A REVISTA GUITAR PLAYER NORTE-AMERICANA FOI FUNDADA DURANTE O VERÃO DE 1967 QUANDO JIMI HENDRIX PÔS FOGO NA SUA STRATOCASTER EM MONTEREY E DETONOU UMA REVOLUÇÃO NA GUITARRA ELÉTRICA. EM TRÊS DÉCADAS, DESDE AS CHAMAS SAGRADAS DE JIMI, MILHARES DE ÁLBUNS DE GUITARRAS FORAM LANÇADOS E, EMBORA MUITOS APENAS OSCILARAM POR UM MOMENTO NO OUVIDO DO PÚBLICO, OUTROS MARCARAM REGISTROS PERMANENTES NA CABEÇA DOS GUITARRISTAS.
SEIS EDITORES DA GP NORTE-AMERICANA - JOHNSTON, GORE, OBRECHT, ROTONDI, THOMPSON E ELLIS - VASCULHARAM AS SUAS MEMÓRIAS, COLEÇÕES DE DISCOS, NÚMEROS ATRASADOS E LIVROS DE REFERÊNCIAS PARA DESCOBRIR OS MELHORES DISCOS DE GUITARRA DOS ÚLTIMOS 30 ANOS. A PARTIR DAÍ, HOUVE UM GRANDE ESFORÇO PARA ESCOLHER O SINGLE MAIS IMPORTANTE E INFLUENTE PARA CADA ANO. "MISSÃO IMPOSSÍVEL", VOCÊ DIRIA? ANDY ELLIS CHEGOU A ARGUMENTAR CONTRA O CONCEITO JORNALÍSTICO DE COLOCAR UM SINGLE DE UM DISCO SOBRE OUTRO. NO ENTANTO, OS DEMAIS MEMBROS DA "COMISSÃO JULGADORA" DECIDIRAM INSISTIR NO CARA-OU-COROA INTELECTUAL E PROVÁVEL DILÚVIO DE CARTAS DO TIPO "COMO VOCÊS PUDERAM DEIXAR DE FORA...?", NA ESPERANÇA QUE AS ESCOLHAS POSSAM INSPIRAR OS GUITARRISTAS A BUSCAREM A MÚSICA ESSENCIAL. A SURPRESA, AO FINAL, FOI QUE A LISTA DOS ESCOLHIDOS COMBINA COM A ÊNFASE EDITORIAL DA GUITAR PLAYER NO QUE DIZ RESPEITO AO ECLETISMO. DOS RENEGADOS DAS CORDAS DE NYLON AOS FUSIONISTAS E PUNKS PRIMAIS, AS ESCOLHAS TOP E VICE-CAMPEÃS CONFRONTAM AS POSSIBILIDADES DO INSTRUMENTO COM UMA INDIVIDUALIDADE SEM COMPROMISSO.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

ALLMAN BROTHERS, Um Conjunto Sob O Signo da Morte

Greg Allman acha que será o próximo
CARLOS A. GOUVEIA

Vinte e nove de outubro de 1971. Duane Allman corria em alta velocidade em sua motocicleta por uma estrada da Califórnia. Um caminhão, em sentido contrário, derrapou na pista. Ia chocar-se de lado com a moto do guitarrista-líder dos Allman Brothers. Ele, num rápido desvio, tombou e foi arrastado por mais de 50 metros.
Antes de chegar ao hospital, Duane morreu.
Um ano e duas semanas mais tarde, pela mesma estrada, Berry Oakley, contrabaixista dos Allman Brothers morreu quando um ônibus colidia com sua moto, a poucos metros do local onde Duane havia sofrido o acidente. As duas tragédias ocorreram às 4 horas da tarde.
Em 23 de março de 1969, após terminar a gravação de "Hey Jude" acompanhando Wilson Pickett, Duane telefonou a seu irmão Gregg, convidando-o a reformular o "Allman Joys", conjunto feito anteriormente com Gregg, que foi desfeito por falta de interesse de ambos. Duane estava entusiasmado com a gravação de Pickett e, como amante da música negra tendo inclusive sido repreendido várias vezes por sua mãe, por se misturar com pretos, queria formar uma banda de "rhythm'n'blues".
O grupo tocava "R e B" e músicas do Yardbirds, pelo qual Duane sentia profunda admiração, principalmente devido aos acordes tirados pelo guitarrista Jeff Beck. Uma noite, quando tocavam em um clube de St. Louis, o pessoal do Nitty Gritty Dirt Band e seu empresário Bill McKuen assistiram o concerto do Allman e ficaram fascinados pelo som, na época considerado diferente.
Imediatamente foram convidados por McKuen a gravar um álbum para a gravadora Liberty, que levou o título de "The Allman Brothers Band", e foi lançado em 1970. O sucesso foi razoável, mas não o esperado pelo grupo, que pretendia alcançar um status maior.
Após o lançamento do primeiro álbum, Duane foi convidado a tocar ao lado de Eric Clapton em uma Jam-Session no Fillmore West.
Meses mais tarde, a gravadora lançou o segundo disco do grupo - "Idlewild South" - que ganhou mais atenção e maior índice de vendas, pois, afinal de contas, Duane Allman havia se apresentado ao lado de Eric Clapton, considerado até hoje "gênio da guitarra". Seu trabalho com Clapton valeu-lhe muitos elogios por parte da imprensa mundial. O disco "Layla", gravado em parceria com Eric, alcançou os primeiros lugares das paradas de sucessos de todo o mundo e ganhou um lugar honorário no "Derek and the Dominos", conjunto de Clapton.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

PIL, Joãozinho Doce

John Lydon, ex-Joãozinho Podre, cabeça da banda PIL - que estreia no Palácio das Convenções do Anhembi dia 17 de agosto - está mais manso. De malas prontas para viajar ao Brasil, Lydon revela - docemente - um de seus sonhos: conhecer Serra Pelada

PAULA DIP
de Londres

Se você gostou do filme Sid and Nancy e está pensando que já sabe tudo sobre os Sex Pistols, Sid Vicious e o movimento punk, está muito enganado. Johnny Rotten, ex-vocalista dos Sex Pistols e o melhor amigo de Sid até ele embarcar naquela viagem suicida, detesta o filme de Alex Cox. Mas Rotten já se acostumou às lendas que se contam sobre ele, os Sex Pistols e, atualmente, o PIL. PIL é a sigla de Public Image Limited, um pós-punk britânico que reuniu os estilhaços remanescentes dos Sex Pistols quando o grupo implodiu algum tempo antes da morte de Nancy Spungen, esfaqueada, e Sid Vicious numa overdose de heroína.
Ao contrário do que se imagina, Johnny Lydon, ou Rotten, como prefere ser chamado, não concorda com a imagem podre que se convencionou atribuir à geração punk. É um homem sério, podre (Rotten) só no nome e sempre atento ao que a imprensa publica a seu respeito: "Tenho uma coleção de todos os artigos que falam de mim, 90% são mentiras". Não revelou, no entanto, se tem  uma página do Caderno 2 com uma entrevista feita por Pepe Escobar. Conhecer Johnny Rotten é conhecer uma das raízes do movimento punk na Grã-Bretanha. Ele é de origem irlandesa - algo assim como ser nordestino no Brasil - e nasceu em Hackney, uma região do norte de Londres conhecida pela pobreza, a violência e a contestação. Tem 32 anos ("Queria viver para sempre e nunca ficar velho, como Dorian Gray"), parece mais jovem, com sua cara de moleque safado, sorridente, brincalhão, com o cabelo espetado em tufos cor de laranja e os deliberadamente tortos e amarelados. "Nasci feio", ironiza, "só podia ser punk".
Para quem ainda acha que Johnny Rotten é sinônimo de loucura e ciolência, meu encontro com ele no Numis Studio, em West Kensigton, onde o PIL dava os últimos retoques no LP Happy (que será lançado no Brasil pela RCA, em setembro), reserva uma surpresa: o ex-líder dos Sex Pistols é um homem inteligente, articulado, casado, sem filhos ("O mundo já tem gente demais. Se eu quiser um filho, adoto"), fiel e detesta violência.
Caderno 2 - Como aconteceu o encontro entre você e Riuychi Sakamoto?
Rotten - Ele sempre curtiu os Sex Pistols e queria me conhecer. Quando fiquei sabendo disso, achei ótimo e convidei-o para participar de uma faixa do LP Album. Ele é fantástico. Faz um tipo de música que chamo de classic-pop. No Japão, ele é Deus.
C2 - Aqui na Inglaterra você também é considerado algo assim como a família real...
R - Eeeeeuuuuu??? Longe disso. Se há uma coisa que abomino, são as instituições. Sou um rebelde por natureza.
C2 - Sei que você pinta e só mostra as telas para sua mulher, Nora, e depois fotografa as telas e as destrói...
R - Não acredito em galerias de arte: é uma coisa muito exclusiva. Arte deveria ser para todos e não para uns poucos milionários eleitos.
C2 - Certa vez você disse que não é um músico, e sim um organizador de barulho...
R - É assim que eu vejo a música.
C2 - E as letras de suas músicas, sempre ácidas e violentas, como nascem?
R - Elas são um reflexo da minha própria vida. Nada é abstrato ou ficcional. Não acredito em música com fins políticos ou religiosos.
C2 - Você é socialista?
R - Definitivamente. Voto para o Partido Socialista aqui na Inglaterra.
C2 - E o movimento punk, como vai?
R - O movimento punk tinha sentido há dez anos. Agora mudou, progrediu. Quando vejo nas ruas jovens vestidos como nós vestíamos há dez anos, acho um tédio. Eles adotaram o uniforme e não a atitude, que era de contestação. Tratar o movimento punk como uma moda e acreditar que é apenas uma manifestação gratuita de violência é uma atitude burra. O punk é um ataque visceral à sociedade e sempre será. Até que as coisas fiquem melhores.
C2 - Mas por que a imagem punk sempre aparece associada às drogas, à violência, se você sempre se declarou contra ambas?
R - As pessoas não são perfeitas. Sempre serei contra drogas e contra a violência, mas quando o punk estourou éramos jovens, ingênuos, nossa imagem foi vendida de uma forma sensacionalista. Além do mais, alguns de nós eram mais fracos que os outros. E isso foi muito triste.

ESTILO, Novas Gerações "Thrash" Ressuscitam O Espírito Rebelde do Heavy Metal

O "thrash metal" Anthrax, que gravou um hip hop
ANDRÉ FORASTIERI

O monstro não morre jamais. Enterrado vivo pela crítica há anos, o heavy metal continua sendo o pária supremo da música pop. Atormentando os espíritos sensíveis, preocupando os pais e excitando adolescentes de todas as latitudes, o heavy provou em 1988 que continua sendo o estilo mais popular de rock'n'roll, e confirmou seu toque de midas: nada vendeu mais que a arrogância decibélica em sua glamurosa e maquiada versão anos 90.
O "novo" heavy metal, que dominou as listas dos mais vendidos esse ano, deu os primeiros sinais de vida no ano passado, com o estouro do LP "Slippery When Wet", do Bon Jovi. Fazendo o estilo cowboy solitário, o loirinho Jon Bon Jovi bateu fundo nas glândulas das menininhas norte-americanas, que compraram o disco, o vídeo, foram aos shows, colocaram posters do metálico "playmate" nos seus quartos e tornaram o Bon Jovi a banda mais vendida de 1987 nos EUA, com seis milhões de cópias vendidas - um milhão a mais do que "The Joshua Tree", do U2. O novo LP do grupo, "New Jersey", promete repetir a façanha: a melosa "I'll Be There For You" já está escalando os primeiros postos das paradas de "singles".
Daí em frente a metalização imperou. Acuado pelos comandos moralistas da América de Reagan, devidamente escandalizados com tanto sexo, drogas e demônios, os heavy renovaram a invasão. Em junho, cinco dos seis primeiros lugares da "Billboard" americana tinham sido tomadas pelas hordas metaleiras: o ressuscitado Whitesnake de David Coverdale, Bon Jovi, os platinados Poison (com "Open Up And Say Ahhh..."), Motley Crue (com o chauvinista "Girls Girls Girls") e o "pai de todos", a "tia velha" Ozzy Osbourne (com "Tribute", homenagem póstuma ao "guitar hero" Randy Rhoads). A nova encarnação do heavy metal continuou marchando, para o negro desespero dos defensores do pop "de qualidade", que mal sabiam que o pior estava por vir.
 O pior era o novíssimo heavy metal, que só agora abandonou as garagens suburbanas das megalópoles acima do equador. Mais rápidos, mais distorcidos, mais agressivos e principalmente mais jovens, os novos grupos retomam tradições dos grandes patriarcas heavy dos anos 70 - Led Zeppelin, Black Sabbath, Motorhead - e detonam algo que, em sua melhor forma, só pode ser descrito como o elo perdido entre Jimi Hendrix e os Sex Pistols.
O Motley Crue, representante do "glamour" heavy
Mas as subdivisões de estilo já aparecem nesse recém-nascido bebê metálico. Basicamente, são duas: a "retrô" e a radical. A primeira é o domínio dos clones, onde reina absoluto o Guns N' Roses. O som é Zeppelin e Aerosmith (vide "Sweet Child O'Mine"). As principais inovações do grupo são nos domínios da imagem. Primeiro, a base real de sua imagem "maldita": eles são ex-viciados e ex-traficantes de heroína, como o próprio guitarrista Slash confirmou em entrevistas. Segundo, eles não seguem à risca o padrão visual do heavy dos últimos anos, algo como um cruzamento de Mad Max com ursinhos de pelúcia. O Guns tem cara, jeitão e guarda-roupas de macho. Tiveram um padrinho adequado também: o ícone máximo do vigilantismo ianque, Clint Eastwood, que usou canções do grupo na mais recente aventura da série Dirty Harry, "The Dead Pool".
Outro replicante (não tão bem cotado) é o Kingdom Come, que o guitarrista Jimmy Page, fundador do Led Zeppelin, chama de "Kingdom Clone", tamanha a chupação de todos os tiques do Led Zep. A moral do grupo despencou mesmo foi na excursão "Monsters of Rock", quando o Kingdom Come se apresentou ao lado de grupos como o Dokken e o Van Halen - e não segurou a peteca.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

HELLOWEEN, Uma Carreira Cheia de Altos & Baixos

FERNANDO SOUZA FILHO

Poucas bandas subiram ao topo e caíram no fundo do poço com tanta rapidez como o Helloween. A carreira do grupo sempre foi marcada por altos, baixos, temporadas de hibernação, reviravoltas e mudanças de nome.
A banda iniciou sua carreira ainda na década de 70, mais precisamente em 1978, quando Kai Hansen e Peter Sielck montaram um grupo chamado Gentry, ao lado de alguns músicos convidados. Cansada de músicos convidados, dois anos depois a dupla resolveu admitir no time dois integrantes definitivos na cozinha: o baixista Markus Grobkopf e o batera Ingo Schwichtenberg. Como estava de cara nova, a banda adotou também um novo nome, Second Hell.
Só que o grupo não estava satisfeito com este novo nome e, em 82, rebatiza a banda como Iron Fist. Nessa época, Kai Hansen estava de olho no guitarrista de uma desconhecida banda alemã chamada Powerfool. Era Michael Weikath, que não demorou muito e já estava na banda de hansen, que adotara finalmente seu nome definitivo, Helloween.
Após dois anos de muitos ensaios e pequenos shows, o grupo é finalmente convidado para participar, com duas músicas, de uma coletânea intitulada Death Metal que, apesar do nome, não tinha muito a ver com esse estilo. As faixas escolhidas foram Metal Invaders (que depois se tornaria um dos primeiros hits da banda) e Oernst of Life. Essa segunda música era, na verdade, composição da antiga banda de Weikath, Powerfool, e foi recentemente relançada num CD duplo intitulado 12 Years in Noise, da primeira gravadora do grupo, a Noise Records.
No primeiro mini-LP, lançado em 85, que levava apenas o nome da banda, o vocal foi feito pelo guitarrista Kai Hansen. A dose se repetiu no primeiro álbum, Walls of Jericho. Só que o baixinho Hansen não estava aguentando o tranco e o conjunto chamou Mike Kiske. Foi a decisão perfeita, pois a voz maravilhosa e o carisma de Kiske levaram o Helloween ao topo.
Com essa formação, saíram as obras-primas máximas do Helloween: as duas partes de Keeper of the Seven Keys. Só que, com a chegada dos anos 90, as coisas começaram a desandar e um golpe duplo abalou sensivelmente a carreira do Helloween. Primeiro, o guitarrista/vocalista/mentor do grupo, Kai Hansen, alega cansaço das turnês e deixa a banda, indo montar um projeto batizado de Gamma Ray. Depois, Mike Kiske se envolve em uma religião obscura, fica meio fanático e se desentende com o resto da banda.
Como se isso não bastasse, o batera Ingo Schwichtenberg começa a apresentar sinais de piora de sua esquizofrenia hereditária. Em um show no Japão, antes da primeira música se iniciar, o baterista se joga ao chão em posição fetal e chora compulsivamente. Durante as tours, tinha grandes crises de depressão, entrecortadas por momentos de euforia histérica. O quadro era agravado pelo vício de Ingo em cocaína. O pior acabou acontecendo: Ingo se matou.
Diante desse quadro, era óbvio que o grupo acabaria lançando uns discos no glorioso estilo "meia-boca". As gravadoras não entenderam e começou uma guerra de bastidores: a Noise não os pagou direito (segundo entrevista do próprio Mike Weikath para a BRIGADE, em abril de 96), a EMI os mandou embora e, mesmo hoje em dia, há problemas com seu selo atual, Castle.
Por incrível que pareça, o Helloween superou tudo isso. Para o vocal, veio o ótimo Andi Deris, que fazia uma linha mais Whitesnake em sua antiga banda, o Pink Cream 69. Para a bateria, eles chamaram Uli Kusch, do Gamma Ray, a nova banda de Kai Hansen.
Com Deris, Kusch, Weikath, Grobkopf e com o guitarrista Roland Grapow, o Helloween comemora 1996 como tendo sido um de seus melhores anos. A banda lançou um álbum de sucesso (The Time of the Oath), um belo duplo ao vivo (High Live) e, de quebra, se apresentou pela primeira vez no Brasil.
Para 97, a banda deve lançar mais um álbum de estúdio. O vocalista Andi Deris, por sua vez, solta um trabalho paralelo na linha de sua antiga banda, Pink Cream 69. E a saga da abóbora germânica, por enquanto, não tem data para terminar. ROCK BRIGADE (01/1997)

PHILIPS MONSTERS OF ROCK, Monstros Decifram Enigmas do Heavy Metal

Esfinge de 10 metros de altura vai se revelar amanhã no Monsters os Rock, no Pacaembu

Iron Maiden: banda foi escolhida para fechar a noite do festival
JOTABÊ MEDEIROS

A última grande surpresa do Philips Monsters of Rock, uma esfinge egípcia de 10 metros de altura instalada atrás do palco, vai se revelar somente amanhã para os cerca de 45 mil fãs de ocultismo, satanismo, escracho, rap, rock, heavy metal e hardcore que vão invadir o Pacaembu, em São Paulo, a partir das 10 horas, quando os portões serão abertos.
Os temas egípcios estarão espalhados pelo palco, que terá também pirâmides e templos como coadjuvantes das nove atrações da tarde e da noite: Iron Maiden, Motörhead, King Diamond, Mercyful Fate, Raimundos, Biohazard, Helloween, Heroes del Silencio e Skid Row. Dessas bandas, o Iron Maiden é o único que poderá dar bis.
Criado há três anos como uma ramificação do Monsters inglês, que existe desde o início da década de 80 e também é apresentado anualmente na cidade de Donington, o Monsters of Rock já fez 75 mil headbangers baterem suas cabeças no Brasil. Como já ocorreu no ano passado, o elenco do festival brasileiro segue daqui para Buenos Aires e a edição argentina do Monsters será no dia 31, reunindo ainda algumas bandas locais.
"Nós fazemos o festival em acordo com o festival argentino, pois senão seria inviável trazer essas bandas todas só para um show no Brasil", diz José Muniz Neto, diretor da Mercury Concerts, que realiza o festival juntamente com a Water Brothers. O festival é orçado, segundo Muniz, em US$ 1,5 milhão e começa a ser organizado assim que termina uma das edições, em outubro e novembro.
Há três anos, nem os próprios organizadores esperavam que a galera heavy fosse tão fiel e perseverante no Brasil. No primeiro festival, capitaneado pela banda Kiss, 35 mil pessoas foram ao Pacaembu. No ano passado, sob o signo de Ozzy Osbourne, 45 mil viram os shows do festival. "Existe até a perspectiva de levar do Pacaembu para o Morumbi, porque temos problemas inclusive com a tabela do campeonato de futebol", diz Muniz Neto.
Motörhead: a maior influência do que hoje é chamado thrash metal
Segundo o empresário - que tem no currículo festivais presumivelmente mais tranquilos, como o Ruffles Reggae Festival - o Monsters of Rock é um dos eventos mais calmos de sua agenda. "Embora haja esse mito de que metaleiro gosta de briga, nunca tivemos nenhum problema grave", afirma Muniz. Um dos motivos é que o festival terá uma duração total de 13 horas, o que faz com que fãs prefiram ficar mais atentos aos seus ídolos do que desperdiçar energia à toa.
A organização do evento informou que colocará 150 vendedores de sanduíche, pipoca, doce, salgadinhos, sorvete, refrigerantes e cerveja sem álcool. Haverá cinco postos médicos, duas ambulâncias e 70 banheiros distribuídos pelo gramado. Não será permitida a entrada no estádio de latas, garrafas, objetos cortantes, máquinas fotográficas, câmeras de vídeo e gravadores.
O palco terá 46,8 metros de largura, 18,2 metros de altura e 25 metros de profundidade e ficará localizado - como de hábito - na frente do tobogã. Haverá ainda dois telões nas laterais do palco.

RAMONES, Pais do Punk Recebem Homenagem À Altura

Quase duas dezenas de bandas norte-americanas, incluindo as garotas do hoje famoso L7, regravaram canções do quarteto nova-iorquino para o álbum duplo Gabba Gabba Hey

Ramones durante show em São Paulo: ícones do punk desde os anos 70 ainda em plena atividade
MARCEL PLASSE

Não há como fazer feio com o repertório dos Ramones. Mas o tributo Gabba Gabba Hey é melhor que a encomenda. Ramones influenciaram milhares de punks pelo mundo com beach music acelerada de três acordes. E punks obscuros é o que se ouve no álbum-tributo. A exceção é L7, que relê Suzy Is a Headbanger. As quatro gritonas arrebentam na melhor faixa do disco fazendo uma auto-referência. Suzy não apenas é uma headbanger como toca no L7 - Suzy Sparks, a loira.
Gabba Gabba Hey foi gravado há dois anos. Nem L7 significava muito nessa época. Chemical People, outra das menos obscuras bandas da coletânea, vem da gravadora Cruz, um cultuado e falido selinho underground. Já lançou álbum, em que demonstra maior afinidade com Hüsker Dü do que Ramones, mas só ganhou notoriedade por sua participação na trilha do pornô New Wave Hookers 2, dos Dark Bros. Toca I Want You Around.
Punks famosos, os californianos Bad Religion, da faixa We're a Happy Family, são donos do selo Epitaph, que lançou o primeiro disco da L7. D.I. é outro grupo da cena original hardcore, com meia dúzia de discos gravados. O vocalista dos Buglamps, que canta a melódica Sha-la-la, também já urrou muito hardcore, Keith Morris foi o gritão original do Black Flag e formou o Circle Jerks, grupo hardcore da pesada da Califórnia, no início dos 80. Flower Leperds é a nova banda de Tony Montana, ex-Adolescents, que agora ataca na linha do punk de garage dos 60. O ex-guitarrista dos Adolescents (e do D.I.), Rickk Agnew, por sua vez, também dá o ar da graça com sua nova banda, The Agnews.
White Flag é o que o nome indica, um grupo punk que ouviu muito Black Flag. Foi o pessoal dessa banda que mostrou a fita com Mutantes para L7 e Nirvana, antes deles virem ao Brasil. Gravaram Babysitter. Rigor Mortis, que toca Psychotherapy, tem Mike Scaccia, do Ministry, nas guitarras. Motorcycle Boy, que ataca Loudmouth, é veterano em tributos - participou do Heaven and Hell, tributo ao Velvet Underground. Seu novo álbum, Popsicle, foi produzido por Sylvain Sylvain, ex-New York Dolls.
Mojo Nixon é uma figuraça carimbada. Um marginal que já gravou um disco inteirinho de canções natalinas e participou na trilha de alguns filmes independentes, como Viajantes Sem Rumo (Made in U.S.A.), disponível em vídeo no Brasil - a trilha foi organizada pelo Sonic Youth. Faz de Rockaway Beach uma demência.
O resto são grupos menores - a maioria do catálogo da gravadora Triple X. The Tommyknockers chega a ter um clone de Joey nos vocais. Groovie Ghoulies tirou seu nome de uma banda de desenho animado - a série passou por aqui como Os Monstrinhos Camaradas. Apropriadamente, gravaram Pet Sematary. São 22 bandas. Muitos apenas copiam o original, conservando a inflexão de Joey e o timbre de Johnny. Mas há revisões ousadas. A melhor é a do Pigmy Love Circus, podrera de Los Angeles, que transformou Beat on the Brat em grunge, com vocal roucão à Lemmy. A música ficou tão boa que acabou entrando no disco Drink Free Forever da banda. Outra ousadia foi praticada por Metal Mike, ex-guitarrista dos Angry Someones, também da Califórnia, na revisão com baixo e voz à frente de I Remember You.
Gabba Gabba Hey é um discaço. CADERNO 2 (9/3/1993)

SEPULTURA, Banda Ganha O Mundo No Meio do Deserto

Acompanhe uma visita do 'Estado' à base do grupo, que se apresenta no Olympia nos dias 6 e 7

Sepultura: durante as gravações de Roots
JOTABÊ MEDEIROS
Enviado especial

PHOENIX - O taxista afegão Shah se perde no emaranhado de ruas indistintas ao norte de Phoenix, até encontrar acidentalmente o endereço procurado: 14.220, 37 Street. É uma casa americana comum, sem muros, e não despertaria atenção não fosse pela placa na entrada da grande garagem. "Estacionamento só para brasileiros."
É a residência de Paulo Jr., baixista da banda Sepultura, grupo que o jornal The Arizona Republic chama de "local heroes". Na verdade, eles são de Belo Horizonte, Brasil. Paulo, o vocalista Max Cavalera e o guitarrista Andreas Kisser vivem na cidade há quatro anos. O baterista, Igor Cavalera, surfista diletante recém-casado, também morava em Phoenix, mas agora vive em San Diego, Califórnia, lugar mais adequado para pegar umas ondas.
A  casa do Paulo é uma espécie de base da banda. Um ônibus gigantesco estaciona atrás do táxi. É um dos três que transportarão o staff do grupo até o local onde tocarão dentro do OzzyFest, uma reunião de bandas de rock pesado no Blockbuster Arena, em Phoenix (leia crítica abaixo). Entre as atrações, Danzig, Fear Factory, Biohazard, Slayer e a atração maior, Ozzy Osbourne.
"Sobe logo, a gente tem de estar lá às duas horas", diz Paulo, carregando uma caixa de cervejas Lite Premium. Dentro do ônibus, além do baixista estão três roadies, o guitarrista Andreas Kisser (o "Alemão"), sua mulher e sua filha. Um ambiente, por assim dizer, familiar. No outro ônibus vão Max Cavalera, a mulher americana, Gloria, e os filhos Zyon e Igor, mais algumas crianças agregadas. "É uma verdadeira creche isso aqui", diz Max.
O Sepultura é hoje a banda de rock brasileira de maior destaque no Exterior. Seu disco mais recente, Roots, já vendeu cerca de 2 milhões de cópias. O Sepultura cresceu tanto que teve de se adaptar à nova realidade de banda mainstream do heavy metal - a mudança para Phoenix foi a primeira providência.
"Não vamos morar aqui a vida toda", diz Paulo Jr., envergando orgulhoso a camiseta da academia de jiu-jitsu de Rickson Gracie, em Los Angeles, para onde vai toda semana praticar. "Estamos aqui porque não dá para voltar atrás, mas queremos primeiro nos estabelecer melhor para um dia voltar ao Brasil", confidencia.
O grupo mantém um nacionalismo quase metódico na sua pequena "embaixada" brasileira de Phoenix. Falam português quase todo o tempo e ensinam gírias para os roadies americanos. E não perdem a oportunidade para uma "pelada" com outras bandas em campos improvisados de suas turnês - aliás, os grupos de hardcore e metal americanos são grandes fãs do Sepultura, com quem trocam informações musicais e fazem jam sessions de percussão.
Max, com a mulher Glória e o filho Zyon: casa em Phoenix é a base dos integrantes do grupo e reúne filhos e agregados
Quem manda no esquema todo é Gloria, a mulher de Max. Ela distribui funções entre a equipe técnica, checa detalhes de credenciamento e divulgação, vistoria contratos. É o anteparo da relação do Sepultura com a gravadora Roadrunner, e também uma espécie de mediadora. No show de Phoenix, Max foi obrigado a assinar um documento se comprometendo a não incitar o público contra a segurança.
"Foi por causa de um lance na Espanha, onde eu quebrei a guitarra na cabeça de um segurança que tava dando porrada nos fãs", explica o vocalista. Para ele, isso não tem lógica: o fã pagou para ver o show, não para levar pancada. "Se a gente perder essa relação com nosso público, perde também o respeito", considera.
Max Cavalera é o líder ideológico do fenômeno Sepultura. Ele só parece fora de controle no palco. Fora dele, bebe Diet Pepsi, não fuma, caminha devagar e é um sujeito extremamente amável e de uma lógica simples, mas determinada.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

APOCALYPTICA, Um Heavy Metal Erudito Às Avessas

Líder do quarteto Apocalyptica, da Finlândia, conta como o violoncelo pode ser heavy

O quarteto, formado por garotos que ainda não chegaram aos 20 anos: formação clássica para versões do Sepultura e Faith No More
ALEXANDRE MATIAS
Especial para o Estado

A cena pop finlandesa sempre foi das mais esquisitas. Entre punks guturais, o melhor skacore do planeta, bandas de industrial cavernosas e doom metal, o país escandinavo parece ser o lugar menos provável para o nascimento de uma banda que casa heavy metal e música erudita às avessas.
Talvez por isso mesmo seja o único pedaço do planeta que comporte uma banda como Apocalyptica - um quarteto de estudantes de música clássica da conceituada Academia Sibelius, em Helsinque. Quatro moleques no começo dos 20 anos que, como qualquer um nessa idade, compensam o trabalho com um hobby. E se o trabalho é tocar violoncelo e o hobby são bandas de heavy metal... Bem, você pegou o espírito.
Senão, deixe o líder do tal conjunto, Eicca Toppinem, que falou ao Estado, explicar: "Éramos fãs de heavy metal, ou melhor, somos fãs de heavy metal e tocávamos cello em um instituto de música clássica. A ideia foi mais natural possível." O resultado é o Apocalyptica, um quarteto de cellos formado para tocar exclusivamente heavy metal.
O metal sempre teve um elo forte com a música clássica - mais no quesito grandiosidade do que na criatividade. Virtuose, por exemplo, é um termo querido nos dois meios. E como esquecer Jimmy Page tocando guitarra com um arco em Rock é Rock Mesmo?
O Apocalyptica só apressa o casamento das duas tendências. E depois de um disco inteiro homenageando seus maiores ídolos - o Metallica -, o grupo chega ao segundo CD mostrando que pode ser muito mais que um simples modismo de verão (leia crítica abaixo).
"Começamos de brincadeira", conta Eicca. "Mas depois de fazer uns arranjos sérios, vimos que poderíamos fazer daquilo um meio de vida." A primeira apresentação aconteceu em 1993, num concerto erudito. "Era pra ser uma piada, como um número de humor, mas o show foi horrível. Íamos desistir disso. Felizmente um executivo de uma gravadora viu e gostou", afirma aliviado.
"O nome da banda lembra Metallica, que é a nossa favorita", afirma Eicca Toppinen
Apesar dos cellos e das pose de erudito, o quarteto se vê como uma banda pop. "Mas odiamos isso", enfatiza Toppinen. "Viajar é muito ruim e cansativo, como aquela bagunça nos bastidores. Vale pelas apresentações, a reação do público sempre compensa. Mas o resto é vil."
O grupo tirou seu nome da própria concepção do som. "Somos uma espécie de um monte de clichês de heavy metal levados a sério. Daí Apocalyptica - lembra estes clichês e o Metallica, que é nossa banda favorita."
Além do Metallica, em seu segundo disco o grupo toca versões do Sepultura e Faith No More. "A versão do Sepultura é parte do repertório antigo da banda, queríamos buscar um lado mais primitivo, tribal, como a própria banda faz. O Faith No More foi um desafio. E a continuidade de nosso trabalho tende a ser assim - encaramos o Apocalyptica como um convite à evolução do cello como instrumento, independentemente de que ambiente ele atue. Não sei o que virá a seguir, mas tentaremos sempre coisas novas."

BLUR, Grupo Dá Sua Escapada Para O Topo das Paradas

Os quatro integrantes da banda fazem turnê pelos EUA para lançar 'The Great Escape'

O quarteto: críticas contra David Bowie, bandas alternativas e a Oasis
SONIA NOLASCO

NOVA YORK - São também quatro inglesezinhos irreverentes de origem proletária e estão na linha de frente da nova invasão britânica, mas nem sequer tentam o som inocente que os Beatles lançaram há 30 anos. Deles, têm a mesma percepção irônica do mundo. Os quatro rapazes são de Colchester, sua banda funk chama-se Blur e o CD (o quarto) The Great Escape (Virgin), que estão lançando nos EUA e ocupa o topo dos charts na Inglaterra, é uma espécie de catálogo da guitarra pop inglesa dos últimos 30 anos.
O grupo captou o melhor do pop inglês tradicional e seu CD tem uma faixa para cada gosto, desde os melódicos Beatles e referências aos Kinks ao vocalismo punk de Johnny Rotten nos Sex Pistols. Mas não lembram a novata Elastica. Menos ainda, eles dizem, a Oasis, outra banda inglesa de sucesso no momento, mas de garotos de origem operária do Norte do país, que tocam alto porque nada têm a dizer.
Excursões - Os componentes da Blur - Damon Albarn (de 26 anos, líder e vocalista), Graham Coxon (guitarra, banjo e woodwinds, um instrumento de sopro de madeira), Alex James (baixo) e Dave Rountree (percussão) - apresentam canções pop de letras inteligentes e elaboradas, para ouvir e pensar. Em excursão pelos EUA, seus concertos atraem jovens universitários.
No ano passado, o CD Parklife (Virgin) foi o primeiro lugar nos charts ingleses e originou um grande sucesso imediato no top 10 alternativo (disco), Girls and Boys, que a garotada nos concertos adora. Outros favoritos nos EUA são também as faixas do CD Modern Life is Rubbish (1993). Mas é certo que grande parte do impacto das canções se deve à presença carismática de Damon Albarn, centro visual dos concertos, que nasceu para ser ídolo de rock: é magríssimo, um feixe de energia e não apenas canta, mas participa da canção, como se fosse uma peça de teatro (bate o microfone na cabeça, joga cerveja e água na plateia, etc).
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Caderno 2 - Como tem sido sua experiência de virar ídolo pop inglês?
Damon Albarn - Na Inglaterra, é divertido. Um divertimento rotineiro. Todo garoto que faz música cresce sonhando em formar a maior banda da Inglaterra, ser os novos Beatles, os novos Rolling Stones, o novo The Who, por aí. Quando chega perto disso, como dizem que está a Blur, descobrimos que é rotina. Chegamos a Boston para começar a tour americana e ninguém nos conhece. Entretanto, é nossa quinta apresentação nos Estados Unidos. Fiquei deprimido. Mas anotamos a lição: importante é tocar bem, ir para a frente. Fama é coisa secundária. Ídolo pop é um anacronismo. Beatlemania teve seu momento. Agora, há lugar para bandas de todo tipo.
Caderno 2 - É verdade que vocês não toleram bandas alternativas? Por quê?
Damon - Inexplicável. Uma noite dessas vimos a Nine Inch Nails abrir para David Bowie e achamos muito devagar. A banda é supostamente alternativa, mas não parecia. Seguia o som industrial de Bowie. As alternativas devem ser fiéis a um som autêntico, mas não conseguem.
PARA LÍDER DAMON ALBARN, FAMA É SECUNDÁRIA, IMPORTANTE É APENAS TOCAR BEM
Caderno 2 - O que você achou de Bowie, ídolo inglês há mais de duas décadas?
Damon - Arrogante. Bowie toca sem melodia, desafinado. E nem ao menos é experimental. É música industrial para estádios. Uma decepção.

MISFITS, Entrevista

"Glenn [Danzig] deveria agradecer por utilizar o Misfits como uma escada para chegar onde está"
DANIEL OLIVEIRA

Você já ouviu o Metallica tocando Last Caress/Green Hell ou o Guns N' Roses tocando Attitude? Estas músicas foram compostas pelo Misfits, uma das bandas mais influentes do punk/hardcore americano. Após anos no silêncio - devido a problemas com seu ex-vocalista Glenn Danzig (hoje no Danzig) -, o Misfits retorna com Michale Graves (vocal), Jerry (baixo), Doyle (guitarra) e Dr. Chudd (bateria), satisfazendo seus fãs com uma turnê de reunião e um box set de músicas compiladas. Agora que o quarteto prepara um álbum novo, acompanhe esta entrevista que fizemos com Jerry, quando a banda passou em Los Angeles durante sua tão esperada turnê. 
ROCK BRIGADE - Por que o Misfits saiu em turnê sem um álbum novo para promover?
JERRY - Temos um catálogo de 50 músicas, que dura umas duas horas. Quando Michale e Chudd entraram na banda, a melhor maneira de nos apresentarmos seria viajar para a Europa, pois não aparecíamos muito por lá. Como tocamos apenas na Inglaterra em 78, com o The Damned, esta foi a primeira vez que realmente excursionamos pela Europa. Fomos pra lá no final de março [96], tendo uma ótima recepção durante três semanas. Não nos preocupamos em lançar músicas novas porque já tínhamos muitas antigas que gostamos de tocar. Porém, não reunimos a banda só pra tocar músicas antigas. Queremos prosseguir e compor coisas novas. As músicas antigas são a roda que nos move. Temos muitos fãs que nunca nos viram ao vivo, assim, esta foi a única oportunidade para ouvirem as músicas antigas. Teremos 45 minutos de músicas novas quando lançarmos o próximo álbum, assim, retiraremos 45 minutos das antigas do show. Como lançamos um box set, foi importante não confrontar material novo com sete anos de trabalho. Poderíamos ter ficado no estúdio durante o verão, mas preferimos excursionar e nos preocupar com músicas novas depois.
RB - Tendo uma formação nova, como o Misfits manterá seu velho espírito musical no próximo álbum?
JERRY - Para ser honesto, com esta formação, o  espírito do Misfits nunca esteve tão forte. Em 77, quando começamos, eu tinha 17 anos e Glenn tinha 20. Michale tem 21 anos, sendo o vocalista mais jovem do Misfits. Ele trouxe uma nova energia à banda. Há uma ideia completamente diferente porque ele viveu sua adolescência no começo dos anos 90 e eu vivi a minha em 77, quando iniciei a banda. Muitas pessoas querem me entrevistar agora porque eu sou membro original. Sou dedicado à minha música, família e fãs porque esta é minha vida. Sendo assim, eu poderia te falar o que aconteceu há 15 anos, mas, honestamente, quem se importa? O presente é o que importa. Com esta nova energia, somos uma banda muito melhor. O problema é que as pessoas têm uma ilusão do velho Misfits. Como ouvem histórias do passado, temos que satisfazer suas imaginações. Isto não é fácil, porque nos veem de maneiras diferentes, sem conhecer a banda verdadeira. Nós lhe mostramos o que somos, mas não éramos tão bons 15 anos atrás. Costumávamos tocar 15 ou 18 músicas ao vivo. Agora, tocamos 40 músicas e o show é três vezes maior.
RB - A formação está realmente estabilizada?
JERRY - Apenas as mesmas coisas de sempre podem destrui-la: dinheiro e fama. Se os novos membros se influenciarem por estas coisas, então teremos problemas. Eu sou um cara bastante simples - sou pai, tenho dois filhos e ajudo as pessoas o máximo possível. Não me considero melhor que qualquer pessoa que vai aos nossos shows. Fama e dinheiro arruinaram a banda no passado. Quando não havia fama e dinheiro, não havia problemas [risos].
RB - Glenn Danzig se recusa a falar do Misfits em suas entrevistas. O que você acha de um músico que esconde seu próprio passado?
JERRY - Nos esforçamos e levamos a banda muito a sério. Quando acabamos com ela, Glenn ficou decepcionado por não arrumar outra banda com o mesmo calibre. Isto sempre lhe perturbou porque qualquer músico procura a melhor banda. Quando você compete no basquete ou futebol, quanto melhor forem os caras em seu time, melhor será seu potencial. Se você ler entrevistas antigas, Glenn nunca elogia os membros de sua banda. Ele diz o quão merda nós somos. Mas, se somos tão merdas assim, porque as pessoas ainda gritam pra ouvir nossas músicas? [risos]. Não me considero melhor que nenhum de seus músicos, mas Glenn deveria agradecer por utilizar o Misfits como uma escada para chegar onde está. Se você alcança o topo e taca fogo embaixo da escada, não demorará muito pra você cair. É o que lhe está acontecendo agora. Ele está caindo porque não aprendeu com suas experiências. Ele nunca entendeu que um músico precisa de uma banda para adicinar seu talento musical. Você não pode tocar música em "mono". Quando você atinge o "stereo", o "mono" não é mais aceito.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

RAIMUNDOS, Grupo Vai Tocar Hits Para Animar Público

Grupo é representante brasileiro no festival Monsters of Rock e aposta em músicas consagradas

Raimundos: mistura bem-feita de rock e música nordestina
TOM CARDOSO
Especial para o Estadão

Os Raimundos são, definitivamente, a banda do momento. Conquistaram o público brasileiro com os discos Raimundos e Lavô Tá Novo e provaram, nos últimos festivais, que são tão bons ao vivo como em estúdio. Não pararam por aí. Apresentaram-se, em março, no Esparrago Rock Festival de Granada, um dos mais importantes festivais de  rock alternativo da Espanha, para 16 mil pessoas.
Fizeram tanto sucesso que foram convidados a voltar - o grupo brasiliense foi atração, ao lado de Ratos de Porão e Exploited, da primeira edição do Félix Rock, realizada no começo do mês em Mouga, um vilarejo no litoral norte do país. É com esse prestígio que Rodolfo (vocal), Digão (guitarra), Canisso (baixo) e Fred (bateria) se apresentam, pela segunda vez, no Monsters of Rock, dia 24, no Estádio do Pacaembu. "Estamos musicalmente mais experientes, vamos arrebentar", promete Rodolfo, que concedeu entrevista com Canisso ao Estado.
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Estado - No último Hollywood Rock vocês fizeram uma apresentação mais "light", deixando de fora músicas mais pesadas como MMs e Marujo. Mesmo assim o show foi um sucesso. Para o Monsters of Rock, o repertório será mudado?
Canisso - Por ser um festival é claro que o show vai ser bem diferente daquele que a gente vem fazendo nas capitais. E o Monsters tem uma tradição de sempre trazer bandas bem pesadas, por isso o público pode esperar um show mais pauleira do que o do Hollywood Rock.
Rodolfo - A banda também está mais entrosada. Eu lembro que no primeiro Monsters a gente estava nervoso e inseguro. Agora estamos mais experientes. Vai ser um grande show, vamos arrebentar.
Estado - Vocês vão tocar músicas inéditas?
Canisso - A gente não é de ficar levando muito a sério o repertório, depende muito do andamento do show e da plateia. O show é curto, não sabemos se vamos mostrar alguma coisa nova.
Estado - O que vocês acham das bandas que vão tocar este ano no Monsters?
Canisso - Eu gosto bastante do Motorhead. O Iron Maiden já gostei mais. O novo vocalista (Blaze Bayley), que substituiu o Bruce Dickinson, não é tão bom. Eu preferia o André Matos, do Angra, no lugar dele. O Helloween e o Skid Row eu não gosto.
Rodolfo - O Motorhead é demais, só porrada. Já o Skid Row, é importante a presença deles no festival, porque enche de mulher na plateia.
Estado - O fato de vocês serem a única banda brasileira no festival aumenta a responsabilidade?
Rodolfo - Estamos preocupados em apenas divertir o público, essa é a nossa missão. Os Raimundos não é o tipo de banda que fica angustiada antes dos shows. Entramos no palco para detonar e sabemos que o público brasileiro gosta disso.
Canisso - O único problema é que o grupo está previsto para entrar ainda de dia, às 17 horas. Quem acompanha nossos shows sabe que a gente gosta de fazer uma brincadeira com as luzes no começo do espetáculo.
Estado - Vocês estão conquistando o público espanhol. O álbum Lavô Tá Novo vendeu mais de 1 mil cópias em menos de 15 dias. Uma rádio alternativa chegou a tocar 12 vezes por dia a canção O Pão da Minha Prima. Agora, vocês tocaram na primeira edição do Felix Rock e fecharam a principal noite do festival. Vocês esperavam esse sucesso todo?
Canisso - Não. A gente não sabia como o público espanhol reagiria. Em Granada, arriscamos um show em "portunhol", mas vimos que era melhor cantar em português mesmo. Eles adoraram o som, mesmo sem entender muito bem as letras.
Rodolfo - Foi demais ver o público cantando "Yo quiero ver o oco" (Eu Quero Ver o Oco, principal sucesso da banda).
Digão - Tocar na Espanha é muito louco, mas nada se compara ao público brasileiro. Os shows no Brasil são pura adrenalina, o pessoal é doido mesmo. Não é à toa que as bandas estrangeiras adoram tocar aqui.
Estado - O que vocês acham de estarem sendo chamados de inventores de um novo estilo no rock nacional?
Canisso - Quem entende de música sabe muito bem que Raul Seixas e Secos e Molhados já faziam essa mistura de rock com música nordestina nos anos 70. Na verdade, a gente trabalha muito pouco musicalmente com forró nos nossos discos. Gostamos é da temática da música nordestina, do humor nas letras, da coisa do duplo sentido, isso que é legal. CADERNO 2 (15/8/1996)

HELLOWEEN, Banda Volta Aos Velhos Tempos

Helloween recupera o speed metal e clássico para show em São Paulo, no Pacaembu

Helloween: o grupo havia enveredado numa direção pop, mas os fãs não gostaram da mudança
BEATRIZ VELLOSO

A banda alemã Helloween chega ao Brasil para se apresentar no 3º Philips Monsters of Rock, dia 24 no Estádio do Pacaembu, tendo achado seu "novo-velho jeito de tocar", de acordo com o vocalista Andi Deris. O Helloween vai ter uma hora de show para mostrar as músicas de seu álbum mais recente, The Time of the Oath (Castle Records), que está sendo considerado um dos melhores da carreira dessa banda que surgiu em 1985.
Deris é o primeiro a admitir que o Helloween andou fazendo besteiras nos últimos tempos. Ele acredita que nos discos Pink Bubbles Go Ape (1990) e Chameleon (1993), o grupo perdeu o rumo e enveredou numa direção pop - os fãs acusaram a mudança e os discos tiveram pouca vendagem. Para o vocalista, só com Master of the Rings, do ano passado, o Helloween conseguiu reencontrar a sonoridade que ganhou uma legião considerável de fãs fiéis, principalmente no Japão. "Em Master of the Rings foi como se a gente tivesse  começado de novo", disse Deris, em entrevista por telefone de Karlsruhe, cidade onde nasceu (a banda é baseada em Hamburgo).
De fato, o Helloween retomou um trabalho que diferenciou o grupo na década de 80, quando eles lançaram o primeiro disco, Walls of Jericho. Um speed metal melódico e clássico - com influências declaradas de Bach, Mozart e Schubert, por exemplo. Mas, de 1985 para cá, a formação da banda já mudou bastante. O próprio Andi Deris saiu do Pink Cream 69 para se juntar ao Helloween em 1994, substituindo os vocalistas Kai Hansen e Mike Kiske. Mais conturbada foi a morte do baterista Ingo Schwichtenberg, que se suicidou no ano passado após sucessivas crises de esquizofrenia e overdoses.
O novo baterista, Uli Kusch, se adaptou bem à banda - são dele as músicas A Million to One e Wake Up the Mountain, do novo disco. Mas quase todas as músicas deste CD são obra de Andi Deris e do guitarrista Michael Weikath. O Helloween fica completo com o também guitarrista Roland Grapow e o baixista Markus Grosskopf.
O espírito do disco The Time of the Oath está bem sintetizado numa frase do profeta Nostradamus que vem no encarte: "Chuva, sangue, leite, fome, espada, peste. Nos céus será vista uma fogueira em movimento com longas faíscas. A morte vem da neve, mais branca que o branco." Andi Deris diz não ser muito influenciado por esse tipo de profecia, mas acredita que a Terra está passando por um momento de muitos medos. "Segundo Nostradamus, o período entre 1995 e o ano de 2000 é o tempo do juramento (the time of the oath), e ele viu para esses anos algumas catástrofes", alerta Deris.
Superstições e crenças à parte, o Helloween está interessado mesmo em aproveitar o bom momento  para conquistar mais fãs também no Brasil. "Acho que essa apresentação no Monsters vai ser uma boa entrada para que a gente possa voltar depois e fazer shows nossos", diz o vocalista. E a banda quer aproveitar ainda para conhecer um pouco mais do hardcore brasileiro com os Raimundos, de quem nunca tinham ouvido falar. Como qualquer bom estrangeiro, ele se diz familiarizado somente com o Sepultura: "A melodia deles é um pouco distante para nós, mas a energia da banda é pura", diz Deris com diplomacia. CADERNO 2 (15/8/1996)