A REVISTA GUITAR PLAYER NORTE-AMERICANA FOI FUNDADA DURANTE O VERÃO DE 1967 QUANDO JIMI HENDRIX PÔS FOGO NA SUA STRATOCASTER EM MONTEREY E DETONOU UMA REVOLUÇÃO NA GUITARRA ELÉTRICA. EM TRÊS DÉCADAS, DESDE AS CHAMAS SAGRADAS DE JIMI, MILHARES DE ÁLBUNS DE GUITARRAS FORAM LANÇADOS E, EMBORA MUITOS APENAS OSCILARAM POR UM MOMENTO NO OUVIDO DO PÚBLICO, OUTROS MARCARAM REGISTROS PERMANENTES NA CABEÇA DOS GUITARRISTAS.
SEIS EDITORES DA GP NORTE-AMERICANA - JOHNSTON, GORE, OBRECHT, ROTONDI, THOMPSON E ELLIS - VASCULHARAM AS SUAS MEMÓRIAS, COLEÇÕES DE DISCOS, NÚMEROS ATRASADOS E LIVROS DE REFERÊNCIAS PARA DESCOBRIR OS MELHORES DISCOS DE GUITARRA DOS ÚLTIMOS 30 ANOS. A PARTIR DAÍ, HOUVE UM GRANDE ESFORÇO PARA ESCOLHER O SINGLE MAIS IMPORTANTE E INFLUENTE PARA CADA ANO. "MISSÃO IMPOSSÍVEL", VOCÊ DIRIA? ANDY ELLIS CHEGOU A ARGUMENTAR CONTRA O CONCEITO JORNALÍSTICO DE COLOCAR UM SINGLE DE UM DISCO SOBRE OUTRO. NO ENTANTO, OS DEMAIS MEMBROS DA "COMISSÃO JULGADORA" DECIDIRAM INSISTIR NO CARA-OU-COROA INTELECTUAL E PROVÁVEL DILÚVIO DE CARTAS DO TIPO "COMO VOCÊS PUDERAM DEIXAR DE FORA...?", NA ESPERANÇA QUE AS ESCOLHAS POSSAM INSPIRAR OS GUITARRISTAS A BUSCAREM A MÚSICA ESSENCIAL. A SURPRESA, AO FINAL, FOI QUE A LISTA DOS ESCOLHIDOS COMBINA COM A ÊNFASE EDITORIAL DA GUITAR PLAYER NO QUE DIZ RESPEITO AO ECLETISMO. DOS RENEGADOS DAS CORDAS DE NYLON AOS FUSIONISTAS E PUNKS PRIMAIS, AS ESCOLHAS TOP E VICE-CAMPEÃS CONFRONTAM AS POSSIBILIDADES DO INSTRUMENTO COM UMA INDIVIDUALIDADE SEM COMPROMISSO.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

EGBERTO GISMONTI, A Alma da Música Num Mundo Sem Alma

Egberto Gismonti completa 39 anos. E lança Alma, seu disco mais manso e espiritualizado

Gismonti: "Eu espero que Alma toque no mais fundo das pessoas"
GABRIEL NOGUEIRA

"Um disco contemplativo, muito mais calmo do que os anteriores. Eu não posso dar às pessoas o que as pessoas estão vivendo. Mas calma é o que eu estou precisando no momento" - é assim que Egberto Gismonti define Alma, o novo disco que chega às lojas nesta sexta-feira. Exatamente a data em que o multinstrumentista e compositor completa 39 anos. São nove faixas, todas anteriormente já gravadas em discos no Brasil e no Exterior, mas recriadas em Alma. Segundo a crítica, a sua plenitude como músico e como criador.
O processo de criação de Alma nasceu a partir de experiências difíceis que Gismonti teve este ano, em excursões pela Europa, Oriente Médio e Estados Unidos. Em todos esses lugares, ele encontrou bombas, atentados, assassinatos, tragédias. Isso o deixou muito deprimido, e a catarse - a procura da alma, num mundo aparentemente sem alma - saiu às avessas da realidade. Maduro e sereno como o planeta não está. Aos 17 anos de carreira, sem a menor preocupação com o mercado, seu sucesso surpreende os técnicos no assunto: Trem Caipira, trabalho considerado pouco comercial, caminha para o disco de ouro. E Alma sai das prensas da Emi-Odeon com tiragem inicial de 45 mil cópias.
Mas entre Trem Caipira e Alma, Gismonti reconhece muitas diferenças: "Em Alma não prevalece o uso do computador. Os últimos três ou quatro discos que eu fiz foram voltados para essa tecnologia de sintetizadores, computadores, etc. Mas este é outro momento, o momento da minha paz interior. Então em Alma prevalece o som de um piano". Preocupado com os destinos do planeta, ele acha que "o mundo caminha para uma solução que não é nada saudável". E foi por isso mesmo que resolveu "fazer uma coisa que fosse contrária a tudo isso que eu tinha vivido, assistindo à violência": "Para me recuperar como pessoa e, como consequência, para dar a possibilidade, às pessoas que ouvirem esse trabalho, de refletir um pouco mais, de forma mais saudável".
No meio do surto de rock que assola o País, parece não haver muito espaço para a alma. Mas Gismonti não está preocupado com isso: "Alma é um negócio que pertence a cada um. Cada um pode fazer da sua própria alma o que quiser. Tem certas músicas que tocam a grande maioria das pessoas, ao mesmo tempo. Outras tocam só alguns. Por exemplo, Palhaço toca a muita gente ao mesmo tempo. Ela pode ser a alma comum".
Até o final de janeiro, Alma estará sendo divulgado - mas a partir de março, Gismonti começará os shows: "Em São Paulo, deverá acontecer no Cultura Artística, o teatro que está mais próximo do ambiente desse disco". Até lá, ele divulga sua alma: "Não é apenas uma coletânea dos 17 anos de carreira. É uma mudança radical, está tudo de cara nova. É uma nova fase dentro da minha vida. Depois de mergulhar em Villa-Lobos, recriando, me deu uma força muito grande, principalmente por causa do resultado inesperado. Eu descobri que podia contar uma história, com presente, passado, futuro. Música tem uma história concreta, não tem nada de abstrato".
E é para contar essa história que Alma traz um encarte com as partituras das músicas, computadorizadas, para dar forma ao conteúdo: "Espero que, quem ler música, entenda as partituras e quem não entende, goste disso porque é muito bonito visualmente. Por que, afinal, os brasileiros não poderiam pegar uma partitura apenas para olhar? Para mim, nada nesse disco é tão representativo quanto esse encarte. E eu espero que Alma toque no mais fundo das pessoas, nos sentimentos básicos: afeto, solidariedade, respeito. Tudo o que está faltando no mundo".

Uma suíte de voos livres

LUÍS ANTÔNIO GIRON

Alma é o 34º LP nos 17 anos de carreira de Egberto Gismonti. Sua obra compõe um mundo dinâmico, propenso a mutações. O compositor não se fecha em gêneros. Prefere buscar material nos ritmos nacionais populares, ao mesmo tempo em que se deixa encantar pelas fórmulas da música erudita e pelas liberdades do jazz. Alguns detratores podem chamá-lo de restaurador do instinto de nacionalidade, ou mesmo de exibicionista. Mas o disco mostra relevos ocultos deste mundo.

DEAD KENNEDYS, Sob Rastro de Rancor, A Saga do Grupo

Kennedys. Reação de ódio ao nome de batismo da banda
JOTABÊ MEDEIROS

A grandiloquência wagneriana de coros lúgubres, seguida de assaltos de guitarra da canção California Über Alles, dos Dead Kennedys, virou um símbolo de resistência nos últimos 26 anos. Uma das bandas punk do final dos anos 70 menos tocadas, menos cortejadas pelas gravadoras (sempre fez discos por selos independentes) e revistas especializadas, menos entrevistadas e das mais influentes da história, a californiana Dead Kennedys e seus hinos ganham uma primeira biografia de fôlego. E o que é mais interessante: a partir de um recorte curto, a feitura do seu primeiro disco.
Dead Kennedys - Fresh Fruit for Rotting Vegetables é muito mais do que a história de como as 14 faixas do álbum se tornaram símbolos de resistência política. O autor, Alex Ogg, acredita com tranquila convicção que Fresh Fruit for Rotting Vegetables, que chegou num momento de esgotamento do punk britânico, é um disco mais importante do que a tríade do punk: os álbuns Never Mind the Bollocks (Sex Pistols), The Ramones (Ramones) e London Calling (The Clash).
Ogg conta duas histórias: a de como a banda construiu sua lenda e a de como ele sofreu horrores para publicar um livro sobre o grupo. Ogg tinha sido procurado em 2005 pela banda para escrever notas de encarte para a reedição do seu primeiro disco. Mas, a essa altura, a banda já estava afundada em ações judiciais e seus principais integrantes (o vocalista Jello Biafra, o baixista Klaus Flouride e o vocalista East Bay Ray) tinham tudo, menos afeto uns pelos outros.
"A mesquinharia não tinha fim. Os dez rascunhos acabaram ultrapassando 64 mil palavras; tínhamos espaço para cinco mil. A certa altura, um funcionário da Alternative Tentacles (selo dos Dead Kennedys posteriormente administrado por Biafra) reclamou que eu, sozinho, havia quebrado sua impressora. Houve um longo debate telefônico para decidir se seria permitido que um integrante da banda usasse o pronome pessoal no singular ao invés do plural. Nas cada vez mais desesperadas tentativas de apaziguamento, eu acabei colocando aspas para provar que as ideias de todos eles estavam corretamente representadas", conta o escritor.
Os Dead Kennedys surgiram no mesmo cenário em que o movimento beatnik eclodiu. Tudo começa com um anúncio do guitarrista Ray na loja Aquarius Records, de São Francisco, em 1978. "Guitarrista quer começar uma nova banda punk ou new wave"). East Bay, nome que indicava a região de onde vinha, não era um inepto musical: tinha começado a tocar aos 12 anos, ouvira muito Duke Ellington na infância e conhecia Scotty Moore (guitarrista de Elvis) e Syd Barrett. O primeiro a responder ao anúncio foi Eric Boucher, que vinha do Colorado - e que depois escolheria aleatoriamente o codinome Jello Biafra ("jello" parodiava certa gelatina), punk que chegou a ser candidato à prefeitura de São Francisco.
Biafra adorava Blue Öyster Cult e Allen Ginsberge tinha formação política, providenciada pelos pais intelectuais. O próximo a responder ao anúncio seria o baixista Klaus Flouride, qua já tinha uma bagagem musical, tinha gravado com MC5 e Stooges.
O Dead Kennedys fez sua estreia no Mabuhay Gardens em 19 de julho de 1978. Ali começaria uma reputação de bola de demolição e também de barricada de problemas. O prêmio Pulitzer Herb Caen reclamou publicamente do nome Dead Kennedys, achando que era uma falta de respeito para com a família mais adorada da América.
O clube Mabuhay recebeu diversas ameaças de bomba durante suas apresentações e havia um caminhão de bombeiros do lado de fora. Mas a casa estava lotada. Como Biafra contou a Ogg, "todas as mentes estranhas da área se arrastaram das profundezas para nos ver". Essas sessões são magnificamente reconstruídas.
Demonstrando um nível de consciência política acima de seus pares, fizeram de canções como Holiday in Cambodia e Kill the Poor antenas de uma disposição revolucionária. "Somos terroristas culturais, usando a música ao invés de armas", disse Biafra. East Bay conta que Biafra sempre gostou mais de dar entrevistas, mas que as ideias não lhe pertenciam, como querem fazer crer. Hoje em dia, East Bay Ray e Jello Biafra andam por aí em bandas diferentes, não se falam e vivem às turras. Ambos vieram recentemente a São Paulo, devidamente separados pela vida. CADERNO 2 (22/7/2014)

quinta-feira, 17 de maio de 2018

RY COODER, Guitarrista Caminha Por Novas Trilhas

Treze anos após 'Paris, Texas', o músico retoma a parceria com Wim Wenders

CELSO PUCCI

O que você faria se tivesse 3 anos de idade e já tocasse bem violão, mas - um ano depois - perfurasse seu próprio olho esquerdo com uma faca, por acidente? Quem sabe, teria até de desistir da sua aptidão precoce? Mas longe das lágrimas, tal fato só significou um globo de vidro implantado no lugar da vista vazada para o multi-instrumentista Ryland Cooder (a exemplo de um tal de David Jones, inglês que também teve um olho furado por um canivete da marca Bowie, a qual lhe rendeu o o afortunado "sobrenome artístico").
Ry Cooder nasceu em Los Angeles e completou 51 anos no último dia 15, nunca perdendo sua ampla visão musical. Firmou-se como um dos mais requisitados instrumentistas do circuito local durante os anos 60 e dedicou mais de três décadas de carreira para acompanhar astros como Jackie De Shannon, Captain Beefheart, Neil Young, The Monkees e os Rolling Stones (que, em 1969, o queriam como substituto do finado Brian Jones), entre muitos outros. Também construiu uma sólida carreira-solo a partir do início dos anos 70, sempre pautada nas cordas, pois além de exímio guitarrista, sempre tocou com maestria violão, banjo, bandolim, slide guitar ou qualquer outro instrumento de cordas mais exótico.
Por conta desse ecletismo, pode ter transformado-se no precursor e num dos artistas norte-americanos mais aficcionados pela chamada world music (ver a seguir), além de tornar-se um assíduo colaborador de inúmeras trilhas sonoras memoráveis. na sua ficha figuram Performance, Cavalgada de Proscritos (The Long Rider), Fronteiras da Violência (The Border) e A Encruzilhada (Crossroads). Mas nenhuma delas conseguiu equiparar-se a Paris, Texas, primeiro trabalho produzido por ele para o cineasta alemão Wim Wenders, em 1984, filme que acabou ganhando a Palma de Ouro do Festival de Cannes.
Nessa empreitada, os sons produzidos por Cooder com seu bottleneck ("pescoço de garrafa", artefato feito de gargalo de vidro cortado, ou um cilindro de metal, deslizando pelas cordas da guitarra) estavam unidos de forma indissociável às áridas imagens registradas por Wenders nos cafundós do Texas, em seu segundo filme feito nos Estados Unidos, com roteiro de Sam Shepard.
Treze anos depois de Paris, Texas, Cooder e Wenders reencontraram-se no novo filme do diretor, The End of Violence. Talvez o mote da fita esteja em um diálogo estampado na contracapa do CD de sua trilha sonora original: "Defina a violência"/"O quê?"/"Você está fazendo um filme sobre isso, não deveria saber do que se trata?". A obra se propõe a analisar as nuances dos atos de violência no cotidiano e no plano artístico de pessoas que vivem em Los Angeles, tendo como principais personagens o produtor cinematográfico Mike Max (Bill Pullman), mais o perito tecnológico Ray Bering (Gabriel Byrne) e a starlet Paige Stockard (Andie MacDowell).
A trama mereceu um tratamento de primeira por parte de Ry, que não se repetiu na mesma linha tradicionalista de Paris, Texas. Convocou músicos de origens diversas, desde Joachim Cooder (seu filho, percussionista) e Flaco Jimenez (acordeonista, com quem Ry vem trabalhando desde 1970), até o trompetista de vanguarda Jon Hassell, passando por Howie B. (DJ que já trabalhou com o U2, responsável por algumas das mixagens do disco), para fazer uma trilha repleta de climas introspectivos e reflexivos, em que o bottleneck de Cooder não tomou a linha de frente, mas serviu perfeitamente como referência para que outros instrumentos se destacassem - vide faixas como Observatory, além das gêmeas I'm Leaving You e I'm Losing You. Essa alquimia fez do CD The End of Violence - Score from the Motion Picture Soundtrack mais um grande trunfo para Cooder, enquanto "trilheiro".

quarta-feira, 16 de maio de 2018

JIMI HENDRIX, Fúria Avassaladora

Caixa de 4 CDs com gravações inéditas e antigas remasterizadas é lançada no aniversário de 30 anos de morte do maior guitarrista da história

JOTABÊ MEDEIROS

Já se pode encontrar nas boas lojas de importados brasileiras The Jimi Hendrix Experience, a magnífica caixa de 4 CDs de Jimi Hendrix (1942-1970) lançada nos Estados Unidos por ocasião do aniversário de 30 anos de morte do maior guitarrista da história, na semana passada.
Não tema, fã de Hendrix: não se trata, de maneira alguma, do testamento final do músico. "Nós poderíamos lançar um álbum por ano pelos próximos 15 anos", diz Eddie Kramer, co-produtor da  caixa de CDs The Jimi Hendrix Experience (MCA Records). Uma doce ameaça, Mr. Kramer!
Kramer, um inglês que vive em Nova York, foi o responsável pela compilação do material da caixa - quase inteiramente composto de sobras de estúdio, performances ao vivo e inéditas do guitarrista -, juntamente com o historiador de rock John McDermott e a irmã de Jimi, Janie.
Essa caixa não encontra precedentes em toda a discografia do músico, contando as reedições, seus três discos oficialmente lançados na curta carreira e os discos ao vivo que pipocam todo ano - só no ano passado, saíram dois: Live at Woodstock e Live at Fillmore East.
David Fricke, da revista Rolling Stone, escreveu que o real poder dessa caixa está além dos tesouros que ela traz, de gravações inéditas e antigas remasterizadas. "Está no efeito cumulativo dessa narrativa, a descrição vívida de uma marcante existência em movimento", assinalou.
A escolha de cada faixa do disco procurou acrescentar algo àquilo que o fã já está careca de saber sobre o gênio de Hendrix. O disco 1 abre com uma versão de Purple Haze gravada em duas etapas (nos estúdios de DeLane Lea, em Londres, em 11 de janeiro de 1967, e no Olympic Studios também de Londres, em três dias de fevereiro de 1967).
Purple Haze foi escrita por Hendrix em 26 de dezembro de 1966 num nightclub de Londres, o Upper Cut Club. A gravação desenterrada pela caixa vem com mais ênfase harmônica do que nas versões conhecidas, mais solos de guitarra alternados, e é um momento de redescoberta dentro da overexposta obra de Hendrix. Ele termina a sessão rindo, como Elvis naquela fase despregada pelos cassinos de Las Vegas.
Em seguida vem Killing Floor e Hey Joe, gravada ao vivo no Olympia de Paris, em 18 de outubro de 1966. É a primeira gravação conhecida do recém-formado grupo Jimi Hendrix Experience, quando eles abriram shows de Johnny Hallyday. As duas faixas, ineditíssimas, foram gravadas pela rádio francesa, e mostram Hendrix cru, puro, animalesco, digladiando-se com a guitarra antes mesmo de entrar num estúdio para gravar com seu trio. Era ainda uma promessa na qual só o seu produtor, Chas Chandler (ex-baixista dos Animals), acreditava.
Além de suas composições, Hendrix canta, nos quatro discos, algumas covers, como Like a Rolling Stone e All Along the Watchtower (Bob Dylan), Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (Lennon e McCartney), Rock Me Baby (B.B.King e Joe Josea), Johnny B. Goode (Chuck Berry), Killing Floor (Chester Burnett), Blue Suede Shoes (Carl Perkins), Gloria (Van Morrison), Catfish Blues (Robert Petway) e o hino americano, Star Spangled Banner, na versão muito pessoal de Hendrix.
A versão bluesística, quase antifolk de Like a Rolling Stone, de Dylan, foi recolhida das performances de Hendrix durante o Monterey Internacional Pop Festival, em 18 de junho de 1967. O trio de Hendrix foi aceito no cast do festival a partir de recomendação de Paul McCartney, integrante do comitê artístico do evento.
E Sgt. Pepper, cover que abre o disco 2, veio de um show em Estocolmo, Suécia, em 5 de setembro de 1967. Os Beatles eram fãs do guitarrista, e a recíproca era verdadeira: Hendrix também curtia os ingleses. Hino psicodélico, a canção já tinha sido tocada pelo trio no London's Saville Theater, apenas três dias após seu lançamento em junho daquele ano. "Simplesmente inacreditável, talvez a melhor que já o tenha visto tocar", disse McCartney, que estava na plateia do Saville Theater.
Em outubro de 1967, um ano depois daquele show em Paris, quando eram desconhecidos abrindo para o pop star Johnny Halliday, eles voltaram ao Olympia, na capital francesa. De novo a rádio francesa gravou duas faixas: The Wind Cries Mary e Catfish Blues.
No lugar dos fãs de Hallyday, havia agora 14 mil fãs no Olympia gritando o nome de Jimi, já uma lenda precoce. "Muito obrigado pelo ano passado, por nos deixarem tocar aqui", diz Jimi, antes de tocar The Wind Cries Mary. E ataca a balada rascante que já fez história no rock.
Bem, todo histórico sobre cada faixa está esplendidamente descrito no encarte da caixa, com fotos inéditas e textos analíticos e críticos sobre o artista e sua banda. "Jimi, como se chama isto?", perguntou Eddie Kramer da sala de controle do estúdio Record Plant, em Nova York, em 14 de julho de 1968. "Electric Ladyland", respondeu simplesmente Hendrix. E ali estava um dos clássicos do guitarrista, uma composição em homenagem ao rhythm and blues de Curtis Mayfield and the Impressions, conta o catálogo.
Eddie Kramer foi criterioso e paciente no seu esforço de organização da obra de Jimi nessa compilação. Recolheu, por exemplo, a canção Fire (março de 1968) da caixa pirata Live At Clark University, organizada por fãs de Hendrix no selo Dagger Records. É um raro instantâneo do guitarrista em um show praticamente de garagem, feito para 600 estudantes numa escola de Massachusetts. "O rock & roll jamais tinha testemunhado antes essa mistura especial de verve, sexualidade e crueza", diz o texto.
E há faixas de exceção, mesmo dentro do conceito Experience do pacote. Como Room Full of Mirrors, também gravada no Record Plant Studios de Nova York, que traz Hendrix sozinho, sem o seu trio. O guitarrista aparece numa gravação demo acompanhado apenas pelo seu velho amigo gaitista Paul Caruso, parceiro do tempo de dureza do Greenwich Village. A glória púrpura de Jimi Hendrix reaparece com toda sua força visionária e heroica nessa caixa. ZAP! (29/9/2000)

terça-feira, 15 de maio de 2018

BOB MARLEY, Cantor Ressuscita Na Era Eletrônica

Tecnologia  faz milagres com o rei do reggae, cuja obra foi remixada por Bill Laswell

O cantor jamaicano Bob Marley: reggae dos anos 70 recebe sintetizadores, samplers, bateria eletrônica e recursos de estúdio
MARCEL PLASSE

A lenda de Bob Marley não costuma passar pelas inovações eletrônicas dos anos 70, embora seja contemporânea do dub (primeira técnica de remixagem, baseada em efeitos de eco, que estende hits, enfatizando baixo e bateria). O dub jamaicano é o DNA da música moderna. Mesmo nas faixas produzidas por Lee "Scratch" Perry, um dos gênios do estilo, Marley mostrava-se mais preocupado com a tradição do que com o futuro. Seu estilo de reggae não ficou conhecido como "roots" (raiz) à toa.
Dreams of Freedom - Ambient Translations of Bob Marley in Dub é uma chance de mudar a História. O CD permite ouvir não apenas como Marley soaria se tivesse enveredado pelo dub; faz com que clássicos do reggae - entre outros, No Woman No Cry, Is This Love e So Much Trouble in the World - virem músicas eletrônicas.
Sem poeira - Não se trata de regravações. O produtor Bill Laswell usou as fitas originais. Os instrumentos de base e as vozes femininas das I-Threes vê direto dos anos 70. Mas sem poeira. Tudo soa cristalino, graças à tecnologia digital. Sintetizadores, samplers e recursos de estúdio, que os pioneiros do dub não possuíam em 1970, quando Marley assinou com a Island, ajudam a recriar cada acorde, acrescentando novos elementos a hits manjados.
Laswell vai além do dub. As revisões trazem os hits de Marley, cuja voz ficou fora do mix, para as novidades do ambient, celebrizado por The Orb, e do trip-hop, mostrando às novas gerações que a música eletrônica tem um passado negro. Já está aprovado um segundo CD dub de Marley, encomendado ao produtor Adrian Sherwood.
Produtor tem fama de ousado e de polêmico
Ex-baixista do grupo funk Material, Bill Laswell, que assina a remixagem de Bob Marley, tem uma carreira tão longa quanto polêmica. Já foi chamado de diabo americano, por ter introduzido sintetizadores e bateria eletrônica no reggae e música africana. Execrado por puristas, é adorado, na mesma medida, por sua ousadia.
Foi ele quem introduziu arranjos de cordas no reggae, em 1987, ideia mais tarde copiada pelo Soul II Soul, e quem apresentou a bateria eletrônica para Yellowman, em 1983, antes do dancehall adotar a tecnologia. Em mais de 200 álbuns, fez gêneros colidirem e novos estilos surgirem do impacto.
A primeira colaboração entre o hip-hop e o rock? Produção de Laswell - trata-se de World Destruction, parceria entre Afrika Bambaataa e John Lydon. O encontro do jazz com a música dos DJs? Traz Laswell no baixo - o premiado álbum Future Shock, de Herbie Hancock.
Rótulos - Batida techno na música africana? Novamente, produção de Laswell - os discos de Aiyb Dieng. O conceito de world music? Uma colaboração com Brian Eno e David Byrne - o histórico álbum My Life in the Bush of Ghosts. Rótulos como worldbeat, ambient, acid jazz e trip-hop foram usados para definir sua música anos antes de definir outros artistas.
Por meio de seu selo, Axiom, fundado em 1990, Laswell tornou-se o produtor que melhor representa hoje a filosofia dos criadores do dub, qua buscavam extrair de elementos convencionais novas vibrações. Laswell é a escolha ideal para trazer Bob Marley aos anos 90. CADERNO 2 (6/11/1997)

sexta-feira, 11 de maio de 2018

ISAAC HAYES, 'Shaft' Volta Com Jaqueta Armani & Menos Sexo

Chega a SP o longa, cuja primeira versão é de 71, que já rendeu três filmes e uma séria de TV

Samuel L. Jackson no filme que foi lançado em junho nos EUA e arrecadou mais de US$ 70 milhões
MARCELO BERNARDES

LOS ANGELES - É de Gordon Parks uma foto do cineasta Roberto Rossellini e da atriz Ingrid Bergman na ilha italiana de Stromboli, onde os dois consumaram uma polêmica relação adúltera. Autor de vários editoriais de moda em Paris para a revista Vogue, Parks também se tornou o primeiro fotógrafo negro contratado pela revista Life no fim da década de 50. Um de seus mais famosos ensaios para a publicação foi no Rio, em 61, em que mostrava os contrastes sociais da cidade.
O garoto Flávio da Silva, que tinha 12 anos na época, foi fotografado com sua família em um barraco. Ao saber que o brasileiro estava com tuberculose, Parks o trouxe para os EUA e financiou seu tratamento. Em 64, o famoso fotógrafo e também artista plástico transformaria a saga do carioca em seu primeiro filme, o documentário Flávio. Mas Gordon Parks é mais conhecido hoje, aos 88 anos, como o diretor do filme Shaft.
Estrelado por Richard Roundtree e com uma trilha sonora funk de Isaac Hayes, Shaft foi o primeiro longa dirigido por um cineasta negro a ser financiado por um grande estúdio de Hollywood. O filme fez grande sucesso quando lançado em 71 e se tornou um dos maiores representantes do gênero blaxploitation (trocadilho que quer dizer "exploração dos negros" e agrega cerca de 200 filmes dos anos 70 com elenco all black).
Shaft rendeu três filmes e uma série de TV. Desde o começo dos anos 80 que Hollywood pensava em ressuscitar o personagem do detetive particular John Shaft, famoso por seu gingado, facilidade em levar garotas para cama e uma atitude violenta, metáfora para a luta negra antiestablishment. A nova versão de Shaft, dirigida por John Singleton (de Os Donos da Rua), chega aos cinemas de São Paulo, depois de ter sido lançada em junho nos EUA, onde arrecadou mais de US$ 70 milhões.
"Quando Shaft estreou, foi a primeira vez que nós, negros americanos, víamos um igual na tela no papel de um herói durão, cool e sexy", explica Samuel L. Jackson, o ator que ganhou o papel título na nova versão, em entrevista ao Estado. "Hoje, Wesley (Snipes), Denzel (Washington) e eu fazemos muita coisa no cinema, mas nunca tivemos a oportunidade de pegar os heróis das mãos de Mel Gibson, Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger", continua. "O ator negro que conquistou isso foi Richard Roundtree, com Shaft."
O detetive John Shaft agora é um policial do Harlem que veste jaquetas de couro de Armani. A pedido do estúdio, o aspecto garanhão exacerbado de Shaft foi suprimido. O filme tem ainda Vanessa L. Williams; o inglês Christian Bale (o garotinho de O Império do Sol, de Steven Spielberg), a australiana Toni Colette (indicada para o Oscar de coadjuvante por O Sexto Sentido); o rapper Busta Rhymes, além de uma ponta de Roundtree.

Ator e músico tiveram suas carreiras limitadas
Richard Roundtree e Isaac Hayes até hoje estão atrelados ao sucesso de 'Shaft'

LOS ANGELES - É impossível pensar em Shaft sem o ator Richard Roundtree e a música de Isaac Hayes. Em 1971, o filme de Gordon Parks fez de Roundtree uma celebridade nacional e um ícone do cinema de blaxploitation, gênero que Quentin Tarantino homenageou em Jackie Brown. Mas o ator ficaria tão marcado pelo personagem, "uma máquina sexual para agradar as garotas", que sua carreira nunca mais decolaria, limitando-se a filmes B lançados em vídeo.
Já Hayes, que em 1972 ganhou o Oscar de melhor trilha sonora por Shaft, recentemente ressurgiu ao dublar o cozinheiro desbocado e de vozeirão do desenho politicamente incorreto da TV South Park. No ano passado, na cerimônia de entrega do Oscar, acabou apresentando sua famosa trilha, encoberto por uma nuvem branca, consequência de um defeito na máquina de gelo seco. "Achei aquilo bem cool", brinca. A reportagem do Estado conversou com os dois ícones de Shaft. Confira.
Estado - Como vocês se envolveram no projeto de refilmar um clássico?
Richard Roundtree - Por 27 anos, fui abordado para fazer um remake de Shaft. E isso só não aconteceu antes por causa dos direitos autorais. Quando John Singleton veio com o convite, ele tinha um outro conceito para a trama. Seria uma história de pai e filho. Um dia, dentro do avião, li no jornal que Samuel L. Jackson ia fazer o filme. Foi uma surpresa. Não poderíamos mais ser pai e filho, uma vez que ele tem quase minha idade (risos). Surgiu a ideia de tio e sobrinho e eu aplaudo a escolha. Ele capturou bem a essência do personagem e deu seu toque.
Isaac Hayes - John me chamou e eu disse que só assinaria a trilha sonora se pudesse ficar no conceito original, sem mudar uma nota.

terça-feira, 8 de maio de 2018

NEIL YOUNG, Cantor Traz Nas Botas A Poeira Mítica do Rock

Confirmado pela organização do festival Rock in Rio, o cantor canadense chega em agosto com a banda Crazy Horse e mostra o repertório do disco 'Silver & Gold', lançado este ano no Brasil

Engajado, ele chegou a ser processado pela Geffen Records por fazer música 'não comercial'
JOTABÊ MEDEIROS

O cantor e compositor canadense Neil Young é o novo trunfo do Rock in Rio. Ele deverá tocar em janeiro na mesma noite de Sheryl Crow e da Dave Matthews Band. Um festival de cultura canadense já tinha tentado trazer Young em 1997, sem sucesso. Enfim, o Brasil dá de cara com o caubói mítico do rock. Neil Young traz nas  botas a história e a poeira de uma época de heroísmo do gênero.
Em 1963, Neil Young já estava na estrada. Tocava numa banda chamada Neil Young & The Squires, que chegou a gravar um single, The Sultan/Aurora, em setembro daquele ano. Nesses quase 40 anos de carreira, o cantor - nasceu em Toronto, em 12 de novembro de 1945 - deixou um legado de rara coerência e sinceridade em seu trajeto artístico.
Boa parte de sua carreira se desenvolve paralelamente à de um grupo de grandes amigos e colaboradores, que incluem os guitarristas Stephen Stills, David Crosby e Graham Nash, com os quais, em julho de 1969, ele formou o Crosby, Stills, Nash & Young (CSNY) para fazer uma breve turnê no Fillmore East de Nova York. Nunca mais pararam de tocar juntos.
Antes mesmo do CSNY, Young já tivera uma outra banda lendária, em 1966: o Buffalo Springfield, com Stills e mais Richie Furay, Bruce Palmer e Dewey Martin. E, entre os dois grupos, ele montou a própria banda, Crazy Horse, que o acompanha desde então em sua carreira-solo - a formação inicial incluía seu parceiro do Buffalo Springfield, o baixista Bruce Palmer.
O primeiro álbum do cantor foi Neil Young, lançado pela Reprise Records em janeiro de 1969 e que tinha como músicos de apoio Ry Cooder e Jack Nitzsche.
O álbum de estreia do CSNY, que levava o nome da banda, foi lançado em 1969 e também já tinha sido bem recebido, vendendo 2 milhões de discos em um ano. O CSNY também estava naquele trágico concerto em Altamont, em Livermore, Califórnia. Foi quando uma gangue matou um fã dos Stones durante o concerto.
Mas o próximo ano, 1970, foi um ano movimentado para a banda. Em março de 1970, eles lançaram Déjà Vu, o segundo disco do CSNY, que se tornou o mais vendido daquele ano nos Estados Unidos e projetou cada integrante da banda como um superastro do rock.
Durante turnê pela Inglaterra, onde tocaram no Royal Albert Hall de Londres, eles tiraram três meses de férias para "acertar os relógios". Stills comprou uma casa de Ringo Starr e passou a tomar umas lições de guitarra com ninguém menos que Jimi Hendrix.
Tudo acontecia na carreira deles e acontecia rápido. Em agosto de 1970, Stephen Stills foi preso num hotel de San Diego acusado de uso de drogas. Tinha sido encontrado vagando pelos corredores dizendo coisas sem sentido. Saiu com uma fiança de US$ 2,5 mil. Recuperado, lançou um disco-solo em dezembro, Stephen Stills, no qual tinha contribuições de Nash, Crosby, Eric Clapton e Jimi Hendrix. Young ficou de fora.
Neil Young também lançou disco-solo no fim do ano, After the Gold Rush, no qual se estabelecia definitivamente como um bardo singular na música popular americana. A banda Crazy Horse, na ocasião, tinha David Briggs, Kendall Pacios, Nils Lofgren e participação de Stills.
Em agosto do ano seguinte, ele se separaria de sua primeira mulher, Susan, e começaria uma relação com a atriz Carrie Snodgress. Para ela, escreveria uma de suas grandes canções, A Man Needs a Maid, gravada no disco Harvest, de 1972, com a London Symphony Orchestra como música de fundo.
Várias canções de Young tomaram conta das rádios naquele ano, como Heart of Gold e Old Man. Mas o cantor amargou uma perda dolorosa: em 18 de novembro, o guitarrista da banda Crazy Horse, Danny Whitten, morria de uma overdose de heroína aos 29 anos.
Engajado, politizado, avesso à badalação do show business, Young e sua voz anasalada influenciavam como poucos uma geração. Em janeiro de 1973, ele interrompeu um concerto em Nova York para anunciar que estava acertado um acordo de paz no Vietnã. Em 1975, consegue arrecadar US$ 200 mil com um concerto beneficente em São Francisco para um fundo educacional.
Em 1981, ele grava um álbum totalmente influenciado pelo rhythm and blues, Re-Ac-Tor, e despede-se de sua velha gravadora , a Reprise Records. Em seguida, em 1983, assina com a poderosa Geffen Records. Um grave erro, como veria a seguir.

THE DOORS, Filme Mostra A América Em Transe

Oliver Stone, o obstinado diretor de Nascido em Quatro de Julho e Platoon usa a história do roqueiro Jim Morrison para fazer um inventário político dos anos 60

Jim Morrison (Val Kilmer): o Rimbaud do rock, pregando uma revolta niilista
LUIZ CARLOS MERTEN

Os anos 60 entraram para a história como a década que mudou tudo. Eles são o fascínio e a maldição de Oliver Stone; para confirmá-lo, basta assistir a The Doors, que entra hoje em cartaz em circuito nacional (dez salas na cidade de São Paulo). Nos anos 60, os jovens acreditaram que poderiam mudar o mundo: sexo, drogas e rock and roll, revolução política colidindo com contracultura, América em transe. Stone recria a efervescência típica do período a partir da figura carismática de Jim Morrison, alma do conjunto The Doors. Seu filme consegue ser o que o autor pretendia: "uma recriação visceral" da música e do espírito daquela época. É duplamente incômodo: pela intenção assumida do diretor de fazer um filme com um visual psicodélico e pela própria natureza do seu personagem - Jim Morrison, avassaladora interpretação de Val Kilmer. Jim é uma mistura de poeta (profeta) e predador.
Nos anos 60, quando os Doors convulsionavam a música com seus alertas apocalípticos contra a alienação e o autoritarismo e um decidido apelo ao hedonismo niilista, Stone estava atolado na guerra do Vietnã, na qual se engajara por vontade própria. Foi lá, viajando no LSD, que ele ouviu pela primeira vez Break On Through, a música do primeiro álbum em que o conjunto arrombou as portas da percepção para propor às pessoas que abandonassem seus limites. A imagem das portas foi buscada por Morrison em Huxley, que a assumiu de Blake: "Se as portas da percepção fossem arrombadas, tudo apareceria como é: infinito". Em busca desse infinito, Jim se perde numa estrada de excessos.
Para entender The Doors, o filme, e a maneira como ele prolonga preocupações de Stone que já estavam em Nascido Em Quatro de Julho, o espectador deve prestar atenção na cena, logo no começo, em que o menino Jim viaja no carro dos pais pelo deserto do Novo México. Em Quatro de Julho, Ron Kovic (Tom Cruise) vivia todas as etapas da sua crucificação como parte da relação edipiana com a mãe dominadora, que teve um sonho para ele. Jim também comete em relação à mãe sua primeira transgressão. Há uma parada, por causa de um acidente. A mãe diz "Não olhe", mas Jim olha. A mãe insiste: "É um sonho". Na verdade, é um pesadelo: o índio que Jim vê morto o acompanhará por toda a vida. É o xamã que aponta o caminho, mas esse caminho é uma mistura ambivalente de criatividade e (auto) destruição.
The Doors: viajando no deserto
Embora a mãe não volte mais em The Doors, ela está sempre presente nos versos em que Jim expressa seu edipianismo agressivo. A mãe, simbolicamente, não deixa de ser a América com quem Stone vive querendo acertar as contas - em Quatro de Julho, em The Doors e The Assassination of Kennedy (atualmente em produção), todos filmes sobre os marcantes anos 60. Para mostrar o que aconteceu com a sua geração naquela época, Stone transforma o artista embriagadoramente jovem, que acreditava no desregramento dos sentidos, numa espécie de Cristo que se expia dos excessos imolando-se no altar do sacrifício.

Ídolo
Val Kilmer incorpora Jim Morrison. Menos o essencial

EDUARDO BUENO

É assim: você passa a vida rompendo com as regras, desregrando os sentidos, encarando o abismo, desafiando os limites. Então, morre. Aí, vira filme de Oliver Stone. Ou de Phillip Kaufman. É um destino cruel - muito mais cruel que morrer aos 27 anos serenamente na banheira, como Marat; ou morrer na Califórnia, em retiro, com mais de 80 anos. Henry Miller, cinebiografado por Kaufman em Henry & June, e Jim Morrison, cinebiografado por Stone em The Doors, espancariam os diretores que levaram suas vidas à tela se pudessem ver os filmes que fizeram sobre eles. Cinematograficamente, tanto Henry & June quanto The Doors têm seus méritos - mais o segundo que o primeiro. A questão irritante está no abismo abissal entre as figuras reais e os personagens das telas. Miller e Morrison não apenas não se reconheceriam em suas versões estilizadas como provavelmente se tornariam inimigos à primeira vista daqueles sujeitos representados por Fred Ward e Val Kilmer.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

JOHN LENNON, Todo Mundo Tem Alguma Coisa A Esconder (Menos Eu & Meu Macaco)

Em um texto publicado pelo jornal inglês The Observer logo após a morte de Lennon, um dos melhores escritores britânicos da atualidade fala sobre sua relação com John e os Beatles

"Musical e pessoalmente, Lennon se destacava dos Beatles. John era o líder, não aceitava receber ordens dos outros", escreve Martin Amis
MARTIN AMIS

Em minha juventude tive um amigo chamado Barry, que tinha uma desconcertante semelhança com John Lennon: o mesmo nariz, a mesma boca, as pálpebras finas e insolentes.
O método de Barry de acumular namoradas era laborioso, mas original. Durante o dia ele lia a coluna de 'Pen Pals' da publicação Beatles Monthly. Ele escolhia, entre as garotas que escreviam para o jornal, aquelas que morassem de preferência a não mais de algumas centenas de metros do apartamento de seus pais e escrevia para elas anexando uma foto sua (onde ele aparecia usando um boné como o de Lennon. Posteriormente, ele passou a enviar fotografias onde aparecia usando óculos redondos e sem aro) e a assinatura "Barry Lennon" - ou "Buddy Lennon", dependendo do humor.
Chegava a andar pelas ruas usando o terninho de gola curta dos Beatles e as botinhas Chelsea com saltos estilo cubano. Em seguida, passou a se apresentar como irmão mais novo de Lennon, depois como primo ou, então, inventava qualquer outro tipo de relacionamento mais exótico (ele dizia que os dois haviam sido abandonados pelos pais, por exemplo) - algumas vezes, acredito, ele se apresentava como se fosse o próprio Lennon. Agora essa charada tem características sinistras, mas naquela ocasião ela nos parecia uma brincadeira perfeitamente inocente.
Barry sabia tudo sobre a história dos Beatles. Ele sabia que John tinha 1,78 m de altura (assim como Paul e George, e Ringo, o mascote do grupo, naturalmente, tinha 1,70 m de altura), que seu gosto por roupas envolvia "qualquer coisa descontraída", o mesmo tipo de roupa de que ele gostava, as características de sua mulher e de seu filho - que, afinal de contas, era sobrinho de Barry. Considerando seus outros deméritos, que não eram poucos, o sucesso de Barry com as garotas que escreviam para o jornal era bastante consistente. Eu me divertia participando de tudo isso, como uma espécie de fiel escudeiro e acompanhante de Barry Lennon. Notava que as garotas na verdade percebiam que Barry estava mentindo, mas não queriam acabar com a ilusão da proximidade. Nem eu.
John Lennon nasceu em 1940. Barry e eu nascemos em 1949, e assim, os anos de nossa adolescência foram profundamente dominados pelos Beatles e sua música. Aos 13 anos de idade, vi a primeira apresentação que eles fizeram na televisão - em um programa inócuo de notícias e apresentações ao vivo que eu costumava assistir quando voltava da escola. Eles cantaram Love Me Do. Percebi imediatamente que eles passariam a ser uma parte integrante da minha vida. Pouco tempo depois, fiz uma aposta de cinco shillings com meu pai, que afirmava que The Beatles seriam esquecidos em menos de um ano. Quando chegou a hora do pagamento da aposta, ele confessou que até gostava de uma ou duas músicas do grupo. Minha mãe já era uma grande fã dos Beatles. Assim como todo mundo.
Inicialmente vistos como figuras libertinas e subversivas - afinal de contas, reinventaram os cabelos compridos - The Beatles rapidamente estabeleceram seu apelo junto às famílias, uma imagem trabalhada por seu empresário Brian Epstein. Os lovable moptops, os Fab Four, passaram a ser os rapazes bonzinhos - para grande tranquilidade dos pais e de toda a nação... Mas John Lennon continuou sendo um elemento imprevisível e inconstante, atrapalhando a homogeneização que Epstein claramente tinha em mente. Musicalmente e pessoalmente, Lennon se destacava dos Beatles.
Ele sorria para a câmera e mexia com seus companheiros. Ele cunhou, ou pelo menos popularizou a frase "Little girls should be obscene and not heard". Em entrevistas podia ser muito engraçado ou, alternativamente, muito desagradável. Ele publicou dois livros brincando com palavras sem sentido, In His Own Write e A Spaniard in the Works. Ele se embebedava e provocava conflitos em restaurantes e clubes.
"John foi uma voz. A voz dele chegou a muitas terras e as afetou. Às vezes como uma tempestade, às vezes como brisa. Sua voz foi amada porque era a voz da verdade" - Yoko Ono
Como compositores e vocalistas,  Lennon e McCartney atraíam e dividiam a atenção dos fãs, enquanto George e Ringo não passavam de inocentes coadjuvantes. Havia algo de diferente em Paul: ele queria ser amado não apenas por sua mãe, mas por sua avó também. Dar preferência a Paul em vez de John era como preferir Cliff Richard a Elvis Presley ou Donovan a Dylan. John era o líder. Ele não aceitava receber ordens de outros. Depois do auge musical em fins dos anos 60, com os LPs Rubber Soul, Sgt Pepper e o White Album, ficou claro para mim e para um milhão de outros leitores ansiosos da imprensa especializada em rock que os dias dos Beatles estavam contados. E todos sabíamos que era John quem estava separando-se do grupo.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

BOB MARLEY, O 'Reggae' Perde O Seu 'Profeta'

O câncer interrompeu a carreira do jamaicano Bob Marley
MIAMI - O cantor e compositor Bob Marley, conhecido internacionalmente como o lançador do reggae, ritmo popular da Jamaica, nas paradas de sucesso mundiais, morreu ontem, de câncer, no Hospital Cedros do Líbano, onde estava internado para tratamento há alguns meses.
"Príncipe" e "profeta" do reggae - uma espécie de mistura de calipso com blues - Marley significou mais que um superstar do showbusiness, mais que fonte de inspiração para toda uma geração de músicos, tanto na Europa, Estados Unidos e até mesmo no Brasil, onde compositores como Morais Moreira e Gilberto Gil ("Não Chore Mais" é uma versão de No Woman, No Cry, de Marley) transformaram em moda o ritmo sincopado da Jamaica. O sucesso comercial de suas composições - principalmente entre os jovens das Antilhas, África Ocidental e nas grandes comunidades negras na Inglaterra e no continente europeu - de um modo geral apenas atestam sua popularidade. Esvaziado o protesto das canções dos anos 60, Bob Marley e sua música rebelde inspiraram uma espécie de culto, do qual ele mesmo foi considerado seu maior profeta. O reggae passou a servir então de trilha sonora da revolução negra, demonstrando toda uma reverência religiosa aos rastafarians, que veem no ex-imperador da Etiópia, Hailé Selassié, a reencarnação do próprio Cristo, e desenvolvem sua luta a favor da libertação do negro.
Natural de Kingston, filho de um capitão branco do Exécito inglês e de uma jamaicana negra, Marley mudou-se para os Estados Unidos no início dos anos 60 para trabalhar como operário da Chrysler, em Delaware. Antes disso, porém, cantava em igrejas de sua cidade natal e ouvia seus astros preferidos da música, gente como Elvis Presley, Ricky Nelson e Fats Domino. Chegou a gravar discos, mas nenhum deles fez sucesso. De volta aos EUA para fugir à guerra do Vietnã, juntou-se aos rastafarians, que exerceram grande influência em sua vida. Culto fundado nos anos 20, no Harlem, em Nova York, por imigrantes jamaicanos, o rastafarianism prega que seus adeptos são hebreus negros, os verdadeiros israelitas exilados na Babilônia. Não votam, são vegetarianos e dispensam bebidas alcoólicas. Então um iniciado na nova seita, Marley parecia ter descoberto "o antídoto da Babilônia". Quando esteve no Brasil, em abril do ano passado, em viagem promocional, Marley explicava melhor seu discurso político-religioso, sintetizado na sua própria música e de seus conterrâneos. Música que propõe o "levante, resista e lute por seus direitos". Para ele, tudo o que o rasta faz é lutar contra a opressão e a decadência. O Armaggedon, no seu entender, já está em vigor. "O Apocalipse" - dizia - "está nas ruas, no dia que cada um vive. As guerras todas por ganância. E é o meu povo que sofre, o povo da rua. O pobre. É dele que estou falando."
Autor de sucessos como I Shot The Sheriff, gravada por Eric Clapton, Bob Marley formou no final da década de 60 o grupo The Wailers, do qual tomavam parte Bunny Livingston e Peter Tosh, que depois deixou a banda para seguir carreira solo, transformando-se logo em líder cultural da Jamaica, com suas músicas falando em revolution tonight, pregando os valores da negritude. Aqueles que estavam cansados do rock aderiram à onda, mas muitos não perceberam o que estava por trás de tudo. Os que perceberam, mas com o viés ideológico conservador, viram naquele indivíduo de longos cabelos com trancinhas um provocador de histeria, acusando-o de dar mau exemplo com sua música inspirada pela ganja - maconha -, incitando à violência. Tanto foi assim que em 1976, Marley quase morre, num atentado promovido pela direita jamaicana, alguns dias antes de um show em benefício do primeiro-ministro socialista Michael Manley. "Não sou um líder, apenas uma ovelha comum no pasto", costumava dizer Marley quando procuravam associar sua imagem de artista com a do político. Enfático, assemelhava-se a um herói do Terceiro Mundo: "Eu não tenho medo nem do Diabo. Ele não me assusta porque eu o conheço. Enquanto eu for justo, enquanto ajudar a irmandade rasta, nada me acontecerá".
De todos os LPs lançados em sua carreira, os admiradores da música de Bob Marley no Brasil, podem encontrar apenas seis: Survival,  Catch a Fire, Live at the Lyceum, Kaya, Uprising e Rasta Man Vibrations. O mais recente - Exodus - estará no mercado brasileiro ainda este mês, pela gravadora Ariola.  O ESTADO DE S. PAULO (12/5/1981)

quinta-feira, 3 de maio de 2018

BEATLES, Ringo Starr Consegue Escapar do Passado

Ringo mostra em turnê e no melhor disco em 20 anos que as afinidades com o passado não o condenaram a ser um eterno Beatle. Ele fala ao Caderno 2 sobre sua nova fase

No palco do Radio City Hall, no fim de semana, o formato dos shows de 89: mais evocações agradáveis do que emoções fortes
NOVA YORK - Ringo Starr cortou o rabo-de-cavalo que usava na primeira turnê All-Starr Band, em 1989. Perdeu também aquele jeito moleque, gozador. Aos 52 anos, parece que ele deixou de ser Beatle. A infantilidade que os fãs adoravam resume-se agora à estampa de sua camisa - de bichinhos. Ele tem pose de homem de negócios, ao promover, numa entrevista no Radio City Music Hall, a volta da turnê de 1989. Ringo e sua banda de oito músicos se apresentaram ali nesse fim de semana, e ontem, 23, no anfiteatro de Jones Beach. Seu LP Time Takes Time (Private Music) foi lançado há algumas semanas, marcando a primeira vez em quase dez anos que Ringo grava em estúdio. Foi considerado seu melhor trabalho nos últimos 20 anos. O primeiro compacto do LP, Weight of the World, rock up-beat fácil de cantarolar, é  grande hit. E ele formou uma segunda banda de primeira. Os All-Starr de 1989 são Joe Walsh e Nils Lofgren, guitarristas. Os novos são Burton Cummings (Guess Who), Dave Edmunds e Todd Rundgren, teclados; Tim Campello, sax; Timothy B. Schmit, baixo; Zak Starkey, filho mais velho (26 anos) de Ringo, bateria.
A turnê, que cobre EUA e Europa (em setembro), é patrocinada pela linha V05 de produtos para os cabelos. Ao apresentar a banda, o porta-voz da companhia disse: "A V05 e Ringo partilham os mesmo fãs em termos de idade e demografia". Ringo comentou: "É. Já são todos carecas". E abriu a sessão sugerindo que ninguém perguntasse, por favor, pela reunião dos Beatles.
Caderno 2 - Em quê a nova All-Starr é diferente da primeira?
Ringo - Essa banda tem emoções diferentes. É mais rock'n'roll e se apoia mais num line up de guitarras. Era o que eu estava procurando. A beleza do conceito da All-Starr Band é que ela pode se transformar em qualquer coisa que eu queira. O importante é a gente se divertir. Foi o que houve em 1989. Até Bruce Springsteen veio tocar conosco quando passamos por Nova York.
Caderno 2 - Só umazinha: por que você não convidou Paul para a banda?
Ringo (paciente e irônico) - Porque já temos um baixista ótimo.
Ringo: aos 52 anos, mais seguro e menos moleque do que costumava ser, ele exibe no LP Time Takes Time, lançado há pouco nos Estados Unidos, o beat fácil de cantarolar em que os Beatles eram mestres
Caderno 2 - É verdade que você renunciou aos anos 60 e aos Beatles?
Ringo - Não. Eu adorei os anos 60. Foi um período fabuloso, toda aquela coisa de paz e amor. Às vezes acho que a década dos 60 está acontecendo de novo agora. Há um jeito de flower-power nas atitudes das pessoas, volta ao básico, amor como solução.
Caderno 2 - Que tipo de público você espera nos concertos? Quem vem?
Ringo - Todo tipo. Fãs antigos e novos. Curiosos. Quem vem nos escutar tem a surpresa agradável de ver que somos uma banda ao vivo. Não é só o grupo que gravou o LP. Funciona dos dois lados: em grande parte, gravei o LP para que as pessoas viessem escutá-lo tocado ao vivo, e não para eu escutar sozinho.
Caderno 2 - Por que você insistiu em melodias e arranjos do passado?
Ringo - Bom, a gente tem de competir no mercado. É a realidade. Mas eu gosto de rock'n'roll básico, com músicos de verdade. Odeio sons sintetizados e faixas click (método eletrônico de sincronizar músicos em cassetes diferentes). Em pelo menos 70% deste LP, não usamos click tracks. Tornaram esse som mecânico, como se não fosse feito por ser humano.
Caderno 2 - Com essa idade e esse dinheiro você podia se aposentar, não é?
Ringo - Não conseguiria. E a música me atrai muito. Música é o que sei fazer. Tocar bateria é o que sei; foi como comecei na vida. Não sei trocar lâmpadas. Não sou bombeiro. Sou músico. É minha vida. Quando eu tinha 20 anos e estreei abrindo para Helen Shapiro, costumava olhar em volta, aqueles músicos de 40 a 50 anos, e também me perguntava por que não se aposentavam. Bom, eu vou fazer 52 e aqueles músicos me ensinaram que posso continuar tocando enquanto minhas pernas aguentarem. Não gosto de tocar solos longos. Pedem sempre, mas acho tedioso. No entanto, bateria, apenas, é saudável, especialmente depois que inventaram percussão mecânica.
Caderno 2 - Quais são os músicos e bandas de que você gosta atualmente?
Ringo - Não faço questão de ficar em dia com tudo que aparece. Gosto do Nirvana, do Sugar Cubes, este me diverte, é do Texas. Agora são meus filhos que me apresentam a todas as novidades.
Ringo Starr e David Spade com Pinhead na MTV Video Music Awards, 1992
Show

No palco, conforto para quarentões nostálgicos
Os concertos do Radio City Music Hall (capacidade para cerca de 6 mil pessoas) seguiram o mesmo formato dos da turnê de 89. Ringo e a banda, cada um tocou alguns números. Ringo participou da metade do espetáculo com favoritas dos Beatles, como Yellow Submarine e With A Little Help From My Friends, e mais as de seu novo LP, de dez faixas, em que ele, o mais famoso percussionista do mundo, não oferece um único solo de bateria. Mas tem a audácia de cantar.
Cummings tocou alguns dos maiores sucessos do Guess Who. Tudo muito certinho, previsível. A plateia reagiu se comportando bem. Não foi uma noite emocionante, mas agradável e nostálgica.
Cada uma das canções de Time Takes Time tem melodia e letra e riffs de guitarra inspirados nos primeiros sucessos dos Beatles. Esses sons preenchiam a imensidão do auditório onde Madonna um dia rasgou seu vestido de noiva (tour Like A Virgin) e a saudade dolorosa que a plateia (maioria quarentões) talvez tivesse da juventude. Uma das canções, What Goes Around, tem aquela batida harmoniosa de guitarra de George Harrison. Mas é música, não produto de sintetizador. É Ringo Starr se aposentando, escolhendo o conforto do que é conhecido. Um sobrevivente da década dos 60, como nós. (SN) CADERNO 2 (24/6/1992)

quarta-feira, 25 de abril de 2018

BAUHAUS, Passeio Pelo Lado Escuro do Rock

Um álbum duplo traz músicas do grupo inglês Bauhaus gravadas para programas de rádio da BBC, enquanto seu ex-vocalista Peter Murphy lança Deep, novo trabalho solo.

Bauhaus, as faces sombrias do pop: Daniel Ash, Peter Murphy, Kevin Haskins e David J.
JIMI JOE

Pouca gente no Brasil os conhece, embora tenham sido lançados por aqui quando a Stiletto ainda era distribuída pelo Estúdio Eldorado. Apesar de sua carreira ser tão obscura para o grande público brasileiro quanto os tons sombrios de suas melodias, o quarteto inglês Bauhaus foi uma espécie de gerador de uma série de espásticos movimentos que tentaram dar vida e energia ao pop pós punk desandado na fronteira das décadas de 70 e 80. Quem passou batido pelo álbum Mask e pela coletânea Bauhaus 1979-1983, lançados em 1988, recebe agora o álbum duplo com The BBC Sessions, da WEA, uma segunda chance de travar conhecimento com a música densa e ao mesmo tempo traduzida a esqueletos instrumentais fabricada por Peter Murphy, Daniel Ash, David J e Kevin Haskins desde o seu primeiro compacto pela Small Wonder. Gravado em 1979, o disco trazia a lúgubre Bela Lugosi's Dead que o público nacional de cult movies teve chance de ouvir em Fome de Viver, de Tony Scott, estrelado por David Bowie e Catherine Deneuve.
Aqui, como em muitas outras ocasiões, qualquer coincidência é muito mais que mera semelhança. Murphy, o cantor do Bauhaus, é um autêntico bowiemaníaco, como comprova a cover do grupo para Ziggy Stardust. Fornecendo material para comparação entre o que continua sendo, juntamente com a compilação Swing the Heartache - The BBC Sessions, do Bauhaus, a WEA está lançando também Deep, o novo álbum solo de Murphy. Melhor que o anterior, Love Hysteria, este novo disco ainda está, porém, muito distante, em termos sonoros, dos resultados que Murphy obteve com o Bauhaus ou com o seu trabalho imediatamente posterior à dissolução do grupo. Este trabalho batizado de Dali's Car e dividido com o baixista Mick Karn, um assecla de David Sylvian no interessante Japan, não passou do álbum The Waking Hour.
Se a coletânea The BBC Sessions não põe à nossa disposição a primordial Bela Lugosi's Dead, traz no entanto outros momentos tão ou mais apavorantes como Double Dare ou The Spy In A Cab. As gravações deste álbum são registros crus feitos para programas especiais da Radio One, da BBC inglesa, conduzidos por DJs fundamentais na história do pop britânico, como David Jensen e John Peel. Algumas dessas gravações, realizadas entre janeiro de 1980 e fevereiro de 1983, se mostraram tão convincentes e em conformidade como o som do Bauhaus que foram aproveitadas para os álbuns originais da banda. A God In An Alcove, Double Dare, The Spy In The Cab, In The Flat Field e St. Vitus Dance, que aparecem no primeiro dos dois discos de The BBC Sessions, foram todas incluídas no álbum de estreia do grupo pela ainda incipiente 4AD.
Algumas delas foram regravadas para o disco. Outras, como Poison Pen, embora regravadas, nunca foram lançadas ou viraram disputados singles, como a versão para Telegram Sam, de Marc Bolan. O segundo disco já mostra tendências mais suavizantes da banda em faixas como Silent Hedges (posteriormente incluída em The Sky's Gone Out, um disco quase plácido) e She's In Parties, um dos primeiros namoros de Murphy com o pop domesticado. Mas nele também estão Ziggy Stardust e Third Uncle (outra cover, desta vez de Brian Eno gravada por ele no LP Taking Tiger Mountain By Strategy), lançadas juntas no compacto mais bem sucedido do Bauhaus.
O espatifamento do Bauhaus devido a inevitáveis choques de egos evidenciados em apresentações de palco entre Murphy e o guitarrista Ash, se foi uma bad trip para a banda, foi uma bênção para quem está interessado em ouvir coisas novas no cenário pop. Desses cacos resultaram sonoras feridas que foram batizadas como Tones On Tail, Love and Rockets, Dali's Car, The Sinister Ducks ou The Jazz Butcher. Eram projetos liderados ora por Ash ora por Murphy ou ainda pelo baixista David J. O primeiro LP solo de Murphy, Should The World Fail To Fall Apart, de 1986 (e o melhor dele até agora), creditava uma manic guitar a Daniel Ash. A paz estava selada. E enquanto Ash, David J e Kevin Haskins se lançavam em um furioso revivalismo dos 60 com o álbum Seventh Dream of a Teenage Heaven, Murphy, depois de barbarizar olhos e ouvidos com apavorantes versões como a de Rosegarden Funeral of Sores, do Velvet Underground, se guia pelos caminhos de um pop mais civilizado. A continuidade dessa tendência é Deep, seu novo disco que abre com Deep Ocean Vast Sea, estranhamente incluída na trilha sonora do filme, The Teenage Mutant Ninja Turtles. Cantando longas letras sobre melodias pop que não chegam a abrir espaço para concessões fáceis, Murphy mantém a palavra afiada em canções como Cuts You Up e Roll Call ou joga sua voz abaritonada de forma incisiva na apocalíptica The Line Between The Devil's Teeth. Em canções como essas, mesmo sob o disfarce do pop, Murphy mostra que seus temas favoritos ainda são a tristeza doentia e as almas desoladas. O ESTADO DE S. PAULO (29/7/1990)