A REVISTA GUITAR PLAYER NORTE-AMERICANA FOI FUNDADA DURANTE O VERÃO DE 1967 QUANDO JIMI HENDRIX PÔS FOGO NA SUA STRATOCASTER EM MONTEREY E DETONOU UMA REVOLUÇÃO NA GUITARRA ELÉTRICA. EM TRÊS DÉCADAS, DESDE AS CHAMAS SAGRADAS DE JIMI, MILHARES DE ÁLBUNS DE GUITARRAS FORAM LANÇADOS E, EMBORA MUITOS APENAS OSCILARAM POR UM MOMENTO NO OUVIDO DO PÚBLICO, OUTROS MARCARAM REGISTROS PERMANENTES NA CABEÇA DOS GUITARRISTAS.
SEIS EDITORES DA GP NORTE-AMERICANA - JOHNSTON, GORE, OBRECHT, ROTONDI, THOMPSON E ELLIS - VASCULHARAM AS SUAS MEMÓRIAS, COLEÇÕES DE DISCOS, NÚMEROS ATRASADOS E LIVROS DE REFERÊNCIAS PARA DESCOBRIR OS MELHORES DISCOS DE GUITARRA DOS ÚLTIMOS 30 ANOS. A PARTIR DAÍ, HOUVE UM GRANDE ESFORÇO PARA ESCOLHER O SINGLE MAIS IMPORTANTE E INFLUENTE PARA CADA ANO. "MISSÃO IMPOSSÍVEL", VOCÊ DIRIA? ANDY ELLIS CHEGOU A ARGUMENTAR CONTRA O CONCEITO JORNALÍSTICO DE COLOCAR UM SINGLE DE UM DISCO SOBRE OUTRO. NO ENTANTO, OS DEMAIS MEMBROS DA "COMISSÃO JULGADORA" DECIDIRAM INSISTIR NO CARA-OU-COROA INTELECTUAL E PROVÁVEL DILÚVIO DE CARTAS DO TIPO "COMO VOCÊS PUDERAM DEIXAR DE FORA...?", NA ESPERANÇA QUE AS ESCOLHAS POSSAM INSPIRAR OS GUITARRISTAS A BUSCAREM A MÚSICA ESSENCIAL. A SURPRESA, AO FINAL, FOI QUE A LISTA DOS ESCOLHIDOS COMBINA COM A ÊNFASE EDITORIAL DA GUITAR PLAYER NO QUE DIZ RESPEITO AO ECLETISMO. DOS RENEGADOS DAS CORDAS DE NYLON AOS FUSIONISTAS E PUNKS PRIMAIS, AS ESCOLHAS TOP E VICE-CAMPEÃS CONFRONTAM AS POSSIBILIDADES DO INSTRUMENTO COM UMA INDIVIDUALIDADE SEM COMPROMISSO.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

JOY DIVISION, Banda Tornou O Rock Sombrio

Há 20 anos, grupo capitaneado por Ian Curtis fazia sua primeira aparição em uma danceteria de Manchester e, com letras elaboradas e pungentes, injetava desespero no pop internacional

Ian Curtis, o vocalista da banda inglesa que levava o público ao delírio quando se jogava no palco: seu timbre grave influenciou a geração que despontou para o estrelato nos anos 80
JOTABÊ MEDEIROS

Em 25 de janeiro de 1978, há exatamente 20 anos portanto, uma banda inglesa chamada Joy Division fazia seu primeiro show numa espelunca de Manchester chamada Pips Disco. Com seu som denso, elaborado e depressivo, o Joy Division contrapunha-se à rusticidade punk e definia o caminho que iria influenciar boa parte do rock nos anos 80.
Foi um caminho tortuoso e curto: apenas dois anos de carreira. Movido pela energia do desespero do cantor Ian Curtis, um garoto de 23 anos feio, franzino, bochechudo, epilético e visionário, o Joy Division desfez-se em 1980 - após o suicídio de Curtis.
A influência desse grupo nunca cessou. Seu primeiro disco como Joy Division, Unknown Pleasures (1979), é um dos mais pungentes retratos do vazio existencial que era a Europa no fim dos anos 70 e começo dos 80, quando tudo que parecia desenhar-se de futuro para os mais jovens era a vitória do cinismo, do conservadorismo de Tatcher e dos grandes esquemas do show business. Ele traduziu isso com um verso gótico, claustrofóbico, embebido na tradição de Yeats e De Quincey.
Curtis era depressivo, nervoso, esquivo, mas assustadoramente lúcido. Bono Vox, do U2, definiu sua voz como "sagrada". Lembram-se do jeito descoordenado de Renato Russo dançar, só com os braços, como se quisesse amparar-se de alguma maneira em algo ou alguém? Era uma maneira de homenagear Curtis, ou de citá-lo, ou de simplesmente irmanar-se do seu gesto.
Seus parceiros continuam escrevendo suas histórias pessoais no rock - Bernard Sumner (Eletronic), Peter Hook (Monaco) e Stephen Morris (The Other Two) -, mas o legado de Curtis volta e meia se reinstala no cenário pop.
Fã confesso de Lou Reed, Ian Curtis nunca se conformou quando o mestre se recusou a recebê-lo.
O nome da banda, Joy Division, era uma referência ao nome que os alemães davam aos prostíbulos de que se serviam nos campos de concentração, durante a Segunda Guerra Mundial. Antes, quando Curtis ainda dividia suas atividades com a de balconista numa loja da Virgin Records em Manchester, o nome do grupo era Warsaw.
Em 1995, sua viúva, Deborah Curtis, escreveu Touching from a Distance (Faber & Faber Ltd, Londres), uma maneira que encontrou de exorcizar a dor da perda e também de reencontrar o fio da meada de uma história enigmática. Ela estava separada de Curtis quando ele se matou, em 18 de maio de 1980.
Capa do álbum Unknown Pleasures
Mágoas - O parceiro Peter Hook chamou-o de "bastardo", quando soube da notícia. O amigo Tony Wilson disse que foi um gesto "altruísta", já que Curtis não sabia viver consigo mesmo e magoava as pessoas em volta. A viúva enumera as maneiras que Curtis encontrava de magoar os seus: com amantes regulares, não comparecendo à festa de aniversário da filha, entre outros "desvios " familiares.
Mas era a crônica de uma morte anunciada. Poucos dias antes do suicídio, Curtis já havia dito ao seu psiquiatra que havia conseguido tudo o que queria com a gravação de Unknown Pleasures e não lhe tinha restado mais nada a fazer. Para a mulher, ele planejou minuciosamente a própria queda, usando as pessoas que estavam à sua volta para legitimar o seu ato derradeiro.

sábado, 21 de outubro de 2017

THE CULT, Pegando Pesado

Billy Duffy do The Cult fala sobre o poder do riff

Apesar de haver solos no novo disco, eu não quis ficar preso a eles nas gravações", diz Billy Duffy. "Os solos não podem ofuscar os riffs."
DARRIN FOX

"Este CD soa como deve soar um disco do Cult", diz Billy Duffy sobre o primeiro álbum do grupo em sete anos, Beyond Good and Evil (Atlantic). "A produção é muito poderosa e sombria. É um disco agressivo - até mesmo violento".
Quando o primeiro trabalho do Cult foi lançado em 1984, na Inglaterra, o grupo chamou atenção com seu som tingido de gótico e com as texturas de guitarra viajantes de Duffy. No entanto, foi Love, de 1985, e a faixa She Sells Sanctuary, que deram notoriedade à banda. O disco seguinte do Cult, Electric, chocou os fãs. Trabalhando com o produtor Rick Rubin, o grupo abandonou o seu som taciturno e optou por uma abordagem mais crua. "Percebemos um movimento de retorno ao rock básico", afirma Duffy, "e queríamos fazer parte dessa energia. Decidimos sair do gótico dos anos 80 e levar a nossa música para outro nível. Rubin nos ajudou a fazer isso".
O Cult alcançou o ponto mais alto de seu sucesso em 1989, quando Sonic Temple atingiu os topos das paradas. Mas os discos seguintes do grupo foram decepções e o Cult terminou em 1995.
Agora Duffy e o vocalista Ian Astbury se reuniram e estão ansiosos para reconquistar seu lugar no mundo do rock. Com o produtor Bob Rock na direção, Beyond Good and Evil mostra uma banda que está viva e pronta para decolar - um sentimento que Duffy, entusiasmado, confirmou quando, de Londres, ele falou com a Guitar Player.
Beyond Good and Evil é muito pesado.
As pessoas estão surpresas com isso, mas não sei o que elas esperavam - um disco de folk? Quando Ian e eu montamos a banda de novo, queríamos fazer um disco brutal, pesado e descomplicado.
Por quê?
À vezes você tem de fazer a mensagem muito simples para se comunicar. Queríamos que Beyond Good and Evil fosse um álbum fácil para as pessoas digerirem. O disco Electric, por exemplo, é bem simples e muitas pessoas adoram.
Seus timbres são bastante variados no novo álbum.
Essa é uma das vantagens em ter Bob Rock como produtor. Se você quer um som pesado, Bob sabe o que significa pesado. Ele é guitarrista e conhece todas as nuances de timbre de guitarra e sua colocação na mixagem. Ele fez meus sons pesados ficarem mais pesados e meus sons leves, mais leves.
Como é trabalhar com Bob Rock em comparação com Rick Rubin?
Foram dois períodos diferentes para nós. Rick e Bob possuem personalidades fortes. Isso é essencial para produzir o Cult. Ian e eu lhe daremos muito trabalho se você for fraco. Rubin é mais um estilista que compreende o que ele quer ouvir. Bob é um produtor prático que se vê como guitarrista e compositor.
Como produtores, cada um parece ser o sonho dos guitarristas.
Bob é bastante apaixonado pela guitarra e percebe o que o músico precisa fazer para obter sons. Rick sabe o que quer ouvir e não liga como você faz, contanto que faça. Às vezes Rick me dava uma solução, enquanto Bob poderia ser parte da solução.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

SISTERS OF MERCY, Grupo Mostra A Outra Face do Gótico

O grupo inglês se apresenta hoje e amanhã no Projeto SP e refuta a ideia de embarcar no gênero de rock que ficou conhecido como dark no Brasil nos anos 80

Sisters: fama alcançada mais por atitudes que pelo trabalho musical
JEFERSON DE SOUSA

Agora o Brasil não é apenas rota musical de grupos internacionais. Tornou-se também ponto de partida. O grupo inglês The Sisters of Mercy retorna aos palcos depois de um intervalo de cinco anos, iniciando pelo Brasil a turnê mundial de seu novo disco, Vision Thing. Eles tocaram ontem em Brasília e se apresentam hoje e amanhã no Projeto SP, com abertura do grupo gaúcho Nenhum de Nós. Vocalista, líder e único remanescente da formação original, Andrew Eldritch chegou ao País quarta-feira pela manhã, acompanhado de sua nova banda, e concedeu entrevista coletiva antes de seguir para Brasília.
O novo Sisters pouco tem que ver com as formações anteriores - nem a primeira, com os atuais integrantes do The Mission, Mayene Hussey e Gary Marx; nem a última, quando Eldritch trabalhava com a baixista Patricia Morrison. Eldritch não gosta de falar sobre nenhuma das duas fases e os motivos que levaram ao rompimento com os ex-companheiros. Quando perguntado sobre Patricia Morrison, Eldritch respondeu secamente: "Pergunte ao meu advogado". A pergunta fora antecedida por outra sobre o Mission ("Não conheço o trabalho do Mission"), o que aborreceu o vocalista. "Por favor, não perguntem mais nada sobre isso", cortou Eldritch de forma incisiva.
A atual formação do Sisters é um conglomerado de músicos que já prestaram serviços a grupos famosos. O guitarrista Tony James, que parece exercer a função de braço direito de Eldritch, foi líder do Generation X ao lado de Billy Idol e mentor da armação rock-fliperama conhecida como Sigue-Sigue Sputinik; o baixista Timothy Bicheno vem de uma bem sucedida carreira ao lado do All About Eve; Dan Donovan, o tecladista, acompanhou a primeira fase do Big Audio Dynamite (a banda do ex-Clash Mick Jones). O único desconhecido é o guitarrista Andreas Bruhn, que diz ter tocado em várias bandas, "mas nada que mereça ser lembrado".
Os fãs do movimento gótico (aqui no Brasil degenerado sob a infame denominação de "dark") devem reavaliar seu conceitos. Embora alguns adeptos brasileiros insistam em manter vivo o movimento caracterizado pela atitude sombria, esse já está morto e enterrado há anos na Inglaterra. Quando perguntado sobre o gótico, os integrantes do Sisters riem e afirmam: "Não conhecemos nenhum G" (G é gíria inglesa para designar os góticos).
Musicalmente o Sisters também procura nova direção. Eldritch afirma que este terceiro LP é mais rock que os anteriores (First and Last and Always e Floodland). Mais político, também. Segundo Eldritch, o título, Vision Thing, é inspirado em uma frase de George Bush sobre a invasão do Panamá. O líder da banda diz que prefere falar da política americana a falar da europeia. Do ponto de vista de Eldritch, todas as questões americanas - censura, domínio político, etc - são interessantes e proveitosas. Um bom material de trabalho. "Adoro a forma estúpida de os americanos viverem. O país todo parece uma imensa Disneylândia."
A banda de Eldritch, mais especialmente ele próprio, é um daqueles casos em que fama e notoriedade são erguidas mais por declarações, atitudes e modos de vida que pelo trabalho musical. Uma década depois de ter sido criado na cidade de Leeds, o Sisters continua chamando a atenção da imprensa inglesa mais pelas ações de Eldritch que por sua música. "Faço apenas as músicas, a imprensa é que rotula."
Ele nega que tenha a intenção de ser sombrio em suas canções. "Escrevo sobre a vida, às vezes meus amigos morrem e escrevo isso, that's life..." Não há necessariamente ligação sobre o que se escreve e o que se é (Não é porque escrevi sobre rios que serei um peixe)". Cinco anos se passaram, e Eldritch não se sente um peixe fora d'água no cenário atual da música pop. Para ele nada mudou. A curiosidade é: o que ele fez nesses cinco anos? "Continuei a viver e voltei a beber". Realmente cinco anos não é muito tempo. CADERNO 2 (SEXTA-FEIRA, 26/10/1990)

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

MEGADETH, Riffs de Guitarra & Política

Banda americana liderada pelo temperamental Dave Mustaine retorna dois anos após o último show com guitarrista novo

MEGADETH - Banda está em turnê promovendo o disco United Abominations, de forte crítica política
JOTABÊ MEDEIROS

É só mais um show, diz o vocalista e dono do Megadeth, Dave Mustaine, com um mau humor de cão. Dá uma entrevista a contragosto, e é monossilábico e quase deselegante. Mas o rock'n'roll tem dessas coisas, e Mustaine e sua banda Megadeth são dos bons atos do rock pesado internacional. São sempre recomendáveis para quem gosta do gênero. Eles tocam esta noite no Credicard Hall, com grande afluxo de fãs (até ontem, tinham sido vendidos 4,5 mil ingressos dos 7 mil lugares da casa), dois anos após sua última apresentação na cidade, no mesmo lugar. Mustaine, ao telefone, estava intratável, e então soltou apenas alguns comentários guturais sobre colegas ("Korn? Não acho que seja metal. É hip-hop") e o retorno do grupo ao Brasil. Falou que a banda está com um guitarrista novo, Chris Broderick (que já tocou com Nevermore e Jag Panzer), substituindo Glen Drover (que largou a banda em novembro; alguns dizem que por conta de uma briga com Mustaine, mas Dave diz que a mulher de Glen teve um filho e ele preferiu ficar em casa com o rebento). Broderick estreou no grupo no dia 4 de fevereiro, em show na Finlândia.
Além de Mustaine e Chris Broderick, o Megadeth desembarca com o baterista Shawn Drover e o baixista James LoMenzo (ex-Black Label Society e White Lion). LoMenzo entrou para ficar por pouco tempo e acabou integrando definitivamente a banda, e participando da gravação do novo disco, United Abominations, lançado no ano passado. Já está há dois anos no grupo, que tem 25 de estrada.
"Tem sido um arraso. Eu comecei pensando que só ia fazer um disco com eles, e agora nós estamos excursionando e tem sido demais. Nós lançamos o novo disco e os fãs estão sendo super-receptivos. É como um renascimento para o Megadeth, e isso é fabuloso", afirmou o baixista.
United Abominations, como o trocadilho sugere, é um comentário político sobra a ação das Nações Unidas, que Mustaine considera "pífia". Não é a única música com endereço certo: Washington Is Next! é destinada aos homens que comandam a terra natal do cantor. Amerikastan, como o nome diz, faz referência à política de intervenções dos Estados Unidos no Oriente Médio.
EM BUENOS AIRES, GUITARRISTA TOCOU HINO NACIONAL DA ARGENTINA
Animal político desde os primórdios de seu grupo, Dave Mustaine não faz, no entanto, um comentário definitivo sobre o atual momento eleitoral do país. "O que sei é o que vejo na televisão. Não sei muito, não sei se estou preparado. Gosto de Obama, mas não me sinto à vontade para comentar", disse.
Para James LoMenzo, o rock do Megadeth perdura e segue adiante por um motivo muito simples: ele não se desvia de sua motivações originais. "Se você me perguntar em que tipo de música as novas gerações devem focar, eu diria que elas devem olhar para trás. Elas devem ir atrás de bandas como Led Zeppelin. Caras como Jimi Hendrix. Entender de onde nós viemos, ouvir tudo aquilo; mesmo se não conseguir captar inicialmente, vai captar uma hora. Deem tempo ao tempo. Ouçam e aprendam."
O Megadeth vem de shows em Buenos Aires e Santiago. Em Buenos Aires, Chris Broderick tocou na guitarra o hino nacional argentino antes do início do show, causando uma catarse. CADERNO 2 (5/6/2008)

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

ALICE IN CHAINS, Grupo Põe O Pé Frio Na Estrada

Atração do Hollywood Rock em janeiro, o grupo Alice in Chains trabalha intensamente para superar a má fase, que deixou marca até no pé esmagado do vocalista Layne Staley num acidente

Alice in Chains: "Muitas bandas parariam mesmo na hora, mas nós continuamos"
JEFFREY RESSNER
Rolling Stone

Os chicotes batem duro na Basement de Dallas, um clube underground no qual a última noite de cada semana é celebrada com o nome de Domingo Sádico. Nesta peculiar noite de outubro, várias "dominadoras" de corpo pintado açoitam as costas descobertas de um freguês e cravam as unhas nos ombros dele. Então, derramam vinagre sobre as feridas, e depois espalham mel e penas na parte superior de seu torso. À pouca distância dali, assistindo a tudo isso, está sentado Layne Staley, de 25 anos, o encrencado e enigmático vocalista da banda de hard rock Alice in Chains, de Seattle. Ele está bêbado até a raiz dos cabelos, rindo, tentando tomar parte na ação, enquanto suporta, ele mesmo, uma dor bem real.
Staley, cujo vocal é responsável em grande parte pelo som sombrio do Alice, está engessado desde setembro, quando esmagou o próprio pé num acidente com um veículo atrás do palco, num show em Oklahoma. "Meu pé está totalmente estropiado, segurado por pinos", disse o cantor mais tarde. Staley visitou um especialista em ortopedia, que trabalha com um time de basquete, o Seattle Supersonics. O acidente não poderia ter vindo em hora pior: só recentemente o cantor conseguiu se livrar das drogas, e o álbum mais forte do Alice, Dirt, só conseguiu um sexto lugar no ranking da Billboard. Em Dallas, executando uma canção que fala sobre heroína, God Smack, Staley gira numa cadeira de rodas, sacudindo o microfone com se fosse a seringa de algum junkie. Não há, é claro, nenhum simbolismo oculto.
"Eu gosto muito do efeito da cadeira de rodas", diz o baixista Mike Starr, 26 anos. "De algum modo, ela faz Staley parecer mais... maligno". O baterista da banda, Sean Kinney, de 26 anos, vê a determinação de Staley em se apresentar logo depois de um grave acidente como um sinal da força do Alice. "Staley não quebrou a voz, e não dá chutes nem faz movimentos de dança", diz Kinney. "Muitas bandas teriam parado na mesma hora, mas nós continuamos fazendo excursões".
De fato, o trabalho intenso tem sido um fator chave na ascensão do Alice in Chains. O grupo surgiu em 1990 com o álbum Facelift: a faixa Man in the Box ganhou o prêmio Grammy e o da MTV, no ano passado. Antes de gravar Dirt, o grupo continuou trabalhando, com o EP Sap e com uma participação no filme Singles, de Cameron Crowe. Embora o estilo "pesadelo" do Alice possa ter parecido esquisito nos tons doces de Singles, o carismático guitarrista da banda, Jerry Cantrell, de 26 anos, gostou do filme. "Ele toca em algumas emoções e sentimentos muito profundos, e isso é o que nós também fazemos", afirma. "Não é porque tocamos um certo tipo de música que eu não vou apreciar outros, mesmo que com sentimentos mais leves".
Com Would como carro chefe, Dirt chegou às lojas na mesma semana que a trilha sonora de Singles. O álbum de estreia do Pearl Jam também atingiu o Top Ten, seguindo os assaltos mais recentes ao ranking, feitos pelo Nirvana e pelo ressurgido Temple of the Dog. Esses trunfos podem representar concorrência forte, mas "cada banda tem sua própria alma", diz Cantrell. "Nós todos tocamos rock, portanto há uma identidade comum. Mas as bandas são diferentes, a nossa é mais introspectiva, Pearl Jam é cheia de vida e vigor, e por aí vai. Claro, essas são só classificações que estou tirando da minha cabeça. Mas mesmo que eu não possa apontar exatamente as diferenças individuais, elas estão lá".
O Alice in Chains foi formado no fim dos anos 80. Staley, cantando em outra banda, ofereceu a Cantrell, na época um desnorteado guitarrista de Tacoma, seu estúdio de ensaios, como um lugar em que ele pudesse arrebentar. "Era naquela casa gigantesca chamada Music Bank. Tinha 50 recintos diferentes", conta Cantrell. "O lugar ficava aberto 24 horas por dia, sempre com bandas tocando, gatinhas entrando e saindo, cerveja e drogas por toda parte. Foram tempos selvagens".

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

DEPECHE MODE, Um Passeio Pela Evolução Eletrônica

Music For The Masses: a obra mais complexa e obsessiva da banda inglesa Depeche Mode

FERNANDO NAPORANO

Em meados de 80 três garotinhos de Basildon, Essex, montaram o Depeche Mode e, um ano depois, sob a febre tecno-pop que assolava a Inglaterra (Gary Numan, Soft Cell, Fad Gadget), já tinham um LP e dois hits na parada. No LP seguinte, Vince Clarke abandona a banda para formar o Yazoo, sendo substituído por David Gahan. Mas é no terceiro álbum, em que já apareciam como quarteto, que as letras perdem de vez o caráter de descartabilidade e passam a ter preocupações políticas, com base na utopia do realismo socialista. Tal temática se torna um fanatismo em Some Great Rewards, um trabalho em que também são solidificadas os antigos flertes com o pop pós-industrial. Com Black Celebration, o Depeche hiberna pela amargura e pelo berro anticapitalista, entremeando depressões em cores monocórdicas e até maçantes.
Agora, aparece entre nós Music For The Masses, lançamento WEA, a obra mais complexa e obsessiva das vozes e teclas de Andy Fletcher, Alan Wilder, David Gahan e Martin Gore, o autor de todas as dez faixas. Como sempre, o Depeche passeia pelas evoluções da eletrônica, pactuando com os mais radicais e novíssimos circuitos eletrônicos de computadores, além da utilização de teclados antigos, como o sintetizador ARP e moogs e da meticulosa manipulação de Fairlight, emulators, Kurzweil e diversos outros samplers, sequenciadores e sintetizadores. Em termos de produção (Depeche e David Bascombe), nada mais pode ser exigido, pois é o máximo da perfeição tecnocrática, mas sem aquela frieza reles e populista.
No hit Never Let Me Down Again, transpira a erótica (homos)sexualidade do grupo, numa rara tonalidade extremamente pop, mas sem recair na baba ou em vulgares pasteurizações. Na canção seguinte The Things You Said (Martin Gore on lead vocals), a entrevista eroticidade surge massacrada em gelados acordes de floating-ballad, enquanto em Strangelove, popice-semi-pós-industrial, é esse mesmo corpo, essa mesma carne que reaparece buscando seus prazeres em acepções masoquistas. A tentativa de sacralizar o amor é o mote que conduz a mediana Sacred, contrastada pela ácida beleza minimal de Little 15, em que, quiçá, a desgraçada mundana pode ser esquecida pela sublevação do desejo.
A peculiar disco-obsessiva Behind The Wheel abre o segundo lado propondo metafóricas formas de entrega, ao passo que na desesperadora I Want You Now (Gore nos vocais), perpetuada por uma aflita/orgasmática respiração, a paixão é declarada, pronta para consumir e ser consumida, até não restar mais nada do nome. A barra pesa em To Have And To Hold, em que a decadência e a doença desse rosto apaixonado tatejam, em atmosferas gélidas, o significado do abismo. Nothing é uma composição mais fraquinha e pouco original em seus retalhos afuncalhados. Pimpf encerra essas "músicas para as massas" numa tétrica atmosfera de vozes, que tanto podem ser um brado de fanático totalitarismo como réquiem para alguém que passou um disco inteiro sofrendo perdas e danos do discurso amoroso. (CADERNO 2, 27/01/1988)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

MORGANA LEFAY, A Santa Inquisição & Novo Cenário Metálico Nórdico

FERNANDO SOUZA FILHO

Ouvir o grupo sueco Morgana Lefay é um exercício de bom gosto para qualquer ouvido iniciado no heavy tradicional. Os riffs fortes entrecortados pelas batidas pesadas e vocais rasgadões, formam uma tríade perfeita para os apreciadores de um bom heavy inteligente.
Formado por Charles Rytkönen (vocal), Tony Eriksson (guitar), Joakim Heder (baixo), Daniel Persson (guitarra) e Jonas Söderlind (bateria), o Morgana Lefay é uma prova viva de que a Escandinávia está se tornando o novo centro irradiador do heavy tradicional, na mesma proporção em que a Alemanha vai perdendo este posto. Do primeiro trabalho da banda, Symphony for the Damned (lançamento independente que só saiu na Suécia), até o novo disco do conjunto, Maleficium, o quinteto só vem confirmando seu talento.
Maleficium é conceitual e trata das perversidades cometidas pela famigerada Inquisição medieval. Um disco fantástico.
Da redação da BRIGADE, batemos um fio direto para a gélida Suécia para conversar com o vocalista Charles Rytkönen, que  descansava da turnê que a banda completou ao lado do Gamma Ray pela Europa.

ROCK BRIGADE - Maleficium é um disco conceitual que fala de algumas das atrocidades cometidas pela Santa Inquisição... Por que vocês escolheram este tema?
CHARLES RYTKÖNEN - Antes de mais nada, esse assunto é muito interessante, tem muitas nuances que podem ser exploradas. A Idade Média foi uma era de trevas e a Santa Inquisição foi muito mais maléfica à humanidade do que as próprias pessoas que eles acusavam de serem malignas. Os cristãos daquela época contribuíram com boa dose de crueldade para as trevas que cobriram o mundo naqueles dias.
RB - Vocês souberam retratar aquela hipocrisia toda de forma bastante poética nesse álbum...
RYTKÖNEN - Nossa ideia era passar uma mensagem de que essas formas antiquadas de praticar a religião são inócuas e, muitas vezes, extremamente, cruéis.
RB - O título do álbum seria então o adjetivo com a qual vocês conceituariam a Santa Inquisição?
RYTKÖNEN - Exato. "Maleficium" é uma palavra que vem do latim e que serve para designar algo realmente maligno. Esse é o nosso conceito da Inquisição.
RB - No final do ano passado, o cardeal Joseph Ratzinger, da Sagrada Congregação Para a Doutrina da Fé, do Vaticano, disse que o rock é algo maligno para a alma humana. No entanto, a instituição que ele preside é justamente a mesma que se chamava Santa Inquisição, na Idade Média. O que você achou dessa declaração?
RYTKÖNEN - [irritado] Ele não tem a menor ideia sobre o que está falando! Como ele pode dizer que o rock'n'roll faz mal para as pessoas? O que ele tem na cabeça? A música eleva o espírito, faz as pessoas se sentirem bem. Se a música não faz bem para alguém específico, a culpa não é da música. Por que não ver os problemas pessoais dessa pessoa antes de acusar uma música de maléfica?

sexta-feira, 7 de julho de 2017

GEORGE CLINTON, Setentão do Groove

Rei da psicodelia dançante é um dos destaques do festival que começa hoje

Carnaval. George Clinton (à direita) chega com sua trupe colorida
ROBERTO NASCIMENTO

O DNA da música negra contemporânea estará à mostra durante três dias a partir de hoje, na Arena Anhembi, onde quatro décadas de afro revolucionários sobem aos palcos, cada um com sua receita para o denominador comum da música popular ocidental, o groove. Talvez o mais influente desta lista (que inclui Lee "Scratch" Perry, Jorge Ben e Public Enemy) seja George Clinton, o insaciavelmente sampleado rei da psicodelia dançante, que define grande parte da sonoridade do funk dos anos 70 e do hip hop dos anos 80 e além. O show de sua trupe, o carnavalesco Parliament Funkadelic, versão atualizada de suas bandas das décadas de 60 e 70, é acompanhado de um marco: seus 70 anos. Será, como outras apresentações da banda por aqui nesta década, um desfile de hits que mesclam sonoridades experimentais e refrões que já atingiram status de hinos (Bring the Funk, Flashlight) sobre a sólida pulsação do funk.
Aos 70 anos, o impacto de George Clinton em quatro décadas de música popular só perde para o de James Brown, cujo cubismo sonoro serviu literalmente de alicerce para as experimentações do Parliament e do Funkadelic nos anos 70, pois o músico contratou boa parte dos instrumentistas de Brown, incluindo o genial baixista William "Bootsy" Collins. No palco, George opera mais como técnico do que músico para o grupo, que sempre incluiu de 12 a 15 integrantes: ele canta, mas tem apoio vocal, toca teclado, mas tem um tecladista. Antes de desmanchar a banda e seguir carreira solo, nos anos 80, a banda operava como um coletivo em que nenhum membro era o centro das atenções. Se George chamava atenção com seus adereços bizarros, ele a dividia com os óculos em formato de estrela de Bootsy, com as fraldas que o guitarrista Garry Shider, que morreu no ano passado, usava no palco.
A história da banda começou nos anos 60, quando George Clinton trabalhava em uma barbearia e formou um grupo de doo wop chamado The Parliaments. Clinton pegou gosto pelas harmonizações e chegou a trabalhar na Motown como compositor durante a mesma década.
Influenciado pelas inovações rítmicas que James Brown fez nos anos 60, transformando o soul em algo cru, despindo-o de qualquer adereço que velasse sua sexualidade, George começou a elaborar sobre a batida hoje conhecida como funk. As experimentações de Jimi Hendrix e o sentido coletivo de Sly Stone deram as diretrizes sobre o que George faria com o ritmo: o manteria contagiante enquanto abriria espaço para experiências com sintetizadores e guitarras psicodélicas sobre o groove. O visual da banda também seria fundamental e sua fase afro futurista, do final dos anos 70, tem influência até os dias de hoje em artistas como Janelle Monáe, que fez sucesso no ano passado com o hit Tightrope.
O sucesso do Funkadelic, cujo lineup incluiu muitos dos músicos da primeira banda de George Clinton e estaria sempre em transição, chegou no meio da década de 70, embora  a discografia que antecede o disco One Nation Under a Groove, que trazia os hits Flashlight e Aqua Boogie, seja tão importantes quanto. O disco Maggot Brain, de 1971, primeiro com a participação de Bootsy Collins, tem suas inimitáveis linhas de baixo, assim como o histórico solo de guitarra de Eddie Hazel na faixa título, que renderia ao músico seguidores em todos os shows da banda até esta década. O fanatismo chegou a ser algo parecido com o que o Grateful Dead de Jerry Garcia conseguiria nos anos 90, em que uma base de neo hippies seguia a banda pelos Estados Unidos. Quando Garcia morreu, em 1996, muitos de seus seguidores passaram a fazer caravanas para as turnês de George Clinton.
No início dos anos 80, George deixou as bandas para embarcar em carreira solo, gravando ótimos discos como Computer Games, de 1982. Houve diversas reuniões das duas bandas, os Parliaments e o Funkadelic sob o nome de P-Funk All Stars durante os anos 80 e 90, com a participação de Bootsy. O show de hoje pode trazer um Clinton abalado, devido a uma recente infecção que o obrigou a ser internado por alguns dias. De acordo com uma resenha do respeitado Times-Picayune, jornal de Nova Orleans, o artista ficou boa parte do show deste fim de semana sentado e, quando cantou, estava rouco. Mesmo assim, de acordo com a autora, a pulsação da banda estava em dia e garantiu a noite. George toca às 2h30 da madrugada de sábado. CADERNO 2 (22/7/2011)

sexta-feira, 30 de junho de 2017

SEX PISTOLS, Malcolm McLaren Convida O Funk Para Uma Valsa

Em entrevista ao Caderno 2, o multi-agitador cultural inglês que inventou os Sex Pistols anuncia sua volta, lança seu terceiro LP e uma nova dança - o "vogueing"

McLaren: "A música não lidera os modismos. Pintura e moda é que lançam as ideias"
EVA JOORY

Quatro anos de silêncio não mataram a criatividade do inventor do marketing da cultura punk - o inglês Malcolm McLaren. Aos 43 anos de idade, ele se prepara para lançar seu novo e terceiro LP, intitulado Waltz Darling. Em vez de triturar parodicamente o glam ou investir no hardcore, ele resolveu mostrar a qualidade revolucionária da valsa vienense e uni-la com o funk de James Brown. Uma espécie de tradução musical de um argumento elaborado por outro Mac, MacLuhan, em 1964, no livro Understanding Media. Para MacLuhan, a valsa representou a revolução burguesa na música de salão.
Em 1983, McLaren foi o primeiro a brincar com conceitos alheios. Casou música africana com o rap americano em seu LP Duck Rock. Logo depois, em 1984, aventurou-se no álbum Fans, pelo mundo da ópera, misturando-a com pop e hip hop. Mais do que ninguém, McLaren pode ser chamado de lançador de modas e precursor de tendências. Nos idos de 1975 abriu a loja mais famosa da era punk - a Sex - na rua mais agitada de Londres - a King's Road. Criou a moda do glam rock e virou empresário dos extintos New York Dolls. Inventou e organizou o grupo mais obsceno e radical dos anos 70 - os Sex Pistols - e pôs no mercado várias outras modas, como os piratas do Adam and the Ants e Bow Wow Wow, além da menor de idade - na época, começo dos anos 80 - Annabela Lwin.
De volta a Londres e sempre em posição de caça, McLaren acaba de fundir valsa, funk e house music. Com a ajuda do legendário Bootsy Collins, ex-baixista de James Brown, e do guitarrista Jeff Beck, ele mistura Strauss, Barry White, funk, Philadelfia soul, musicalidade de Detroit. Em entrevista ao Caderno 2, de Londres, por telefone, ele chamou a atenção para um novo estilo de dançar - o vogueing.
Caderno 2 - Vamos falar do seu novo LP. Como funciona essa fusão entre funk, valsa e house?
McLaren - O que eu queria fazer, quando gravei Fans, era uma maneira de gravar um disco europeu mais conservador. Uma maneira de introduzir novidades na música. Quando acabei, vi que estava realmente compondo música como um diretor de cinema. Como não toco nenhum instrumento, o que faço é achar novas fontes musicais e botá-las para funcionar junto. Mas percebi que o que gostaria mesmo de fazer, com esses tipos de ideias musicais, era cinema. Então fui morar em Hollywood. Lá tentei fazer cinema, mas as pessoas queriam que eu continuasse na música. Decidi então gravar um novo LP.
Caderno 2 - Qual é exatamente a proposta do disco?
McLaren - Esse disco surgiu de uma proposta que vendi para a companhia de Spielberg, baseada na ideia de que o rock'n'roll foi descoberto em 1860 e não em 1960. Em suma, mandei o rock de volta 100 anos. A ideia de fazer um filme de rock baseado no século passado agradou bastante, só que ninguém entendeu como soaria esse tipo de música. Então tive de inventar essa música. pensei que o ideal seria algo que viesse e fizesse parte desse período. E, naquela época, a valsa era a música da moda. Tive de achar um meio de introduzir a valsa dentro do rock'n'roll. Tentei me lembrar de quem seria o típico feiticeiro do ritmo: só podia ser James Brown. A ideia era James Brown encontrando Johann Strauss e como fazê-la funcionar. Escolhi a banda de James Brown, para trabalhar comigo em Detroit. Antes disso, gravei em Londres no Abbey Road Studios todas as valsas com a Royal Philarmonica Orchestra: gravei fragmentos e pequenos movimentos e segui para Detroit para tentar escrever as músicas.

terça-feira, 27 de junho de 2017

BLUR, Grupo Faz Disco Para Negar Todos Os Rótulos

O baixista Alex James fala do novo trabalho, diz que está apaixonado pela cultura norte-americana e cansado da disputa com Oasis pelo título de banda mais popular entre os grupos do chamado britpop

Os rapazes do Blur, que acabam de lançar novo CD, cujo título é o nome da banda: ironia com o Oasis, críticas ao britpop e paixão pela música e roupas americanas
MARCEL PLASSE

Blur foi a primeira banda a ser chamada de britpop. O rótulo durou alguns anos e agora Blur é a primeira banda a jogá-lo no lixo. Seu novo álbum, pela EMI, tem apenas o nome do grupo como título e é um dos melhores lançamentos da Inglaterra desde que a dance music sepultou o rock no país.
Cansada da disputa com Oasis pelo título de banda mais popular da Europa, Blur fez um disco apenas para os fãs de boa musica. O baixista Alex James confirma, por telefone, de Londres, um inesperado amor pela América e o desdém completo pelo britpop. Oasis? "Deixe que eles sejam os novos Beatles", ironiza.
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Estado - Quem descobriu a América?
Alex James - Graham Coxon, nosso guitarrista. Ele é um velho fã de Sonic Youth. Damon Albarn, nosso vocalista, também estava no barco na expedição de descobrimento. Ele até hospedou os caras do Pavement em sua casa, agora que a banda excursionou pela Inglaterra. Uma coisa que sempre me irritou é que as bandas americanas podem cantar sobre a América e isso é visto como normal em todo o mundo. No novo disco, ainda cantamos coisas da Inglaterra. Citamos Essex, por exemplo, num título. Qual é o problema? É de onde viemos e é o que sabemos.
EUA TIVERAM A MELHOR PRODUÇÃO DO MUNDO NOS TEMPOS DO NIRVANA, DIZ ARTISTA
Estado - Isso não é uma barreira para o mercado americano?
James - Acho que a América começou a se entediar com Hootie and the Blowfish. O grunge foi completamente absorvido pelo mainstream e deixou de ser a vanguarda - virou uma coisa chata. Não creio que a América tenha uma voz no momento, o que é triste, porque eles estavam fazendo a melhor música do mundo na época do Nirvana. As bandas americanas tinham um jeito vigoroso de expressar medo, angústia e raiva, mas acho que as pessoas ficaram saturadas. Felizmente, depois, vieram Beck, Sebadoh, Weezer e Tortoise.
Estado - Qual é a melhor coisa dos EUA?
James - Pizza. Você não consegue comer pizza tão trash na Inglaterra. Também as lojas de disco e as de roupas. Os ingleses são muito caretas no que diz respeito às roupas.
Estado - O que fez o Blur mudar tanto de estilo, desde que surgiu?
James - Somos todos bons músicos e não vejo por que deveríamos nos confinar num estilo particular. Os Beatles nunca fizeram isso. A gente toca tudo o que funciona.
Estado - O que você achou da versão dos Pet Shop Boys para Boys and Girls?
James - É uma versão ao vivo, num lado B ou numa compilação, sei lá. Sabe o que me lembra? Uma vez deixei alguém levar meu cachorro para passear. Quando voltaram, o cachorro parecia outro.
Estado - Como o novo disco, Blur vai voltar à condição de principal banda inglesa, que hoje pertence ao Oasis?
James - Tenho mais coisas a fazer do que pensar sobre o Oasis. Eles arrebentam, não? Boa sorte para o Oasis. É uma boa banda.
COMO OS BONS MÚSICOS, ROQUEIRO DEFENDE CONSTANTES MUDANÇAS DE ESTILO
Estado - Vocês têm mágoa da forma como o Oasis tornou-se adorado, uma vez que o Blur dominava a mídia inglesa?
James - Acho que esse negócio do Oasis já rendeu o que tinha de render. Vendemos milhões de discos. Eles vendem um pouco mais. Mas é estúpido da parte da imprensa inglesa creditar qualidade a vendagens. Na Inglaterra, se você não vende X discos, não é ninguém. Como poucos vendem tanto, há superexposição de determinadas bandas. O que os caras do Oasis dizem não é o que realmente querem dizer. Sempre que dou uma entrevista, alguém tenta me fazer dizer coisas horríveis sobre eles. Mas não vou dizer, porque o Oasis é uma grande banda. Pena que eles não consigam manter a cabeça no lugar. Liam parece ser o Cantona (Eric, jogador do Manchester United, famoso pelo temperamento esquentado) do pop. Mas a gente até se dá bem, apesar das intrigas. Eles estão sendo rotulados de bad boys, mas são gente fina.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

BOOTSY COLLINS, Sacerdote do Funk

Herdeiro de James Brown, comparsa de George Clinton, fã de Hendrix, o baixista toca hoje, no Sesc Pompeia

Lenda viva. Um dos últimos moicanos da geração que construiu a soul music
ROBERTO NASCIMENTO

A última vez que se ouviu falar de Bootsy Collins foi em 2011, quando o baixista lançou Tha Funk Capital of the World. Se serve de prévia para os três shows que o alto sacerdote do funk, o cara dos óculos galácticos e molejo perpétuo, faz no Sesc Pompeia, a partir de hoje, justificados estão os ingressos. O conceito cósmico pode soar datado; as batidas, uma mistureba de estilos de black music sem muita personalidade. Mas o balanço é incontestável. Com duas notas e um baterista econômico, Bootsy faz miséria. Sobre o palco da choperia, onde deve reler sucessos de sua passagem por duas das grandes bandas da história - os JBs de James Brown, e Parliament Funkadelic de George Clinton - assim como algumas do disco, não será diferente.
Bootsy é dos últimos moicanos da geração que construiu a soul music. A maioria de seus comparsas, aqueles que viram James Brown transformar o pop negro, está morta ou aposentada - para não falar dos que enlouqueceram com a quantidade de ácido tomada na época de sua segunda grande banda, o Parliament Funkadelic. Mas em Tha Funk Capital, Bootsy mostra-se um fiel guardião de uma herança brilhante, cósmica e inenarravelmente suingada.
Décadas depois de sua formação nos JBs, banda que estabeleceu os alicerces rítmicos para todo tipo de dance music a partir de então, Bootsy ainda retém a reverência pelo pai do soul.
Em JB - Still the Man, por exemplo, o baixista conta com a participação do reverendo Al Sharpton, figura próxima de James Brown, para um sincero speech de louvação ao cantor. Em entrevista ao apresentador Jools Holland, Bootsy disse sobre sua homenagem: "James Brown é o meu pai. Eu era moleque de rua, não tinha pai. Brown me adotou. Mas sempre senti que ele não estava satisfeito, como se eu não estivesse dando o meu melhor. Queria agradá-lo, mas pensava 'caramba, esse cara realmente não gosta de mim'", contou, antes de emendar: "Anos depois me contaram que ele se sentia responsável por mim, queria ser sério, e não sabia como controlar um moleque doido, solto na rua".
As gravações da época servem de atestado para o pulso firme de JB. Só Sex Machine e Super Bad já garantiriam a presença de Bootsy no cânone dos grandes. Mas estes são apenas o aperitivo. O legado de Brown e sua magistral banda contém aulas e mais aulas de precisão rítmica.
Mas não é só. Bootsy participou também da revolução afro-futurista de George Clinton, na década de 70, na qual tocaria em discos visionários e faixas essenciais, como Flashlight, para a estética do hip-hop, anos depois. A proposta cósmica do Funkadelic define a música de Bootsy até hoje. "Imagine uma orgia", contou o baixista, certa vez, ao Guardian, sobre os idos de George Clinton. "Muitas gatas e muita gente andando pelado - gente fazendo sexo por todos os cantos, todo mundo tomando LSD, fumando maconha, e ninguém tem medo de nada. Pense em qualquer coisa, e faça isto. E era assim antes do show, a caminho do show, durante o show, e depois do show. O circo era interminável", contou.
Na época, Bootsy tomou ácido todo dia, por dois anos, até que a sensação de estar vivendo em outro mundo o incomodou. Era a fase em que, além de George Clinton, Bootsy era intensamente influenciado por Jimi Hendrix. Até hoje, é um dos especialistas em memorabilia hendrixiana, tendo construído em sua casa algo que se aproxima a um santuário para o guitarrista.
No novo álbum, por sinal, Bootsy conseguiu que a família de Hendrix liberasse alguns samples vocais para que o músico as incorporasse a uma jam cósmica. "Hendrix era deus", disse ao jornal britânico. "Ainda é". CADERNO 2 (25/01/2013)

quarta-feira, 21 de junho de 2017

DAVID BOWIE, A Volta do Desbravador

Depois de vários LPs sem expressão, David Bowie forma o conjunto Tin Machine e retoma a linha de frente do rock

Bowie e o Tin Machine: canções curtas e ríspidas com o vigor do som dos anos 60
O mundo do rock tem se lamentado que David Bowie, nos últimos anos, anda chato. E logo quem. Desde que estourou para o sucesso em 1972 com o LP The Rise and Fall of Ziggy Stardust, esse cantor e compositor inglês, hoje com 42 anos, foi uma espécie de bússola do rock, antecipando tendências e apontando novas direções com suas ousadias. Como no LP Pin Ups, de 1973, em que previa a derrocada do rock sinfônico e a explosão do movimento punk, deflagrado quatro anos depois. Ou no LP Young Americans, de 1975, em que resgatava os ritmos da música negra e antecipava o som discothèque e a onda do funk. Ou ainda em LPs como Low e Heroes, do final dos anos 70, em que usava teclados eletrônicos de uma maneira que seria a base do rock new wave da década seguinte. Recentemente, em álbuns como Let's Dance, a usina de renovação de Bowie parecia estar sem combustível.
Agora, o mundo do rock pode comemorar a volta de David Bowie à linha de frente do gênero. Essa volta, com ares triunfais, é proporcionada pelo LP Tin Machine, que chega às lojas esta semana. Tin Machine é também o nome do grupo que Bowie montou em torno de si com os irmãos Tony e Hunt Sales, no baixo e na bateria, respectivamente, e com o guitarrista Reeves Gabrels. É a primeira vez que o compositor deixa de assinar um disco com seu nome e se coloca como mero integrante de um grupo. Embora, na prática, Bowie domine o disco como compositor e cantor, o fato de trabalhar com um grupo parece ter-lhe devolvido o entusiasmo pelo rock, pela inquietude e pela experimentação que o gênero guarda em sua origem. Tin Machine é um disco seco e direto como um balaço. Os rocks são curtos, ríspidos, às vezes dissonantes. As letras, com exceção das que ilustram baladas lentas, como Amazing, falam de racismo, violência e guerras, e nelas Bowie destila o melhor de sua ironia.
FÔLEGO - A volta de Bowie ao rock rude dos anos 60 não é um fenômeno isolado. A música pop parece estar entrando num período de ressaca da explosão dos teclados eletrônicos e dos recursos tecnológicos que marcaram o gênero ao longo dos anos 80. Delineia-se também um período de baixa para os astros com pose de porta de butique e ar de absoluto tédio da vida. Da mesma forma que o punk, embora de maneira radical, buscou nas origens do rock uma forma de renovação, o gênero tem optado hoje por uma simplificação na forma e no conteúdo. Essa tendência tem proporcionado também a volta às paradas de uma série de astros que nos últimos anos pareciam relegados às enciclopédias da música popular. Não por coincidência, alguns dos melhores discos que chegaram às lojas nos últimos meses foram assinados por nomes como George Harrison, Keith Richards e Lou Reed. A esse grupo, junta-se agora David Bowie, num dos grandes LPs de sua carreira.