades: estava remodelada a música negra para ouvidos brancos.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

ELVIS COSTELLO, Nas Linhas de Fuga do Pop

Elvis Costello: cada vez mais cínico e refinado
PEPE ESCOBAR

Foi sem dúvida o mais belo verão pop dos últimos anos. Em Londres, em agosto,  jogava-se todos os tons da música moderna - do lirismo decadente de Marc and the Mambas à neo-psicodelia dançante de Echo and the Bunnymen, da sofisticação sintetizada de Blancmange à dialética sadomasoquista de Bauhaus, do sincopado melancólico de UB40 à moderníssima inocência de Altered Images. A nova música estava nos parques, ruas, casas, walkmen e espíritos. Possessa de inteligência, fazia com que se esquecesse do tecnofunk e do sub synth pop reproduzidos em série nas listas dos mais vendidos, nas discotecas "straight" e nas rádios popularescas.
Nas pequenas lojas de disco de subúrbio e nas festas das pessoas adequadas, Tears For Fears era imprescindível. Ovations em primeiro plano, camadas de sintetizadores - alguns funcionando com seção de metais -, o arquetípico vocal suave pop inglês e um irretocável senso de swing. Um LP repleto de singles virtuais, alguns memoráveis, como "Mad World" ("os sonhos pelos quais estou morrendo são os melhores que já tive").
Com Eurythmics o efeito foi ainda mais letal. Afinal a superchique Annie Lennox, improvável amálgama de Bowie e Judy Garland, longas pernas e voz extraordinária sobre densas texturas eletrônicas, finalmente dominava uma grande audiência. Nada de funk leve. E não apenas synthpop, mas riffs fortes, melodias vagando pelas tangentes e até mesmo uma slide guitar de blues. Ambiguidades: Annie e Dave são ex-amantes. Anne se veste de homem. Seu som parece luxuoso: mas "Sweet Dreams" foi gravado em um estúdio barato, de oito canais em um depósito de subúrbio. Tudo muito mais simples do que o primeiro álbum gravado em Colônia, com o multi-instrumentista Holger Czukay, o baterista do Can Jaki Liebezeit, o baterista do DAF Robert Gorl e o filho de Stockhausen, Marcus, no trompete. Agora Dave Stewart toca quase tudo em estúdio, permitindo a Annie soltar toda a libido em releituras como a de "Wrap It Up", de Sam and Dave, a anos-luz do soul bem-pensante privilegiado pela indústria do disco.
Até que um dia explodiu o delírio. Era o novo LP de Elvis Costello, o "angry young man" do pop, líder espiritual e político, junto com Paul Weller, ex-Jam, da maior parte da juventude inglesa e europeia. Com "My Aim Is True" (77), "This Year's Model" (78) e "Armed Forces" (79), Costello tinha redefinido todas as noções correntes de revolta cínica, derrotas do anarquismo interpessoal e desprezo pelo microfascismo cotidiano. Depois de conturbados ups e downs, chegava com "Imperial Bedroom" (82) a uma mescla de orquestrações elaboradas e fina melancolia. Estava a um passo da festa total.
"Punch the Clock" tocando na King's Road em um sábado à tarde de sol era um vertiginoso balé sonoro maravilhando a rua mais bem produzida do mundo. Fluxos vibrantes de Stax/Volt, Motown, soul, rhythm'n blues, influências de Ray Charles. Costello, ex-vulnerável, tomava plena posse de si mesmo. Música como sempre construída em torno de sua maneira de cantar, agridoce, urgente, intensamente emocional, dissecando e criticando as relações de poder modernas. Costello se dava ao luxo de ser eterno. Claro, acompanhado de uma satânica seção de metais, duas cantoras negras e imprevistas sequências de acordes.
Arranjos privilegiando os metais ("TKO", "The Greatest Thing"). Puro pop ("King of Thieves"). Uma balada sublime, "Shipbuilding", escrita para Robert Wyatt, com uma suave intromissão do trumpete de Chet Baker. Contém a essência da melancolia deste Elvis ("Mergulhando pela preciosa vida/ quando poderíamos mergulhar por pérolas"). Ouvindo uma canção triste no rádio, pergunta como chegamos tão longe apenas para encontrar um clichê de soul - é  um passe em homenagem a Otis Redding em "Fa Fa Fa, Sad Song". Ele diz: "Sei que tenho meus defeitos/ entre eles não consigo controlar minha língua". Não a controle, Elvis. Mantenha-se cool. E continue vomitando fragmentos de uma nova voracidade. FOLHA DE S. PAULO (30/10/1983)

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

TOM WAITS, Um Cão Vadio Na América

O cantor e compositor fala de 'Rain Dogs', seu LP que está sendo lançado no Brasil

RAIN DOGS - Disco do cantor e compositor norte-americano Tom Waits com a participação de Keith Richards (Rolling Stones) e do grupo The Uptown Horns
Da Reportagem Local*

A agonia da América em quarenta minutos, com seus bêbados, "outlaws" deserdados e visionários, é o que representa o primeiro LP de Tom Waits lançado essa semana no Brasil, "Rain Dogs", há um ano girando na vitrola acima do Equador. Na época do seu lançamento nos Estados Unidos, o próprio Waits, então com 35 anos, se encarregou de introduzir o público nesse universo etílico regado a canções amargas e apaixonadas, de nítida  inspiração baudelaireana.
Abaixo, trechos dessa gravação em que o cantor e compositor explica as origens do disco e comenta algumas das dezenove faixas de "Rain Dogs":
"Vamos falar de uma nova produção, uma produção chamada 'Rain Dogs' (que, numa livre tradução, pode significar 'cães vadios'). O que é um cão vadio? Tom Waits é um cão vadio. Serei eu um cão vadio? Você, um cão vadio? O que é afinal um cão vadio? Onde eu consigo um? Será que eu tenho sido um cão vadio em minha vida e não sei? Será que eu preciso de um psiquiatra? Será que eu preciso de um carro de corrida? Do que necessito eu, afinal?"
"Na zona central de Manhattan ou em qualquer outro lugar de Nova York, após chover, todos os cães procuram um abrigo qualquer e depois não conseguem encontrar o caminho de casa. Então, é comum encontrá-los pela manhã, vagando pelas ruas. A chuva apagou todos os traços de suas trilhas e eles ficam olhando com aquele olhar perdido, tentando encontrar alguém que os ajude a voltar para casa. 'O senhor me ajudaria a voltar para casa, por favor? Desculpe-me, senhor, daria para me ajudar a voltar para casa?'"
Você poderá encontrar todos os tipos de cães com esse mesmo problema - os grandes, os pequenos, os pretos, os sofisticados, os neuróticos - todos querem voltar para casa. Isso é o que eu chamo de cão vadio. É como cair no sono em um lugar desconhecido e sentir-se perdido entre a mobília da casa. Os móveis parecem ter mudado de lugar enquanto você estava dormindo. O céu mudou de cor e você não reconhece mais nada."
Dor e desconforto
"A maior parte das histórias contadas neste disco têm, portanto, algo a ver com pessoas que moram em Nova York e já experimentaram essa terrível sensação de dor e desconforto. É justamente do que trata o disco. E quais são os títulos das canções? 'Singapore', 'Clap Hands', 'Cemetery Polka', 'Tango 'Till They're Sore', 'Gang Down Your Head', 'Midtown' etc. 'Gun Street Girl', por exemplo, fala de um cara envolvido com a lei, que vai para a cadeia por causa de uma garota de rua que conheceu em Little Italy (bairro italiano de Manhattan, Nova York, costa leste dos EUA)".
John Lurie, Roberto Benigni e Tom Waits em cena do filme Down By Law, do diretor Jim Jarmusch

"'Blind Love' é uma das minhas primeiras canções 'country'. Em 'Walking Spanish' pode-se ouvir John Lurie tocando sax. Ele é um excelente saxofonista e ator (os dois trabalharam juntos no mais recente filme de John Jarmusch, 'Down By Law', exibido no último Festival de Cannes). É uma música expressionista. São 4h30 da manhã e um bebê acorda gritando, obrigando você a se levantar da cama. Isso é 'walking spanish'. Alguém diz para você algo como 'ouça, cara, me dá todo o teu dinheiro' e você enfia a mão no bolso. Você está 'walking spanish'".
"'Bride of Rain Dog' é uma música instrumental, quase um gospel. 'Cemetery Polka' é como se seus parentes mortos voltassem dos túmulos. 'Singapore' fala de uma viagem imaginária a Singapura, tendo como capitão um anão de um braço só. Só lhe resta tentar conseguir um drinque para beber. 'Anywhere I Lay My Head' é mais popular. Onde quer que você encoste a sua cabeça, ali será seu lar. O disco é isso."

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

PACO DE LUCIA, Guitarrista Volta À Essência do Flamenco

Zyryab - o Pássaro Negro - era e é o apelido pelo qual Abu al-Hasan Ali ibn Nafi era conhecido, considerado o pai da música de Al Andalus (nome dado à Península Ibérica no século VIII)
Do "El País"

Após três anos de silêncio discográfico, Paco de Lucia retornou aos estúdios. O novo disco, "Zyryab" (que saiu no final de outubro, na Espanha), traz de volta o mais internacional artista flamenco. Nos créditos, nomes importantes como os de Chick Corea, Manolo Sanlucar, Pepe de Lucia e Joan Albert Amargos.
"Cada vez me custa mais fazer um disco", diz Paco de Lucia, "porque estou repleto de trabalho. Gravei 'Zyryab' em partes, durante seis meses. Tenho que compor cada nota que toco".
Mesmo que, aos 43 anos, leve sua carreira com calma, Paco nunca está contente com seu trabalho. "Quando acabo um disco, sempre tenho a sensação de que muitas coisas ficaram na cabeça", diz. "Muitos guitarristas jovens se fixam no que eu faço e, se eu me equivoco, podem se equivocar também. Ainda mais quando há tantos falsos puristas, defendendo que o único puro é o antigo. Por isso tenho que manter as raízes essenciais do flamenco com uma linguagem atual".
Após a morte dos guitarristas Melchor de Marchena, Nino Ricardo e Sabicas, Paco ficou só, como o maior representante da guitarra flamenca e de sua evolução a partir dos cânones clássicos. "Graças a Deus", diz Paco, "os jovens vêm me seguindo, obrigando a que eu me supere. Há uma espécie de revolução da guitarra flamenca".
Em "Zyryab", Paco de Lucia interpreta "bulerias", "tarantas", "fandangos" e "rumbas". Dedica um tema a Sabicas e outro a Chick Corea, pianista de jazz que também participa do disco. "Fui buscá-lo em sua última apresentação em Madri. Não sabíamos o que iríamos fazer, mas encontramos algo. É um tema interpretado quase no momento e Chick faz uma improvisação preciosa, apesar de termos gravado às oito da manhã".
Esse disco é o último passo de uma carreira que Paco de Lucia começou aos 11 anos e que continua com muitas atividades. A partir desta semana, ele faz uma turnê pelo Brasil. Depois grava um disco com Camarón de la Isla - uma notícia que alegrará os aficionados, após longos anos de separação entre o guitarrista e o cantor. E também faz uma apresentação em Paris com John McLaughlin, onde interpretarão em duo o "Concerto de Aranjuez", de Joaquim Rodrigo.
Ao concluir seus últimos compromissos na turnê espanhola, Paco se dizia satisfeito. "Fazia tempo que eu não tocava na Espanha", diz o guitarrista. "Durante muitos anos eu abandonei a responsabilidade com um grupo de músicos de jazz, mas agora decidi recuperar a essência do flamenco junto aos guitarristas José Manuel Canizares e José Maria Bandera. Volto para comprovar até que ponto o público gosta da guitarra. Estou surpreendido, porque a acolhida tem sido excelente".
Nesses concertos, Paco de Lucia toca em solo, duo e trio, composições próprias e dois temas de Manuel de Falla, "A Dança da Vida Breve" e "A Dança dos Vizinhos". É o regresso do guitarrista à austeridade, depois de anos colaborando com músicos não-flamencos. "Nunca pretendi abandonar o flamenco. Queria ampliar meus conhecimentos, para depois voltar a minha música e lutar com novas ideias. Jamais trairei minha cultura", diz. FOLHA DE S. PAULO (14/11/1990)

NINE INCH NAILS, Banda Mostra Futuro Através da Violência

O americano Trent Reznor, único integrante de sua banda, o Nine Inch Nails
FÁBIO MASSARI
Especial para a Folha

O Nine Inch Nails é uma banda de um homem só. O Nine Inch Nails é Trent Reznor. Ninguém, incluindo esse americano de Nova Orleans, de 27 anos, poderia imaginar que em pouco mais de três anos o NIN emplacaria um Top 10 na "Billboard", consagrando-se como uma das bandas mais cultuadas e violentas do momento. Este é o ano do NIN.
O primeiro disco do grupo, "Pretty Hate Machine" (TVT Records), lançado no final de 88, parecia ser só mais uma coleção de disparos "industriais" nervosos embalados pela voz alucinada de Trent. Hoje, o disco - independente - é platina nos EUA (a marca para  o disco de platina é de 1 milhão de cópias vendidas).
Esse cômodo rótulo de som industrial nunca foi negado por Reznor, mas há algo mais sob a parafernália tecnológica. Se os puristas acham que o industrialismo capaz de atacar o "establishment musical" fica por conta de bandas como Test Dept. e Einstuerzende Neubauten, a nova geração prega a existência de bandas híbridas - como Ministry e Meat Beat Manifesto. O NIN pode se encaixar em qualquer uma dessas categorias, mas seria pouco.
Ao roubar a cena na primeira edição do Festival Lollapalloza, em 91, o ataque metálico hardcore do NIN serviu como cartão de visita para um futuro próximo.
Problemas contratuais com o selo TVT Records impediram que Trent gravasse por dois anos. Mas o NIN não saiu da estrada, abrindo shows até para o Guns.
Muitos dizem que o forte do NIN é o marketing: letras exageradamente agressivas, recorrentes problemas com videoclipes - "Happiness in Slavery" não deve ver a cor da telinha - e a decisão de se hospedar na casa em que Sharon Tate foi assassinada para gravar seu segundo disco.
As respostas de Trent provam que nem só de marketing vive o Nine Inch Nails. "Broken" (92) é um EP com oito faixas, já considerado um dos grandes discos da década. Trata-se de um desfile de guitarras furiosas, vozes imprecatórias, teclados virulentos, tudo em ritmo hardcore. Logo depois, o NIN lançou "Fixed", com remixes de "Broken". "Fixed" não foi bem recebido pela crítica, mas tudo isso é só aperitivo para o próximo disco. Trent diz que será "revolucionário".
O NIN já foi chamado de o "futuro do metal". Poderia ser do industrial, do eletrônico, do que fosse. E um dos retratos mais fiéis dos tempos atuais. Canta a violência em estado puro, suas causas e seus efeitos. É transgressivo. É rock. É o seu futuro.
Clipe exibe ritual de tortura
"Happiness in Slavery" quer dizer alegria na escravidão, mas poderia significar alegria na dor, ou mesmo salvação na dor, pela dor. O que é certo é que esse videoclipe do NIN é um dos mais violentos vistos nos últimos tempos. Banido na Inglaterra, idem nos EUA, o vídeo é um inescrupuloso exercício de violência - que incomoda porque tem a força de algo que pode acontecer a qualquer hora, ali na esquina.
Um sujeito entra num quarto-santuário e inicia um ritual que inclui rosas negras (é tudo em preto e branco) e velas. Ao se despir, notam-se duas coroas de espinhos tatuadas sobre os genitais. O sujeito se deita numa cama e é imediatamente agarrado por instrumentos que iniciam um crescente ritual de tortura. A voz de Reznor, que é sempre rasgada, parece mais distante, chorosa, ao suspirar o refrão "happiness in slavery".

SONIC YOUTH, Distorções, Ecos & Ruídos Marcam O Som da Banda

Da Reportagem Local

Ouvir "Daydream Nation", álbum duplo do quarteto nova-iorquino Sonic Youth, requer esforço triplo. Primeiro para absorver a barulheira de distorções, ecos e ruídos produzidos basicamente pelas guitarras de Thurston Moore e Lee Ranaldo. Depois, a tarefa é descobrir a melodia gravada na base. Por fim, chega-se a uma síntese do que está contido em dez faixas e na suíte "Kissability Trilogy".
Desde 82, o Sonic se notabilizou por exigir do ouvinte um mínimo de compreensão. O grupo dá ao som da guitarra uma complexidade montada em cima do trabalho de estúdio. A partir de melodias simples, com três ou quatro acordes, o Sonic inicia um intrincado repertório de harmonias que camuflam a partitura original. Tudo com uma base  "hardcore" levada por Kim Gordon (baixo) e Steve Shelley (bateria).
"Daydream Nation" foi gravado em dois meses. Traz na capa duas pinturas de Gerhard Richter e no encarte a foto desfocada do grupo feita por Michael Levine. É a melhor definição visual do disco.
O resultado final traz boas  soluções melódicas ("Providence", "Candle", "Cross The Breeze" e "Eric's Trip") combinadas com rocks detonados "Teen Age Riot", "Silver Rocket" e "Hey Toni"). Custa caro ter "Daydream Nation" (cerca de Cz$ 25 mil nas importadoras), mas vale a pena o investimento. Afinal, o trabalho do Sonic continua inédito aqui. (LB) FOLHA DE S. PAULO (7/12/1988)

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

SMASHING PUMPKINS, Billy Corgan Ameaça Romper Com O Grupo

O vocalista Billy Corgan (segundo da esq. para a dir.) junto da banda Smashing Pumpkins
Do "Libération"

Com o álbum de estreia "Gish", surgia no cenário pop o grupo Smashing Pumpkins e um personagem: o vocalista Billy Corgan, hermafrodita sem complexos e narcisista. Lançado antes de "Nevermind", o álbum tinha a mão de Butch Vig, produtor do Nirvana, e aparecia antes da onda grunge (1991). Foi bem-recebido pelo público, mas nada de fantástico: 130 mil discos nos EUA.
Com "Siamese Dream", veio o estouro: o Smashing Pumpkins entrou direto em 10º lugar na parada da "Billboard".
Na entrevista a seguir, Billy Corgan fala sobre seus conflitos com o grupo e sua possibilidade de rompimento com os membros do Smashing Pumpkins. "Minha atitude é clara: ou é comigo ou fora", diz o vocalista.
***
Pergunta - Em setembro de 92 vocês anunciaram um disco mais "específico"...
Resposta - "Gish" representou o corpo, este é mais interno. A verdade tem vários níveis. Durante muito tempo acreditei que era alguém que eu não era e tentei ir ao fundo das canções. Não queria que elas soassem como se os Smashing Pumpkins tentassem fazer algo psicodélico ou rock; queria ir adiante.
Quando criança ficava quieto por ser mais fácil, fazia de conta ser outra pessoa para preencher o vazio em minha volta. Difícil explicar... Era eu, mas não totalmente. Meu verdadeiro eu é uma pessoa muito gentil, educada e doce, aquele que me esforçava por ser era muito mais duro. Tinha medo de me mostrar.
Pergunta - Em "Siamese Dream" os extremos foram exacerbados.
Resposta - Não tanto quanto desejava. Estou aprendendo a desaprender, e meus miolos estão de ponta-cabeça. Na base há uma verdadeira sensibilidade pop, como nos "Valentines".
Pergunta - Por que Butch Vix de novo?
Resposta - A gente se entende bem, ele sabe onde quero chegar, que o grupo não está aí para fabricar sucessos, que sua estética vai além disso, o que é raro para um produtor americano.
Pergunta - A palavra andrógino vem muito à tona quando se fala de Smashing Pumpkins.
Resposta - Sei disso, mas acho bobagem. Sou um ser humano que se tornou por acaso mais masculino do que feminino.
Pergunta - Quais os versos mais difíceis de escrever?
Resposta - Todos (risos). Tentei encontrar "A" verdade, criava textos desligados da realidade. Procurava a verdade sob os sentimentos, o que motiva as pessoas, o que as separa.
Pergunta - Seus músicos dizem que a gravação foi um inferno. Qual a sua versão?
Resposta - Eles não estavam preparados; nem mentalmente, nem fisicamente. Acreditavam que bastava ser Smashing Pumpkins. Já tivemos esse tipo de problemas com "Gish" quando me forçaram a tomar conta de tudo. Eu os avisei: tiveram um ano para mudar, se preparar... Ficaram vivendo numa boa, na auto-satisfação. Fui o único a "amadurecer" "Siamese Dream".

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

THE SMITHS, O Grupo Inglês Lança Na Europa Um Novo LP

Os componentes do conjunto inglês The Smiths
NICOLAU SEVCENKO

Saiu... os corações mais trêfegos já podem se tranquilizar, podem jogar no lixo todo o estoque de Vallium e Diempax, dar folga para as unhas e apagar o cigarro. Toda a angústia e ansiedade da espera acabou. Já se pode trocar a insônia pelo pesadelo: até que enfim saiu, na Europa, o novo LP dos Smiths. Prometido para o começo de maio pelo selo independente Rough Trade, o disco acabou atrasando um mês e meio em função dos arranjos para o lançamento simultâneo através da Sire nos Estados Unidos. A gravadora, o pessoal do grupo, a imprensa e o público já não aguentavam mais o que parecia um castigo interminável, imposto pelas leis de importação americanas, e que privavam os ingleses do seu mais sofisticado prazer: a melodia órfica de Steven Morrissey, a música e os arranjos de guitarra de Johnny Marr, a poesia insidiosa e o tom melancólico do grupo que definiu a atmosfera cultural dos anos 80. Até que enfim saiu o novo LP dos Smiths. Agora tudo está salvo. Aliás, tudo exceto aquela estranha pontada que a gente sente no peito toda vez que pensa (da qual portanto muita gente está livre) - essa tende a aumentar em frequência e intensidade - exceto a paz platônica que recobre o palácio de Buckinghan e os prédios do Parlamento, tão propícia para o crescimento do bolor (sim, o bolor se alimenta do silêncio). O título do disco traz um anúncio, "A Rainha Está Morta". É a provocação com que Morrissey saúda o sexagésimo aniversário da rainha, no momento em que o país mergulha numa de suas mais dramáticas crises. No fundo é muito mais do que apenas a monarquia ou apenas a Inglaterra.
Inferno de ambiguidades
Na faixa-título do LP, Morrissey pretende nada menos que, em suas próprias palavras, traçar "uma espécie de panorama geral do estado em que se encontra a nação." Mas há muitos truques aí, tanto para evitar a censura, quanto para jogar mais querosene no inferno de ambiguidades das suas letras, "a velha rainha de que fala a canção, sou na realidade eu". Diz a letra da canção: "Eu verifiquei os registros históricos/e fiquei chocado até a vergonha ao descobrir que eu sou descendente em décima-oitava geração/de alguma velha rainha qualquer." E por que o choque da vergonha? Pelo imobilismo de uma estrutura política que ilude, ignora e esconde as brutalidades do cotidiano, perpetuando a aflição coletiva sob uma fachada de glória, austeridade e requinte. "Quando você está grudado no avental da sua mãe/ninguém lhe fala sobre castração". Mas atenção, ele está falando tanto do poder quanto de si mesmo (e portanto de mim, de você e do circo todo), tanto da política quanto da arte. E ei-los juntos de novo mais adiante: "nós podemos caminhar para onde é mais quieto e mais seco/e podemos falar sobre coisas preciosas/como o amor, a lei e a pobreza/essas são as coisas que me matam." Mas a vida continua ruindo sob esse diálogo elegante. "Foi o mundo que mudou ou fui eu? Quando um durão de nove anos de idade mascateia drogas/ e eu nunca sequer soube que elas existiam". No meio dessa monstruosidade que nenhuma palavra mais é forte o suficiente para definir, alimentar ilusões confortadoras, além de criminoso e estúpido não há mais o avental e nem a mãe: "A rainha está morta, moçada/e é tão solitário num limbo/a rainha está morta, moçada, podem acreditar em mim."

JUDAS PRIEST, Líder do Grupo Diz Que Rock Não Mata

Rob Halford, líder e vocalista do Judas Priest, que se apresenta no Rock in Rio 2 no dia 23 de janeiro
SÉRGIO SÁ LEITÃO

Desde 1985, quando Iron Maiden e Ozzy Osbourne detonaram seus decibéis extasiantes no primeiro Rock in Rio, os "headbangers" brasileiros não tinham nada igual à disposição. Agora, porém, Dioniso reina nas hostes do metal: a seca de grupos indispensáveis acaba no dia 23 de janeiro, com a apresentação de Rob Halford (voz), KK Downing (guitarra), Glenn Tipton (guitarra), Ian Hill (baixo) e Scott Travis (bateria). Em outras palavras, o Judas Priest em carne, osso e amplificadores à beira da combustão.
Fundado em 1974 na Inglaterra, o grupo liderou a segunda geração do heavy metal, responsável por sua afirmação como gênero independente do hard rock. Com LPs brilhantes no currículo, o Judas Priest chega ao país em seu melhor momento. Após uma década de paralisia criativa, quando não conseguiu acompanhar a explosão do thrash, o grupo voltou à forma com o LP "Painkiller". Em entrevista à Folha, Halford falou sobre o disco, o processo que respondeu por indução ao suicídio de dois jovens e o show do Rock in Rio. "O rock não mata", disse. "Apenas diverte".
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Folha - Há pouco o Judas Priest foi acusado de induzir dois jovens norte-americanos ao suicídio. A absolvição foi rápida, mas a imagem do grupo saiu arranhada do episódio. O rock mata?
Rob Halford - Não. De modo nenhum. Bem, há duas maneiras de encarar o assunto. Os conservadores dizem que o rock influencia a vida das pessoas, leva a uma catarse religiosa que cega a razão. Mas não há nenhum estudo científico provando isso. Outros dizem que não se pode estabelecer uma relação direta de causa e consequência entre o rock e a atitude dos fãs. Eu penso desse modo. Os garotos que se mataram ouvindo Judas Priest ou Ozzy Osbourne não estavam com a cabeça no lugar antes de comprarem os discos. Nossa música, como ficou claro, foi apenas um pretexto. Os dois meninos tinham problemas afetivos e sofriam de um complexo de rejeição.
Folha - O rock, então, deve ser encarado só como uma forma de diversão?
Halford - O rock é um dos acontecimentos mais importantes da cultura ocidental nesse século. Trata-se de um fenômeno de massas que ainda não foi estudado com seriedade. Acho que ele expressa os sentimentos dos jovens, exorciza a violência das cidades e diverte com força, potência. Isso não significa que ele leve a qualquer parte. Os adultos caminham com a próprias pernas. Os jovens também fazem isso, só que escutando rock no walkman. O rock é diversão. Sem ele, haveria ainda mais gente louca e violenta por aí.
Folha - O grupo tem conseguido escapar à ação da censura nos EUA. O heavy, porém, é um alvo tão visado quanto o rap. Você concorda com a censura a LPs?
Halford - Eu odeio a censura. Ela é perigosa e desestimulante. Sou contra a censura sobre qualquer tipo de arte, qualquer tipo de produto cultural. O Estado não tem o direito de dizer o que as pessoas podem ou não consumir. Nenhuma associação civil pode ter esse direito. A censura investe contra os direitos humanos. É fascista. O Suicidal Tendencies ganhou o selo de aviso aos pais em seu último LP ("Lights, Camera, Revolution"). É sinistro.
Folha - Os anos 80 não foram quentes para vocês. O som perdeu em força e qualidade desde 1982. O que ocorreu?
Halford - Todos os nossos discos dos anos 80 conseguiram ouro ou platina. Foram bem-sucedidos em termos de público. Desde a explosão do thrash metal, porém, entramos em uma crise de criatividade. De fato, fomos repetitivos e chatos em alguns momentos. Penso que ficamos batendo na tecla do heavy metal clássico por muito tempo. Nosso problema foi de qualidade. Quando você está na estrada há tanto tempo, é difícil manter o padrão. Além disso, ficamos atordoados com o thrash.