A REVISTA GUITAR PLAYER NORTE-AMERICANA FOI FUNDADA DURANTE O VERÃO DE 1967 QUANDO JIMI HENDRIX PÔS FOGO NA SUA STRATOCASTER EM MONTEREY E DETONOU UMA REVOLUÇÃO NA GUITARRA ELÉTRICA. EM TRÊS DÉCADAS, DESDE AS CHAMAS SAGRADAS DE JIMI, MILHARES DE ÁLBUNS DE GUITARRAS FORAM LANÇADOS E, EMBORA MUITOS APENAS OSCILARAM POR UM MOMENTO NO OUVIDO DO PÚBLICO, OUTROS MARCARAM REGISTROS PERMANENTES NA CABEÇA DOS GUITARRISTAS.
SEIS EDITORES DA GP NORTE-AMERICANA - JOHNSTON, GORE, OBRECHT, ROTONDI, THOMPSON E ELLIS - VASCULHARAM AS SUAS MEMÓRIAS, COLEÇÕES DE DISCOS, NÚMEROS ATRASADOS E LIVROS DE REFERÊNCIAS PARA DESCOBRIR OS MELHORES DISCOS DE GUITARRA DOS ÚLTIMOS 30 ANOS. A PARTIR DAÍ, HOUVE UM GRANDE ESFORÇO PARA ESCOLHER O SINGLE MAIS IMPORTANTE E INFLUENTE PARA CADA ANO. "MISSÃO IMPOSSÍVEL", VOCÊ DIRIA? ANDY ELLIS CHEGOU A ARGUMENTAR CONTRA O CONCEITO JORNALÍSTICO DE COLOCAR UM SINGLE DE UM DISCO SOBRE OUTRO. NO ENTANTO, OS DEMAIS MEMBROS DA "COMISSÃO JULGADORA" DECIDIRAM INSISTIR NO CARA-OU-COROA INTELECTUAL E PROVÁVEL DILÚVIO DE CARTAS DO TIPO "COMO VOCÊS PUDERAM DEIXAR DE FORA...?", NA ESPERANÇA QUE AS ESCOLHAS POSSAM INSPIRAR OS GUITARRISTAS A BUSCAREM A MÚSICA ESSENCIAL. A SURPRESA, AO FINAL, FOI QUE A LISTA DOS ESCOLHIDOS COMBINA COM A ÊNFASE EDITORIAL DA GUITAR PLAYER NO QUE DIZ RESPEITO AO ECLETISMO. DOS RENEGADOS DAS CORDAS DE NYLON AOS FUSIONISTAS E PUNKS PRIMAIS, AS ESCOLHAS TOP E VICE-CAMPEÃS CONFRONTAM AS POSSIBILIDADES DO INSTRUMENTO COM UMA INDIVIDUALIDADE SEM COMPROMISSO.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

THE SMITHS, O Grupo Inglês Lança Na Europa Um Novo LP

Os componentes do conjunto inglês The Smiths
NICOLAU SEVCENKO

Saiu... os corações mais trêfegos já podem se tranquilizar, podem jogar no lixo todo o estoque de Vallium e Diempax, dar folga para as unhas e apagar o cigarro. Toda a angústia e ansiedade da espera acabou. Já se pode trocar a insônia pelo pesadelo: até que enfim saiu, na Europa, o novo LP dos Smiths. Prometido para o começo de maio pelo selo independente Rough Trade, o disco acabou atrasando um mês e meio em função dos arranjos para o lançamento simultâneo através da Sire nos Estados Unidos. A gravadora, o pessoal do grupo, a imprensa e o público já não aguentavam mais o que parecia um castigo interminável, imposto pelas leis de importação americanas, e que privavam os ingleses do seu mais sofisticado prazer: a melodia órfica de Steven Morrissey, a música e os arranjos de guitarra de Johnny Marr, a poesia insidiosa e o tom melancólico do grupo que definiu a atmosfera cultural dos anos 80. Até que enfim saiu o novo LP dos Smiths. Agora tudo está salvo. Aliás, tudo exceto aquela estranha pontada que a gente sente no peito toda vez que pensa (da qual portanto muita gente está livre) - essa tende a aumentar em frequência e intensidade - exceto a paz platônica que recobre o palácio de Buckinghan e os prédios do Parlamento, tão propícia para o crescimento do bolor (sim, o bolor se alimenta do silêncio). O título do disco traz um anúncio, "A Rainha Está Morta". É a provocação com que Morrissey saúda o sexagésimo aniversário da rainha, no momento em que o país mergulha numa de suas mais dramáticas crises. No fundo é muito mais do que apenas a monarquia ou apenas a Inglaterra.
Inferno de ambiguidades
Na faixa-título do LP, Morrissey pretende nada menos que, em suas próprias palavras, traçar "uma espécie de panorama geral do estado em que se encontra a nação." Mas há muitos truques aí, tanto para evitar a censura, quanto para jogar mais querosene no inferno de ambiguidades das suas letras, "a velha rainha de que fala a canção, sou na realidade eu". Diz a letra da canção: "Eu verifiquei os registros históricos/e fiquei chocado até a vergonha ao descobrir que eu sou descendente em décima-oitava geração/de alguma velha rainha qualquer." E por que o choque da vergonha? Pelo imobilismo de uma estrutura política que ilude, ignora e esconde as brutalidades do cotidiano, perpetuando a aflição coletiva sob uma fachada de glória, austeridade e requinte. "Quando você está grudado no avental da sua mãe/ninguém lhe fala sobre castração". Mas atenção, ele está falando tanto do poder quanto de si mesmo (e portanto de mim, de você e do circo todo), tanto da política quanto da arte. E ei-los juntos de novo mais adiante: "nós podemos caminhar para onde é mais quieto e mais seco/e podemos falar sobre coisas preciosas/como o amor, a lei e a pobreza/essas são as coisas que me matam." Mas a vida continua ruindo sob esse diálogo elegante. "Foi o mundo que mudou ou fui eu? Quando um durão de nove anos de idade mascateia drogas/ e eu nunca sequer soube que elas existiam". No meio dessa monstruosidade que nenhuma palavra mais é forte o suficiente para definir, alimentar ilusões confortadoras, além de criminoso e estúpido não há mais o avental e nem a mãe: "A rainha está morta, moçada/e é tão solitário num limbo/a rainha está morta, moçada, podem acreditar em mim."

JUDAS PRIEST, Líder do Grupo Diz Que Rock Não Mata

Rob Halford, líder e vocalista do Judas Priest, que se apresenta no Rock in Rio 2 no dia 23 de janeiro
SÉRGIO SÁ LEITÃO

Desde 1985, quando Iron Maiden e Ozzy Osbourne detonaram seus decibéis extasiantes no primeiro Rock in Rio, os "headbangers" brasileiros não tinham nada igual à disposição. Agora, porém, Dioniso reina nas hostes do metal: a seca de grupos indispensáveis acaba no dia 23 de janeiro, com a apresentação de Rob Halford (voz), KK Downing (guitarra), Glenn Tipton (guitarra), Ian Hill (baixo) e Scott Travis (bateria). Em outras palavras, o Judas Priest em carne, osso e amplificadores à beira da combustão.
Fundado em 1974 na Inglaterra, o grupo liderou a segunda geração do heavy metal, responsável por sua afirmação como gênero independente do hard rock. Com LPs brilhantes no currículo, o Judas Priest chega ao país em seu melhor momento. Após uma década de paralisia criativa, quando não conseguiu acompanhar a explosão do thrash, o grupo voltou à forma com o LP "Painkiller". Em entrevista à Folha, Halford falou sobre o disco, o processo que respondeu por indução ao suicídio de dois jovens e o show do Rock in Rio. "O rock não mata", disse. "Apenas diverte".
***
Folha - Há pouco o Judas Priest foi acusado de induzir dois jovens norte-americanos ao suicídio. A absolvição foi rápida, mas a imagem do grupo saiu arranhada do episódio. O rock mata?
Rob Halford - Não. De modo nenhum. Bem, há duas maneiras de encarar o assunto. Os conservadores dizem que o rock influencia a vida das pessoas, leva a uma catarse religiosa que cega a razão. Mas não há nenhum estudo científico provando isso. Outros dizem que não se pode estabelecer uma relação direta de causa e consequência entre o rock e a atitude dos fãs. Eu penso desse modo. Os garotos que se mataram ouvindo Judas Priest ou Ozzy Osbourne não estavam com a cabeça no lugar antes de comprarem os discos. Nossa música, como ficou claro, foi apenas um pretexto. Os dois meninos tinham problemas afetivos e sofriam de um complexo de rejeição.
Folha - O rock, então, deve ser encarado só como uma forma de diversão?
Halford - O rock é um dos acontecimentos mais importantes da cultura ocidental nesse século. Trata-se de um fenômeno de massas que ainda não foi estudado com seriedade. Acho que ele expressa os sentimentos dos jovens, exorciza a violência das cidades e diverte com força, potência. Isso não significa que ele leve a qualquer parte. Os adultos caminham com a próprias pernas. Os jovens também fazem isso, só que escutando rock no walkman. O rock é diversão. Sem ele, haveria ainda mais gente louca e violenta por aí.
Folha - O grupo tem conseguido escapar à ação da censura nos EUA. O heavy, porém, é um alvo tão visado quanto o rap. Você concorda com a censura a LPs?
Halford - Eu odeio a censura. Ela é perigosa e desestimulante. Sou contra a censura sobre qualquer tipo de arte, qualquer tipo de produto cultural. O Estado não tem o direito de dizer o que as pessoas podem ou não consumir. Nenhuma associação civil pode ter esse direito. A censura investe contra os direitos humanos. É fascista. O Suicidal Tendencies ganhou o selo de aviso aos pais em seu último LP ("Lights, Camera, Revolution"). É sinistro.
Folha - Os anos 80 não foram quentes para vocês. O som perdeu em força e qualidade desde 1982. O que ocorreu?
Halford - Todos os nossos discos dos anos 80 conseguiram ouro ou platina. Foram bem-sucedidos em termos de público. Desde a explosão do thrash metal, porém, entramos em uma crise de criatividade. De fato, fomos repetitivos e chatos em alguns momentos. Penso que ficamos batendo na tecla do heavy metal clássico por muito tempo. Nosso problema foi de qualidade. Quando você está na estrada há tanto tempo, é difícil manter o padrão. Além disso, ficamos atordoados com o thrash.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

POLICE/TALKING HEADS, Rock Como Espelho de Uma Época

Police revitaliza os papéis atribuídos a um moderno trio pop
PEPE ESCOBAR

"Synchronicity", quinto LP do Police, e "Speaking In Tongues", sexto LP dos Talking Heads, lançados agora no Brasil, representam dois bem-humorados e sonoros tapas na face maquiada da música da maior parte dos contemporâneos. O Police revitaliza e redefine os papéis atribuídos aos componentes de um moderno trio pop: expande o alcance melódico do baixo e as nuances dos vocais, simplifica a percussão atravessada de polirritmos e sofistica os toques de cor da guitarra e eventuais teclados. O Talking Heads, após promover todas as fusões possíveis entre soul, funk, pop e rhythm'n'blues, e celebrar o encontro da new wave com a sensibilidade africana, refina esteticamente todas as sutilezas eletrônicas da "dance music" atual.
Depois de "Let's Dance", de David Bowie, estes dois álbuns traçam com toda a elegância possível o estado de coisas na sensibilidade moderna. Celebram a dança - unida em ardente e produtiva cópula com a eletrônica - , mas não deixam de inventariar a solidão na alma. Algumas das canções de Sting, por exemplo, são como facas cravadas na nossa vida secreta: mostram como todos anseiam por se comportar como estrelas duplas, consanguíneas, luzindo de um para outro nas trevas. E revelam, como declarou o próprio Sting em entrevista à "Musician", que uma certa subversão possível na música pop atual vai muito além do rock'n'roll: "Eu não acho que o Police faça realmente rock'n'roll. Rock'n'roll em sua pior forma é pose, polêmica, gritaria e fingimento de que toda sociedade está contra você. Não acho que nossa música seja música de revolta, nesse sentido: acho que é mais que isso. Não vou desestabilizar a sociedade; mas gostaria de modificá-la por dentro. Estou a favor dos que realmente querem uma mudança, e não colocar outras pessoas contra o muro e fuzilá-las. Não tem sentido."

Molduras geométricas para os ritmos do Police

É uma poção mágica, letal, o esquema musical do Police. Os vocais e o baixo de Sting lançam ao ar o foco melódico e a direção rítmica básica; a bateria de Stewart Copeland entra com a continuidade rítmica e alguns detalhes texturais. O resto - cor, direção harmônica e o centro da textura - vem de Andy Summers, trabalhando basicamente com dois sintetizadores de guitarra Roland, fragmentando progressões de acordes e harmonias na mesma proporção em que expande a flexibilidade do som do trio.
Há cinco anos atrás o Police era uma entre inúmeras bandas que se amontoavam no negro e estreito palco do primeiro clube punk inglês, o Roxy. Cinco álbuns, vários sucessos e milhões de discos vendidos depois conseguiram contaminar o mundo inteiro com flamejantes injeções de reggae, minimalismo, jazz da ECM e outras iguarias musicais disfarçadas em melodias que "grudam" na cabeça e canções estruturadas de maneira enganosamente simples. É a fina e sofisticada arte de fazer o máximo com o mínimo.
Esta é uma obra-prima previsivelmente imprevisível. As densas camadas texturais de "Ghost in the Machine", o álbum anterior, de 81, foram desnudadas, revelando uma menor escala de cores, porém muito mais intensas e brilhantes. Não há "overdubs", acordes em "echoplex" ou a batida marcadamente reggae de Copeland. Há tremendo espaço, polirritmos africanos, percussão de rock - os impactos essenciais - e delicados graffiti de guitarra desenhados por Summers com precisão Zen. Sting continua tocando um baixo fragmentado e enxuto, mas agora canta em um novo timbre, mais envolvente. Claro: "Synchronicity" é uma excursão temática por perdas que nos debilitam, a verdadeira identidade que procuramos, o sofrimento espiritual, o conflito entre luz e trevas, tudo isso tratado com uma elegância e um flair incomparáveis.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

MILES DAVIS, A Fênix Que Renasce Em Paris

Na volta, Miles mostra o mesmo som sideral, embora sem agilidade
JAVIER FRANCO

PARIS - Após nove anos de ausência e cinco de silêncio, de excessos e doenças que fizeram temer até por sua vida, o pistonista Miles Davis, um dos quatro ou cinco autênticos gênios do jazz, ressurgiu em Paris para a alegria de seus fãs.
Para aqueles - não muitos - que foram uma vez mais se deliciar com a sua música, os seus concertos foram uma nova demonstração de talento e a esperança de que, para o bem do jazz, não serão os últimos.
Miles Davis - nascido em Alton, Illinois, em 1926 - não se apresentava em Paris desde 1973. Eles esteve praticamente sem tocar desde 1976 até 1981, quando reapareceu, ou praticamente ressuscitou nos Estados Unidos inacreditavelmente magro e pelas mãos da bela atriz negra Cicely Tyson, que meses depois seria sua terceira mulher. Embora o pistonista seja parco em confidências, sabe-se que foram cinco anos terríveis, de voragem e desespero, de doenças e de sofrimentos. Inicialmente, ele parecia procurar a sua autodestruição através do prazer, do álcool e da droga. E quando a sua saúde começou a naufragar, os médicos o trataram com codeína e morfina, drogaram-no ainda mais.
Em 1977 ele confessou a um amigo: "Estou acabado. Já não existo". Parecia seguir o mesmo trágico caminho de seu primeiro e único mestre, Charlie Parker, ou o de seu "inimigo íntimo" Thelonius Monk, que após um eclipse comparável, morreu em fevereiro passado. Outro de seus amigos admitia: "Se ele não fosse Miles Davis, já estaria na prisão, ou num asilo".
Os menos pessimistas lembravam como superou a sua crise de 1951/53, quando - ele mesmo admitiu muitos anos depois - chegou ao proxenetismo mais sórdido e direto para poder comprar a sua dose diária de heroína: Miles desintoxicou-se sem ajuda de ninguém. Fechou-se sozinho num apartamento e, após sete dias de "carência" e tentativas de suicídio, voltou a sair, fraco, mas vencedor.
Desta vez, porém, foi pior: O músico já passava dos 50 e, além do desregramento, tratava-se de um corpo cansado: "uma maldita doença, que emagrece os ossos até quebrá-los", disse em entrevista ao semanário "People Magazine", a única concedida desde o seu reaparecimento.
Hospitalizado em três países, operado duas vezes, saturado de droga e quase manco, fechou-se em seu apartamento em Manhattan e ficou quatro anos sem sair, quase sem dormir e sem se alimentar.
Era um sonâmbulo, com os olhos grudados na televisão 24 horas por dia, sem atender o telefone, mas telefonando para pedir "tudo o que precisava". Logo começou a vomitar sangue. "Por causa da morfina?" Perguntou-lhe Cheryl McCall, do "People Magazine". "Não, por causa do fígado, já tão maltratado e saturado de álcool".
Para piorar tudo surgiu uma artrite, que ainda lhe atrofiava os dedos nos primeiros concertos do ano passado, e um tumor na garganta que o obrigava frequentemente a deixar o palco para inalar oxigênio. De forma que, nem mesmo o seu retorno, nem o seu desigual novo disco "Man With the Horn", nem suas estáveis relações com Cicely Tyson, dissipavam os temores de seus fãs.
Nos dias dois e três de maio, no Teatro Musical de Paris, Miles parecia estar fisicamente melhor - embora visivelmente envelhecido - e musicalmente quase em forma, se por isto se entende saber explorar ao máximo até as limitações: a intensidade, sobriedade e maestria a que chegou o eximem de maiores prodígios.
O seu novo quinteto é formado por quatro músicos jovens - Bill Evans (sax e flauta), Mike Stern (guitarra), Marcus Miller (baixo) e o antilhano-francês Dino Cinelu (percussão) - e pelo veterano Al Foster (bateria). Mas é o seu primeiro grupo que não inclui teclados.

VAN HALEN, Voz e Poder do Som

O público ficou tão entusiasmado com as loucuras que nem tomou conhecimento das deficiências de acústica do Ibirapuera. Afinal, não é todo dia que um grande conjunto de "heavy metal" toca em São Paulo

David Lee Roth pulou muito e conversou com a plateia, inclusive em português, durante duas horas de muita energia e alguns problemas
PEPE ESCOBAR

Aquele garoto de jeans, tênis e sem camisa, banhado de suor, dedilhando com frenesi uma guitarra imaginária - possesso em uma cerimônia catártica - foi taxativo: "Van Halen é a maior invenção da humanidade desde o advento da eletricidade."
E ele não estava sozinho: as quase duas horas do "road show" do Van Halen, em um Ibirapuera quase lotado de lamentável acústica, produziram na plateia basicamente duas reações: o desvario ou a catatonia. Um garoto americano ou europeu está acostumado a escolher, todos os dias, qual show vai assistir à noite - do "blues" ao "heavy metal", do "punk" ao "art rock", da "new wave" ao "funk", do "rhythm'n'blues" ao "superpop". Um garoto brasileiro vê algum de seus ídolos de rock - a única linguagem que identifica como sua - uma ou duas vezes por ano. Só pode entrar em transe, assim como quem não compreende esta dinâmica se abisma na própria perplexidade.
Van Halen exibe no palco todos os atributos da estética "heavy metal" - este compartimento imortal do rock que privilegia a parcimônia de acordes, a profusão de decibéis e o flerte constante com avalanches de energia a serviço de efeitos majestosos. David Lee Roth - com roupas deliciosamente "kitsch", estilo "Wagner em Indiana", e os longos cabelos louros esvoaçantes - usa tudo que aprendeu de caratê e tai-chi, em constante rotação, eventualmente apelando para poses "macho", porém em clave de paródia. Michael Anthony toca sem truques um baixo "gordo", que eventualmente funciona como uma guitarra rítmica e faz um solo com efeitos eletrônicos de "timing" adequado. Alex Van Halen - oculto sob uma verdadeira loja de instrumentos de percussão - é responsável por verdadeiras odes à batida - a deusa do ritmo no universo rock - mantendo o fluxo de energia por todo o show; seu solo, com efeitos de aceleração na bateria eletrônica e luz estroboscópica, é um dos pontos altos. Mas é Eddie Van Halen, na guitarra, o fator X de desequilíbrio.
Não é por acaso que este garoto de 23 anos, tocando com uma guitarra "hand made" que lhe custou apenas 200 dólares, é considerado um dos melhores do mundo por Carlos Santana, Frank Zappa, Andy Summers e críticos e leitores de revistas especializadas. A maior parte dos grupos de rock pesado possui até três ou quatro guitarristas. Eddie, sozinho, faz o que todos estes talvez vislumbrem em sonhos. E sem precisar recorrer a fábricas de efeitos ou sintetizadores de guitarra. Eddie só usa echo, chorus, flanger e brinca constantemente com o botão de volume. As invenções são "nos dedos", como ele mesmo diz. A mais impressionante é uma espécie de martelada com duas mãos: em vez de dedilhar uma nota, ele faz soar a primeira batendo a corda com toda força no traste e pega a corda com o mesmo dedo para fazer soar uma segunda nota, mais baixa.
Houve problemas no show - tanto na sexta (com a iluminação) quanto no sábado (metade do som "desapareceu" durante duas músicas, a guitarra de Eddie ficou travada e a equalização não funcionou: o som estava muito alto, distorcido, especialmente baixo e bateria, com guitarra pouco audível). A acústica do Ibirapuera, é claro, mata qualquer show (teto de alumínio e cimento nas laterais; não há possibilidades de o som ser absorvido). Mas a energia do Van Halen no palco é hipnótica e passou por cima de qualquer contratempo. Eles não sabiam se tocavam exclusivamente para o público ou se faziam algumas performances especialmente para a TV (a Bandeirantes filmou os shows e logo deve transmitir um especial), terminaram fazendo as duas coisas. Entusiasmaram-se com o frenesi da plateia, tiveram improvisos brilhantes (especialmente Eddie em seus solos) e engraçados (na sexta David inventou um blues para São Paulo). Com David não parando de afirmar com seu sotaque grave de "middle América", "Hey Brasil, you are numero uno", a banda tocando com fúria e realmente se divertindo no palco, e a plateia acompanhando com atenção cada nuance, a taxa de empatia e delírio coletivo só poderia chegar aos 100 por cento.

LOS LOBOS, Banda Revitaliza O Rock Atual

O grupo mexicano Los Lobos, que tem seu segundo LP lançado no Brasil
O que se pode esperar de uma banda formada por descendentes de mexicanos criados no leste de Los Angeles, com sobrenomes como Hidalgo, Perez, Rosas e Lozano e instrumentos de nomes estranhos como "guitarrón", "hidalguera" ou "bajo sexto"? A princípio, uma boa seleção de músicas folclóricas como a "norteña" ou as "corridas". O quinteto Los Lobos não decepciona. Só que faz também um dos melhores trabalhos de revitalização do atual rock norte-americano. O mercado brasileiro recebe agora "By the Light of the Moon", segundo LP do grupo, lançado nos EUA em dezembro de 86, ainda entre os mais vendidos da "Billboard".
Até aí pouca novidade. Em 84, eles lançaram um "extended play" que rendeu o prêmio Grammy (Oscar do mercado fonográfico) para a canção "Anselma". Em outubro, lançaram pelo selo Warner o álbum "How Will the Wolf Survive?". Disco de platina, reconhecimento da crítica e a fama vieram após dez anos de estrada, os dois primeiros como músicos folclóricos, os três seguintes voltados só para o rock e o resto na fusão.
A alma dos Los Lobos está na presença do produtor T-Bone Burnett, que já trabalhou, entre outros, com Elvis Costello. No LP "King of America", Costello convidou David Hidalgo para participar como músico e inclui canções dos Los Lobos em seus shows. Nada mal para quem começou em 74, aprendendo a tocar os instrumentos já como uma banda.
A base do trabalho do grupo é simples. Os arranjos são despidos de grandes inovações tecnológicas. O som é orientado pelas guitarras, tanto acústicas quanto elétricas. Na primeira mixagem de "By the Light of the Moon", a balada "River of Fools" saiu com todos os instrumentos da banda. A versão que está no disco é somente acústica, despojada. A mão de Burnett funciona ao lado das intervenções da banda, especialmente David Hidalgo.
Concessão
Como o resto do quinteto, Hidalgo é multiinstrumentista. Sua voz tem timbre semelhante ao do inglês Steve Winwood. Ao lado do baterista/guitarrista Louie Perez, compões as faixas de melodia mais pop como "Tears of God", "The Hardest Time" ou "One Time, One Night", que abre o disco.
 Ao contrário de "How Will the Wolf Survive?", que apresentava canções fortes como "Don't Worry Baby", "Evangeline" e o hit "Will the Wolf Survive?", o novo disco dos Los Lobos é mais coeso. Tem poucos baixos. Os momentos de pico também não chegam ao excepcional. Mas é uma lição que rock é uma questão de pureza. Quanto mais, melhor. Basta ouvir "Shakin' Shakin' Shakes", do guitarrista e vocalista Cesar Rosas, com letra de T-Bone.
A única concessão às raízes mexicanas fica para "Prenda Del Alma", que soa curiosa. A cota por disco diminuiu. Los Lobos estão cada vez mais mergulhando na linguagem aprendida com o "rhythm and blues" e a música "country". Bebem da fonte. O lado branco do grupo vem com o saxofone de Steve Berlin, que tocava com os Blasters, outra  banda que trabalha na mesma direção de busca de origens. O interessante é que o "purismo" dos Los Lobos aparece recheado de boas ideias como o trabalho das guitarras em "Is This All There Is?", terceira faixa do lado um.
Fica faltando "How Will the Wolf Survive?" e "...And a Time to Dance", o LP que lançou os Lobos no mercado. São cartilhas essenciais. Enquanto elas não vem, "By the Light of the Moon" cumpre bem o papel de animar a festa. Quem quiser mais, pode ouvir "Graceland", de Paul Simon. Ele literalmente "roubou" temas criados por Rosas e Hidalgo e não citou autorias. Nem tudo é África no rock dos anos 80. FOLHA DE S. PAULO (17/7/1987)

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

ALLAN HOLDSWORTH, O Guitarrista dos Guitarristas

Allan Holdsworth toca SynthAxe ligado no Chroma e no Oberheim Xpander
MARCOS SMIRKOFF

Allan Holdsworth é conhecido na imprensa musical norte-americana como "o guitarrista dos guitarristas". A explicação é simples: sua lista de admiradores começa por Eddie Van Halen, passa por Steve Vai, Carlos Santana e chega até mesmo a Frank Zappa - um feito extraordinário, sabendo-se que Zappa evita comentar as performances de seus colegas de instrumento. Os dotes musicais de Holdsworth, demonstrados em "Atavachron", justificam fama tão bem solidificada.
"Atavachron" é o terceiro LP individual de Holdsworth a sair no Brasil e também seu terceiro álbum-solo pelo selo norte-americano Enigma. Antes, ele pôde ser ouvido em "Bundles" (1975), um dos poucos LPs do Soft Machine a serem editados aqui, e em dois discos do violinista Jean-Luc Ponty, "Enigmatic Ocean" (1975) e "Individual Choice" (1983). A maior parte das atuações de Holdsworth com outros músicos e grupos nunca tiveram a honra de um lançamento brasileiro - o que significa a ausência nas coleções dos fãs de guitarra de performances antológicas, especialmente junto aos conjuntos dos bateristas Bill Bruford (em "Feels Good to Me" e "One of a Kind") e Tony Williams (o Lifetime, em "Believe It" e "Million Dollar Legs"), ou ainda com Bruford no LP de estreia do UK, de 1978.
O que distingue o toque de Holdsworth do de outros instrumentistas parte de sua própria formação. Filho de um pianista e fã de um saxofonista - Charlie Parker - Holdsworth se esforçou em obter uma ligação mais fluida entre as notas da guitarra. Além de conseguir uma envergadura rara entre os dedos indicador e mínimo, ele aproximou o som e a expressividade de sua guitarra do de um sax ou de um instrumento de arco. Atualmente, apenas outro guitarrista divide a mesma proposta de Holdsworth, o norte-americano Bill Frisell.
As semelhanças entre Holdsworth e Frisell continuam pela opção de trabalho com tecnologia avançada. Frisell escolheu conectar sua guitarra com um Synclavier; Holdsworth preferiu (e foi preferido pelo fabricante) o SynthAxe, um sofisticado controlador de sintetizadores, que aparece na capa do LP dando motivo a uma citação do seriado "Jornada nas Estrelas". Foi unir o útil ao agradável - o braço de trastes quase equidistantes se mostrou confortável à mão rápida do guitarrista. "Atavachron" é o disco de demonstração da perícia de Holdsworth no novo instrumento. O improviso da parte central de "All Our Yesterdays" é um exemplo: Holdsworth usa a memória da SynthAxe para sustentar uma sequência rítmica e harmônica, enquanto sobrepõe a melodia.
Sem sono
Os timbres gerados em sintetizadores permitiram que Holdsworth fosse mais longe na procura de uma outra identidade sonora para a guitarra. Outro tento que ele conseguiu é permanecer criando música interessante no círculo do jazz-rock, que se desgastou totalmente nos últimos dez anos. Longe de se entregar às sonolências da new age, Holdsworth investe em uma mistura mais pesada do jazz com o rock, ideia que lhe garantiu público e repercussão nos EUA, país em que mora no momento. Basta comparar sua performance à SynthAxe com a de outro usuário do sistema, Lee Ritenour - enquanto o bom gosto do britânico o faz usar a velocidade para construir melodias complexas (como em "Non Brewed Condiment"), Ritenour gasta virtuosismo no óbvio. FOLHA DE S. PAULO (4/5/1988)

ADRIAN BELEW, Multi-instrumentista Quer Que Sua Guitarra Soe Como Animal

O guitarrista norte-americano Adrian Belew, durante o show de estreia de David Bowie em São Paulo
CLÁUDIO JÚLIO TOGNOLLI

Nos EUA, um país onde cerca de 4 milhões de guitarristas torcem suas cordas, Adrian Belew, 40, é eleito há dois anos o melhor guitarrista do mundo na categoria "experimental". Os números são da mais conceituada revista no gênero, a norte-americana "Guitar Player". Na terça-feira passada, uma hora e meia antes de subir no palco com o cantor David Bowie, no Olympia (zona oeste de São Paulo), Adrian Belew deu uma entrevista exclusiva à Folha.
Ele admite ser um Jimi Hendrix "pós-moderno" - ciente de que o publico reconhece em seus solos pitadas envenenadíssimas, copiadas daquele mestre. Acha que a guitarra do futuro vai resgatar, com tecnologia, o que Hendrix fazia há 20 anos. Diz que ficou impressionado com as cem pessoas que fizeram coro, na porta do Hilton Hotel, para lhe pedir autógrafos em pedaços de papel. "Não sabia que era tão conhecido nessas terras", afirmou. Soltando uma gargalhada curta ao fim de cada resposta, sempre molhada com goles de Coca-Cola, que ele diz adorar, seguem-se os principais trechos da entrevista - feita ao lado de um piano, no Hilton, onde um músico interpretava Richard Claydermann.
***
Folha - Quando você começou a tocar guitarra?
Belew - Eu comecei a tocar bateria quando tinha 10 anos e comecei a tocar guitarra aos 16. Fiz essa troca porque queria ser um compositor. Estava muito feliz com a bateria, mas a vontade de escrever música foi mais forte.
Folha - Quais foram as suas principais influências?
Belew - Elas foram e continuam sendo o compositor erudito Stravinsky, Jimi Hendrix e os Beatles. Foram essas influências que fizeram com que eu formasse meu primeiro grupo de rock, quando era apenas um adolescente. Eu era, naqueles velhos tempos, o cantor e baterista. O grupo se chamava Denemons. Todos nós usávamos jeans para as apresentações. E agora eu toco "Blue Jeans" com o David Bowie...
Folha - Como você ficou famoso no rock? Quem te deu o primeiro empurrão?
Belew - Foi o Frank Zappa, em 1977. Eu estava tocando Hendrix, em um bar no centro de Nashville. Ele apareceu lá e perguntou se eu não queria tocar com ele. Mas eu tive de concorrer com outros 50 guitarristas convidados, que fizeram testes com Zappa. Mas no fim o emprego foi meu, para acompanhar Zappa em sua turnê mundial.
Folha - Você pratica exercícios ou toca todos os dias para se manter em forma?
Belew - Não, eu não toco todos os dias. Só o faço quando sinto uma grande vontade de me exprimir. Mas quando toco guitarra não procuro apenas me exercitar, mas compor e ter sentimentos.
Folha - Quais instrumentos você toca?
Belew - Além da bateria e da guitarra eu toco cello, piano, instrumentos de sopro, como a flauta, e qualquer coisa que me caia nas mãos, desde que eu possa estudá-los. Mas nunca tive aulas com alguém. Sou um autodidata, aprendi tudo sozinho, lendo e ouvindo discos.
Folha - Você foi um dos primeiros a usar sintetizadores de guitarra. Qual é o futuro desse instrumento?
Belew - O futuro vai depender dos instrumentistas. Stevie Ray Vaughan tocava tradicionalmente. Allan Holdsworth só toca com sintetizadores Sinthaxe. Eu gosto dos dois estilos. Mas meu ideal é fazer com que a guitarra soe como animais, elefantes, ursos e gaivotas, com os "bottlenecks". Fiz muito isso no King Crimson, usando sintetizadores. Faço com eles o que quero: construo orquestras, violinos, baterias, tudo na guitarra.
Folha - Quais técnicas você usa? "Hammer-ons" (palhetadas fortes), "double picking" (as duas mãos no braço)?
Belew - Tudo, porque todas essas técnicas soam bem para mim. Desde que usadas na hora certa. Mas tudo tem que conseguir que a guitarra se pareça com outro instrumento. Para isso, eu uso as Fenders Stratocasters. São novas, com sintetizadores embutidos. Com elas posso fazer "feedbacks" como o Jimi Hendrix, mas com tecnologia moderna.
Folha - Você se considera um Hendrix pós-moderno?
Belew - Com certeza. O futuro da guitarra é o "feedback".
Folha - Como você se sentiu tocando com David Bowie?
Belew - Foi maravilhoso, porque pude sentir velhos sucessos, como "Space Oddity" e "Heroes", e interpretar ao meu modo coisas que músicos como Stevie Ray Vaughan fizeram, como em "Let's Dance".

Guitarrista retomou estilo de Hendrix

Adrian Belew ganhou o estrelato com Frank Zappa, ao participar das gravações de "Sheik Yerbouti", em 1978. Acompanhou Laurie Anderson em turnês mundiais e gravou com ela "Home of the Brave". Também tocou com com os Talking Heads. Mas ficou famoso, aliando a guitarra e a voz, nos três discos da última fase do King Crimson, "Beat", "Discipline" e "Three of a Perfect Pair". Seu último disco solo é "Young Lions".

BLACK FLAG, O Ídolo Punk Henry Rollins Chega Ao Auge Com Novo LP

O cantor norte-americano Henry Rollins, durante uma apresentação de sua Rollins Band
ANDRÉ BARCINSKI

Henry Rollins é um ídolo punk. De 81 a 85, foi o vocalista do Black Flag, banda hardcore de Los Angeles. Junto com o Minor Threat, de Washington D.C., e o Dead Kennedys, de San Francisco, a banda formou a linha de frente do punk norte-americano nos anos 80.
O Black Flag fazia uma música agressiva, mas bem-humorada. Suas letras criticavam o "american way of life" e o crescente "yuppismo" norte-americano. Em 86, a banda acabou. Rollins não parou. Formou sua própria banda, lançou cinco discos e continuou uma bem-sucedida carreira de escritor, iniciada em 84.
Hoje, Rollins vive seu auge. Seu mais recente LP, "The End of Silence" (da BMG-Ariola, sem previsão de lançamento no Brasil), recebeu elogios entusiasmados. Convidado a abrir o festival de rock Lollapalooza no ano passado, roubou a festa de bandas famosas, como Jane's Addiction e Living Colour. Da Califórnia, onde excursionava, Henry Rollins falou à Folha.
***
Folha - Segundo alguns jornalistas americanos, sua banda faz o show "mais impressionante da temporada". Você concorda?
Henry Rollins - Sei que nosso show é pesado e forte. A banda é muito unida, nos conhecemos bem. Pense o seguinte: se você for ver um show nosso abrindo para bandas tipo Faith No More ou Soundgarden, é da gente que você vai lembrar.
Folha - Você não gosta dessas bandas?
Rollins - Nem ouço.
Folha - Por causa do som lento e pesado que o Black Flag fazia, muitos o consideram a principal influência do chamado "som de Seattle", que revelou Mudhoney e Nirvana...
Rollins - Excursionamos muito por Seattle e sei que muitos desses caras nos viram. É possível que os tenhamos influenciado.
FolhaDá para notar uma grande mistura de estilos no LP. Tem blues, funk, hardcore e até trechos meio jazzísticos...
Rollins - Ouvimos de tudo, de jazz a reggae. É muito mais desafiador para nós fazer um disco assim, arriscando, do que optar pelo banal, como faz a maioria.
Folha - Tem uma história engraçada, sobre como você entrou no Black Flag...
Rollins - É, foi engraçado. Eles estavam tocando em Washington D.C., onde nasci. Eu era um grande fã da banda. O show estava tão bom que subi no palco, agarrei o microfone e cantei "Clocked In", minha música predileta. Na época, quem cantava era o Bez. Dois dias depois, não sei como, os caras me ligaram, dizendo que o Bez queria tocar guitarra, e me convidaram para cantar na banda. Me mudei imediatamente para Los Angeles.

Desespero é uma constante em "The End of Silence"

"The End of Silence" foi definido por um jornalista norte-americano como "o disco que Frank Zappa faria se tocasse hardcore". Não estava errado. Rollins mistura hardcore de primeira com pitadas de blues e funk. Faz deste disco um álbum matador.
A banda é de primeira: Andrew Weiss no baixo (que mata a pau, apesar de aparecer na MTV, no clip de "Low Self Opinion", tocando um instrumento sem as duas cordas de baixo), Chris Haskett na guitarra e Sim Cain na bateria. Rollins montou um um esquadrão classe A, considerado um dos mais afiados da atualidade.
O álbum só peca por ser longo demais (74 minutos divididos em dez faixas). As melhores músicas são, obviamente, as rápidas e pesadas, aquelas em que o Black Flag está mais presente, como "Tearing". Mesmo nas mais compridas ("Blues Jam", com mais de dez minutos), a força da banda é inabalável.
As letras seguem a mesma linha dos livros de Rollins: problemas cotidianos, amores frustrados, violência do dia-a-dia (o maior amigo de Rollins, Joe Cole, foi assassinado por um bandido, quando os dois voltavam juntos para casa).
O desespero que tomou conta de Rollins com a morte do amigo parece presente em cada faixa de "End of Silence". É obra de um revoltado, de um inconformado. Rollins vem ganhando fãs. As pessoas acreditam nele. Com razão. FOLHA DE S. PAULO (28/9/1992)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

NIRVANA, Som de Seattle Desembarca No Brasil

Com três anos de atraso, catálogo da gravadora independente Sub Pop começa a ser lançado no Brasil

Kurt Cobain, líder do Nirvana, banda que está lançando no Brasil o LP "Nevermind"
ANDRÉ BARCINSKI

Seattle (capital do Estado de Washington, EUA) finalmente invadiu o Brasil. Com três anos de atraso, começa a ser lançado aqui o melhor do rock americano nos últimos tempos: o catálogo da gravadora independente Sub Pop.
A BMG está lançando "Nevermind", segundo LP do Nirvana, enquanto a loja Studio Tan promete ainda para este mês os lançamentos de "8-Way Santa", do TAD, e "Every Good Boy Deserves Fudge", do Mudhoney.
A Sub Pop foi fundada em 1986 por Bruce Pavitt e Jonathan Ponemann. Pavitt tinha um programa na rádio universitária. Impressionado com a quantidade de fitas que recebia, montou uma gravadora para as novidades.
Deu certo: a Sub Pop lançou bandas como Green River (que viria a se tornar o Mudhoney), Soundgarden, TAD e Nirvana, entre outras. O sucesso da Sub Pop tornou famoso o chamado "som de Seattle": bandas de garagem, influências claras de Black Sabbath e MC5. Nenhuma preocupação com o visual, apenas o desejo de fazer um som adolescente e divertido.

LP eleva Nirvana à categoria de superbanda

O Nirvana não é mais da Sub Pop. Desde o sucesso de "Bleach" (89), seu LP de estreia, a banda trocou a Sub Pop pela poderosa Geffen. Em setembro, lançaram "Nevermind". Ninguém poderia prever o que aconteceu: em outubro, o disco vendia 35 mil cópias por dia. Hoje, já chegou a 1,2 milhão.
O Nirvana foi subitamente elevado à categoria de superbanda. Crítica e público americano estão babando até agora. O sucesso é mais do que merecido: "Nevermind" é o melhor disco do ano.
O que mais impressiona no LP é sua capacidade de agradar a todos os públicos, sem apelar para fórmulas fáceis. "Nevermind" tem a dose certa de peso para encher de alegria fãs do Metallica, tem pitadas de hard rock que caem como uma luva no gosto de fãs do Guns N' Roses, e tem baladas que podem entrar na programação de qualquer rádio.
O single, "Smells Like Teen Spirit", está nas dez mais da parada dance americana, sem ter nenhum elemento que o caracterize como música de de pista. É sim uma das mais bem-feitas colagens pop em muitos anos, uma canção que mistura agressividade, refrão fácil e que pega no ouvido à primeira audição.
Ao tentar definir o som da banda, o baixista Chris Novoselic afirmou: "imagine o Bay City Rollers sendo molestado pelo Black Flag e pelo Black Sabbath. Somos nós". Acertou na mosca: o Nirvana é juvenil como o Bay City Rollers, agressivo como o hardcore do Black Flag, e tem em suas músicas passagens lentas e pesadíssimas, característica principal do bom e velho Sabbath.

JANE'S ADDICTION, O Herege Grupo Chega Ao Brasil Com Seu Disco Transgressor

O grupo norte-americano Jane's Addiction (da esquerda para a direita, Dave Navarro, Eric. A, Perry Farrell e Stephen Perkins), que tem seu terceiro disco lançado no Brasil
SÉRGIO SÁ LEITÃO

Há um LP diferente circulando nas lojas brasileiras. O terceiro de um grupo igualmente diferente. Sua capa mostra um altar católico profanado por signos de magia negra. A contracapa flagra uma estante de "remédios" populares mexicanos. O som que emana do vinil é um remédio contra o tédio do pop contemporâneo. O grupo que o assina é formado por hereges que profanam todas as convenções - das musicais às sociais.
O LP em questão chama-se "Ritual de lo Habitual". Foi lançado em agosto de 1990 nos Estados Unidos. Chegou a romper a barreira dos 20 primeiros na parada da "Billboard". Seu autor é o grupo norte-americano Jane's Addiction, criado em 1986 em Los Angeles e liderado pelo cantor Perry Farrell. Os coadjuvantes são o guitarrista Dave Navarro (ex-Disaster), o baterista Stephen Perkins (idem) e o baixista Eric A.
"Ritual de lo Habitual" soa de fato como um ritual, um ritual pop de transgressão. Mas não tem nada de habitual. Em seu segundo LP, o irregular "Nothing's Shocking", o grupo abriu o massacre sonoro afirmando: "Aqui vamos nós/ Casa/ Casa" ("Up the Beach"). Agora diz que está indo... mas diz em seguida "a nenhum lugar" ("Stop!"). É uma mudança significativa, que se apresenta acompanhada de evoluções em som e conceito.
As letras do LP foram escritas e declamadas por um homem singular. Ao admitir que rouba desde os cinco anos, na dançante "Been Caught Steeling", Perry Farrell não está brincando ou fazendo o gênero "Corações Loucos". Ele realmente roubou para sobreviver. Mais: foi garoto de programa, gigolô, traficante e usuário de drogas pesadas. Agora parou. "Um amigo me disse que drogas pesadas são um clichê de rock'n'roll", explicou.
As músicas do LP foram escritas e tocadas por outro homem singular. Dave Navarro escutou Led Zeppelin demais na adolescência, mas não parou nas lições de Jimmy Page. Da escola tradicional foi expulso por tráfico de drogas. Fundou então o grupo de speed-metal Disaster, que nunca passou do estado indicado por seu nome. Mas o desastre se tornou bonança. Ele é o responsável pelo som de complexa classificação do Jane's Addiction.
Há várias pistas no ar, mas ninguém decifrou o enigma do novo Oráculo. Vamos às pistas. Primeira: os ídolos musicais de Farrell são Cramps, Nick Cave, Sonic Youth e Stooges. Segunda: no texto que confere consistência ao encarte do LP, Farrell afirma seu desejo de ter nascido negro (número um) e mulher (número dois). Terceira: Farrell alterna visuais andróginos com roupas sadô-masô e hippismo explícito. Mas não é "poseur".
As pistas continuam. Quarta: as revistas incluem o grupo no rol das bandas adornadas com o rótulo "heavy metal", mas "Been Caught Steeling" explodiu na parada de "dance music" da "Billboard". Quinta: a "Rolling Stone" define seu som com onze palavras ("glam rock, maravilhosa fusão de funk, metal, punk e belos acústicos"), enquanto "Melody Maker" e "New Musical Express" precisam de 17 e 21 palavras, respectivamente.

LIVING COLOUR, Grupo Retoma O Rock Para Os Negros

Corey Glover, Vernon Reid, Will Calhon e Muzz Skillings, do grupo Living Colour
JEAN-YVES DE NEUFVILLE

Não foi fácil, mas o Living Colour chegou lá. Com o LP "Time's Up", o grupo negro nova-iorquino liderado pelo guitarrista e compositor Vernon Reid, 32, retoma o poder sobre o rock, até então uma exclusividade de artistas brancos.
Esse "golpe" não é uma ficção. É um objetivo planejado há dez anos por Reid, fundador em 1985 da associação ativista Black Rock Coalition (BRC ou Coalizão do Rock Negro), que hoje organiza shows, gravações e manifestações para 30 grupos e 175 artistas, todos negros. Um dos artigos do BRC diz: "O rock'n'roll é uma música negra e nós somos seus herdeiros. Decretamos o direito à liberdade de criar e o livre acesso às rádios, ao público e ao mercado mundial."
Um dos motivos desse manifesto é a resistência da indústria fonográfica norte-americana a acreditar, até 1987, que um grupo negro de hard rock poderia dar certo. Resultado: "Vivid", LP de estreia do Living Colour, vendeu mais de dois milhões de cópias no mundo. Em 1988, o grupo foi contemplado com um Grammy de revelação rock do ano, outro pela faixa "Cult", eleita melhor performance de hard rock do ano, e saiu do MTV Awards carregado de estatuetas.
O Living Colour ganhou aliados poderosos nessa luta. Não bastasse a força dada pelos Rolling Stones - Jagger produziu duas músicas de "Vivid" e o Living Colour abriu shows para da turnê "Steel Wheels", ano passado -, Little Richard em pessoa manifestou seu apoio. O pai do "black rock" e autoproclamado "arquiteto do rock'n'roll" mandou o recado: "Vocês rapazes estão fazendo a coisa certa".
Reid, o baixista Muzz Shillings, 26, o baterista Will Calhoun, 26, e o cantor Corey Glover, 25, gravaram o disco certo. Em "Time's Up", o grupo evita repetir o esquema "funk metaleiro" do LP "Vivid", que poderia reduzir a banda a um clichê. Combina a vitalidade de um rock pesadíssimo e direto, que iguala e até supera a violência do Led Zeppelin, ao patrimônio musical negro - os vocais soul de Glover devem muito a Otis Redding e Vernon Reid não existiria sem Jimi Hendrix. As músicas passeiam por vários estilos, que vão do funk ao rap, passando pelo free jazz (influências de Ornette Coleman aparecem ao longo do disco). Não há repetições nem tédio.
Living Colour também prova que o rock pesado não é sinônimo de letras estúpidas. Podem falar de conscientização, chamar à luta o indivíduo para resolver os dilemas pessoais e sociais, mas por um ângulo universal.
O disco já é um clássico. Os pontos altos são os rocks urbanos, "New Jack Theme" (que traz um samba alucinado) e "Information Overload", com elementos de free jazz. "Elvis Is Dead" é uma sátira bem-humorada à deificação fanática do "king", com direito a um solo de Maceo Parker, o saxofonista de James Brown.
Em "Under Cover of Darkness", Glover e a "rapper" Queen Latifah advertem sobre os perigos da permissividade sexual na era da Aids. O orgulho e a revolta racial aparecem em "Solace of You", inspirada do folclore zulu sul-africano - e aí o som é similar ao de "Graceland" de Paul Simon.

Grupo vence segmentação do mercado

O "black rock" do Living Colour se insere na tradição do "crossover", que alterou de forma significativa a história da música pop. A palavra, que significa literalmente "cruzar para o outro lado", se aplica a todo artista que consegue atingir um público maior que o esperado ao mesclar diferentes estilos em sua música, quebrando qualquer vinculação de um gênero com determinada raça ou etnia.
Os principais artistas pop que entram nessa categoria são Elvis Presley (um branco com a voz de negro), Michael Jackson (negro que procura "esbranquiçar" seu estilo), Prince, o "rapper" recém-consagrado M.C. Hammer e o Simply Red (um branco inglês cantando soul negro).
Nos anos 50, para recuperar o sucesso do rock'n'roll negro, as gravadoras lançaram inúmeros cantores brancos intérpretes de clássicos. Essa tradição torna suspeita a resistência imposta, por motivos raciais e/ou de mercado pela indústria fonográfica ao Living Colour, pelo menos até 87. FOLHA DE S.PAULO (5/11/1990)