A REVISTA GUITAR PLAYER NORTE-AMERICANA FOI FUNDADA DURANTE O VERÃO DE 1967 QUANDO JIMI HENDRIX PÔS FOGO NA SUA STRATOCASTER EM MONTEREY E DETONOU UMA REVOLUÇÃO NA GUITARRA ELÉTRICA. EM TRÊS DÉCADAS, DESDE AS CHAMAS SAGRADAS DE JIMI, MILHARES DE ÁLBUNS DE GUITARRAS FORAM LANÇADOS E, EMBORA MUITOS APENAS OSCILARAM POR UM MOMENTO NO OUVIDO DO PÚBLICO, OUTROS MARCARAM REGISTROS PERMANENTES NA CABEÇA DOS GUITARRISTAS.
SEIS EDITORES DA GP NORTE-AMERICANA - JOHNSTON, GORE, OBRECHT, ROTONDI, THOMPSON E ELLIS - VASCULHARAM AS SUAS MEMÓRIAS, COLEÇÕES DE DISCOS, NÚMEROS ATRASADOS E LIVROS DE REFERÊNCIAS PARA DESCOBRIR OS MELHORES DISCOS DE GUITARRA DOS ÚLTIMOS 30 ANOS. A PARTIR DAÍ, HOUVE UM GRANDE ESFORÇO PARA ESCOLHER O SINGLE MAIS IMPORTANTE E INFLUENTE PARA CADA ANO. "MISSÃO IMPOSSÍVEL", VOCÊ DIRIA? ANDY ELLIS CHEGOU A ARGUMENTAR CONTRA O CONCEITO JORNALÍSTICO DE COLOCAR UM SINGLE DE UM DISCO SOBRE OUTRO. NO ENTANTO, OS DEMAIS MEMBROS DA "COMISSÃO JULGADORA" DECIDIRAM INSISTIR NO CARA-OU-COROA INTELECTUAL E PROVÁVEL DILÚVIO DE CARTAS DO TIPO "COMO VOCÊS PUDERAM DEIXAR DE FORA...?", NA ESPERANÇA QUE AS ESCOLHAS POSSAM INSPIRAR OS GUITARRISTAS A BUSCAREM A MÚSICA ESSENCIAL. A SURPRESA, AO FINAL, FOI QUE A LISTA DOS ESCOLHIDOS COMBINA COM A ÊNFASE EDITORIAL DA GUITAR PLAYER NO QUE DIZ RESPEITO AO ECLETISMO. DOS RENEGADOS DAS CORDAS DE NYLON AOS FUSIONISTAS E PUNKS PRIMAIS, AS ESCOLHAS TOP E VICE-CAMPEÃS CONFRONTAM AS POSSIBILIDADES DO INSTRUMENTO COM UMA INDIVIDUALIDADE SEM COMPROMISSO.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

PETER GABRIEL, Cantor Revê Paixões Em 'Us'

Famoso por seu trabalho em prol dos direitos humanos, o compositor rompe um jejum fonográfico de oito anos e analisa o esfacelamento de suas relações amorosas no novo disco

Gabriel: Sinéad O'Connor e Brian Eno são convidados especiais em um disco que mescla rock e world music
GARY HILL
Reuter

NOVA YORK - Roqueiro e ativista em favor dos direitos humanos, Peter Gabriel é um perfeito gentleman. Mas está cansado dessa imagem, como explicou em entrevista concedida à imprensa para divulgar seu novo álbum Us, sua gravação mais pessoal, e de maior conteúdo emotivo. "Eu gostaria que meu novo álbum modificasse essa imagem. Meu trabalho envolveu coisas boas e ruins, mas as boas têm merecido muita mais atenção."
Us, seu primeiro álbum gravado desde o grande sucesso de So, lançado em 1986, chega após dois rompimentos dolorosos para o roqueiro: a separação de sua mulher Jill Moore, com quem esteve casado quase 20 anos, e o fim do namoro com a atriz Rosanna Arquette. Mas seu comportamento em relação a ambas é cavalheiresco. "Eu falaria sobre a minha parte pessoal (nos dois rompimentos)", disse o roqueiro inglês, de 42 anos. "Mas o assunto também diz respeito a Jill e Rosana. E cabe a elas decidir se querem vê-lo discutido publicamente".
Segundo explicou, Gabriel normalmente diria que os detalhes concretos que faltam no seu álbum Us são o fator responsável pelo sucesso de uma canção, mas, neste caso, os detalhes físicos foram substituídos pelo aspecto emocional. "Meu íntimo está muito bem retratado no álbum", enfatizou. Esse retrato interior é traçado em tons variados, com instrumentos de diversas partes do mundo - gaitas de fole, flauta mexicana, tambores da África Ocidental e coral russo. O uso desses instrumentos é resultado da experiência de Gabriel com a gravação de Passion em 1989, para a trilha sonora do filme A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese.
O emprego de instrumentos pertencentes a várias culturas, diz Gabriel, representa um marco importante no seu crescimento musical. Entretanto, admite que Us (gravado com Daniel Lanois, co-produtor de So) é sobretudo um álbum de rock orientado para a canção.
Sua nova técnica de composição de canções utiliza um groove gravado, como sucedeu com a canção Come Talk to Me, baseado em uma faixa de gravação de 10 segundos, com tambores senegaleses, feita há 11 anos. Ele canta e toca teclados acompanhando o groove. Os demais músicos entram na parte final. Músicos da Armênia, Turquia, Quênia, Senegal, Rússia e Egito gravaram o álbum Us, juntamente com alguns dos instrumentistas regulares do conjunto de Gabriel, e os astros convidados: Sinead O'Connor e Brian Eno.
Gabriel, que faz carreira solo há 15 anos, desde que se desligou do grupo Genesis, trabalha há muito tempo pela música de caráter mundial. Ele é co-fundador da organização britânica Womad (World of Music, Arts and Dance), criada em 1980. Seu mais recente projeto na área de defesa dos direitos humanos é o programa Testemunha, baseado na proposta de fornecimento de câmaras de vídeo portáteis, máquinas de fax e outros instrumentos aos ativistas pelos direitos humanos em todo o mundo, para que possam documentar e denunciar os abusos.
Para reforçar seus argumentos, Gabriel lembra que a gravação em vídeo do espancamento do motorista negro Rodney King por policiais em uma rua de Los Angeles, em 1991, ajudou a convencer os americanos do valor de sua proposta. Sua ideia conta com o apoio de algumas indústrias de filmes para câmeras, enquanto outras hesitam por receio de ofender alguns governos. CADERNO 2 (26/9/1992)

ROBERT PLANT, Sai Álbum da Voz Eterna do Led Zeppelin

O trabalho de Robert Plant tem somente canções inéditas e a parceria de Jimmy Page

LAÍS PIMENTEL

LONDRES - Viver dos louros, aceitando aqui e ali os tributos e as homenagens ao legado musical e de comportamento deixado pelo grupo do qual era vocalista, o Led Zeppelin nunca foi uma opção de Robert Plant. Ele preferiu o risco de se expor mais uma vez na mídia, numa época em que nomes como o dele e de sua banda são considerados tão sagrados que fazer algo novo implica provar ser suficientemente bom para sobreviver aos modismos da cruel mutabilidade do mundo pop.
Robert Plant, com 50 anos incompletos, a eterna voz do Led Zeppelin, volta à arena, com um novo álbum, Walking Into Clarksdale, que chegou ontem às lojas, no mundo todo. Neste trabalho, o primeiro desde 1979 composto somente por músicas inéditas, a parceria com outro zeppeliano, Jimmy Page retoma algumas características da música feita por esta dupla, uma das mais respeitadas pelas gerações atuais do rock and pop. E os brasileiros vão ter a chance de reencontrar os dois em fevereiro, quando a dupla se apresenta no Brasil.
Em entrevista exclusiva para o Estado, Robert Plant, ainda exibindo suas longas melenas louras, mostrou que a língua continua afiada, ao falar do movimento atual do pop britânico, o britpop. "O britpop praticamente já passou e, tirando o Verve e o Oasis, não acredito que exista outro grupo que tenha cativado a imaginação das pessoas", diz. "O Kula Shaker é outro nome importante, mas não o considero britpop; o Radiohead tem estilo e uma longa carreira pela frente." E vai mais longe. "Acontece que a maioria das bandas do chamado britpop é fabricada: cada publicação especializada de hoje é centrada numa faixa do pop e eles tendem a criar mitos."
Numa pesquisa recente feita na Grã-Bretanha, com 36 mil pessoas, em que elas tinham de escolher as Músicas do Milênio, o Led Zeppelin teve três álbuns incluídos. Assim como Elvis Presley (influência de Plant), o Led Zeppelin ganhou mais força postumamente do que durante a sua existência real. O grupo, que terminou oficialmente em 1980, com a morte do baterista John Bonham, é uma das mais populares bandas de rock do planeta.
Pastiche - Apesar de tudo isso, Plant tem uma opinião bastante crítica sobre si mesmo, na época em que personifica o lado mais selvagem do LZ. "Acho que eu estava tão perto de ser um pastiche de um roqueiro, apesar de dizerem que eu criei a imagem do líder de uma banda de rock", afirma. "Mas era tão simples ser como eu era, um pouco Elvis, um pouco hippie, paz e amor que, se era bonitinho hoje, fico constrangido e, quando olho para as minhas fotos daquela época, penso comigo mesmo se eu era realmente assim."
Em 1995, o Led Zeppelin entrou para o Rock-n'-Roll Hall of Fame e os três sobreviventes do LZ, Plant, Page e John Paul Jones, fizeram sua primeira aparição juntos desde o fim do grupo. Robert Plant e Jimmy Page começaram a apresentar-se juntos há cerca de quatro anos em concertos sempre disputadíssimos nos Estados Unidos, Europa, Japão e Austrália.
À medida que as turnês progrediam, mais músicas do Led Zeppelin eram incluídas no cardápio dos shows. Whole Lotta Love, Black Dog, entre tantos outros clássicos, são ressuscitadas nos concertos de hoje. Mas, Stairway to Heaven, a música mais famosa do grupo, que lidera praticamente todas as listas dos maiores sucessos de todos os tempos, corre o risco de não entrar nos atuais shows da dupla Page e Plant.
Segundo a lenda, Robert Plant criou a letra logo de primeira, quando ouviu a melodia. Pelo menos metade da improvisação inicial se manteve na gravação final. "Eu nem ouço minhas músicas, mas, quando escuto, percebo que elas funcionam como pequenas máquinas de felicidade que, quando acionadas, dão aquela sensação de prazer", diz. "Mas já não canto Stairway to Heaven há anos: essa música não combina mais comigo."
Quando a MTV decidiu juntar Page e Plant num show acústico, em 1994, a resposta à iniciativa assombrou os mais fanáticos pelo Led Zeppelin. Chamado ironicamente de Unledded, Page e Plant não só sentiram que não tinham perdido o lugar entre os maiores monstros do rock como também decidiram que era tempo de voltar a criar. Um material inédito, nascido dos encontros marcados a partir do No Quarter/Unledded, deu origem ao álbum Walking Into Clarksdale.
Turnê mundial - Responsável pela forma atual dos concertos de rock, o Led Zeppelin está de volta aos palcos com uma turnê mundial. Definindo-se como um velho performático, Plant acha que seus shows nunca renderam tanto: "Outro dia eu falei para o Page: nós nunca fizemos um show tão bonito, nem mesmo em 1968. Acho que o alívio de sermos quatro e não mais 25, como no passado, faz muita diferença." E adianta: "Agora, podemos experimentar, errar, sair voando como um carro de corrida: é claro que, às vezes, isso pode ser um pouco perigoso." Fala isso fazendo referência ao grave acidente que sofreu na Grécia, em 1975, que o deixou temporariamente numa cadeira de rodas.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

JEFF BECK, Guitarrista Rejeita O Estigma de 'Guitar Hero'

Lendário guitarrista inglês toca pela primeira vez no Brasil no próximo Free Jazz, em outubro

O guitarrista inglês Jeff Beck: "Existem vários melhores do que eu"
THOMAS PAPPON

LONDRES - Depois de Eric Clapton e Jimmy Page, o Brasil recebe finalmente a visita de Jeff Beck, o membro mais recluso da sagrada trindade dos guitarristas vivos mais influentes do rock. O inglês de 54 anos desembarca no Rio em outubro, com sua Fender Stratocaster, para apresentar-se no Free Jazz Festival. Ele toca no Rio (MAM, dia 17), em São Paulo (Jóquei Clube, dia 18) e em Porto Alegre (Teatro do Sesi, dia 19).
Há mais de três décadas que Jeff Beck tem a fama de ser o "guitarrista dos guitarristas". Já nos anos 60, quando substituiu Eric Clapton nos Yardbirds, a sua pegada explosiva ajudava a edificar a ponte entre o blues e o rock. Foram os dois discos clássicos da primeira formação do Jeff Beck Group Band, Truth (68) e Beck-Ola (69), que projetaram o então desconhecido cantor Rod Stewart ao estrelato.
E foi a partir do audacioso Blow by Blow (74), produzido por George Martin, que Jeff Beck se estabeleceu como um guitarrista de rock que transita sem medo nas áreas do funk e do jazz. O músico não é dos mais prolíficos. Seus últimos álbuns-solo foram lançados nos anos 80 e fazia muito tempo que ele não entrava em turnê. É do tipo caseiro, que curte o jardim da sua mansão em Sussex e a coleção de carros esportivos antigos. Na entrevista coletiva concedida a jornalistas brasileiros num hotel em Londres, ele se mostrou modesto e simpático.
***
Estado - Quem estará tocando com você no Brasil?
Jeff Beck - Steve Alexander na bateria, Randy Hope-Taylor no baixo, e Jennifer Batten na guitarra rítmica. Jennifer tocava guitarra com Michael Jackson. Randy no grupo (de jazz/funk) Incognito e Steve tocou no Duran Duran, se não me engano. Essas pessoas estão todas trabalhando no meu próximo álbum, que já estou gravando há vários meses. O álbum incluirá gravações ao vivo, que nós fizemos na Alemanha há cerca de um mês. E ainda haverá temas novos, compostos pelo tecladista Tony Hymas.
Estado - Qual será o repertório?
Beck - Eu realmente não faço ideia do que é que as pessoas gostariam de ouvir no Brasil. Estou montando um repertório diversificado, mesclando músicas novas com coisas conhecidas - principalmente as de álbuns como Blow by Blow e Wired. O público tem gostado bastante das músicas novas, que têm uma roupagem mais moderna e menos rock'n'roll. Eu passei os últimos oito anos em busca de um novo caminho musical. Minha nova fonte de inspiração é a energia da música tecno. Tento trazer isso ao palco. Estou usando samplers como efeitos, para reproduzir vários loops, entre eles um do grupo O Mistério das Vozes Búlgaras (coral feminino da Bulgária). No álbum eu também juntei ritmos eletrônicos à bateria.
Estado - Como você lida com o estigma de ser um dos maiores guitarristas?
Beck - Isso simplesmente não é verdade. Vários são melhores do que eu. John McLaughlin, Martin Taylor, por exemplo (violonista britânico de jazz, pouco conhecido nos círculos do rock). Eric Clapton carregou esse título por um tempo, mas foi esperto e aprendeu a cantar, o que me recuso a fazer. Eu gosto de experimentar, gosto desse perigo, é o que me leva adiante.
Estado - A imprensa britânica relembrou o impacto que as primeiras excursões de Hendrix à Inglaterra tiveram sobre os músicos locais. Ele o impressionou?
Beck - Eu tinha acabado de deixar os Yardbirds e andava de baixo astral. Foi quando começaram a falar dele. Quando o vi, fiquei destruído, achei que minha carreira tinha terminado. Eric (Clapton) sentiu o mesmo. Mas acabei encontrando o Hendrix e foi como se tivesse achado uma alma gêmea. Ele sabia quem eu era, o que tinha feito. Quando lhe disse que estava desistindo de tocar, ele respondeu: "Você está brincando, comecei a tocar ouvindo a sua música." Isso me deu forças para seguir em frente.
Estado - Você chegou mesmo a ser convidado para substituir Mick Taylor nos Rolling Stones?
Beck - Fui convidado para participar de umas gravações deles, na época em que estava fazendo o contato com George Martin. Dois dias depois me avisaram que eu estava na banda. Essa hipótese não tinha nada a ver com minhas ideias musicais naquele momento. Tive de passar um bilhete por baixo da porta do Mick (Jagger), recusando o convite.
Estado - Qual é o seu disco predileto?
Beck - Acho que é o Spectrum, do Billy Cobham. Para mim, ele representa o nível mais alto a que o rock-n'-roll pode chegar. O Massive Attack descobriu isso, eles andaram sampleando o disco. Também adoro as coisas que o Django Reinhardt fez nos anos 40. Ninguém chega perto da técnica de Reinhardt. O ESTADO DE S. PAULO (22/9/1998)

DREAM THEATER, Grupo Neoprogressivo Destoa No Monsters

Guitarrista fala sobre apresentação e o último disco da banda, que estará em festival no Ibirapuera

O Dream Theater, banda de Long Island que retoma a linha progressiva: "Nosso som ao vivo é especial, é o que alcança as pessoas de maneira mais imediata"
JOTABÊ MEDEIROS

Eles fazem canções intermináveis, como o Genesis e o Yes faziam nos anos 70. É um dos raros grupos neoprogressivos do rock atual e a ovelha negra do festival Philips Monters of Rock, que ocorre no sábado - no qual tocam ao lado de Megadeth, Slayer, Manowar, Saxon, Savatage, Korzus, Dorsal Atlântica e Glenn Hughes. Trata-se dos nova-iorquinos do Dream Theater, que chegam ao Brasil pela segunda vez - estiveram aqui no ano passado.
"Tocamos em São Paulo para um público de 4 mil pessoas, foi uma noite realmente legal", disse o guitarrista John Petrucci, em entrevista ao Estado por telefone na sexta-feira. Petrucci é um dos fundadores da banda, criada em Long Island em 1985, com John Myung e Kevin Moore (fora da banda há algum tempo, substituído por James LaBrie). Estudavam música em Berklee.
Foi o pai de Mike Portnoy, um dos músicos, que deu a ideia do nome do grupo. Dream Theater era o nome de um antigo cinema da Califórnia. Mais de dez anos de estrada não tornaram o grupo mainstream do rock e eles gostam dessa posição. "Nossa música toca pouco no rádio e na MTV, mas por outro lado esse caminho possibilita uma relação mais franca e direta com os fãs, que é o que realmente nos interessa", afirma o guitarrista.
"Não tenho o receio de tocar com bandas de heavy metal, nós fizemos um festival assim no último verão e fomos muito bem recebidos", informa Petrucci, que se diz admirador de Alex Lifeson, o guitarrista do Rush - muita gente acha que eles tentam chegar perto dos riffs de Lifeson, infrutiferamente. "Acho que tanto Jimmy Page (Led Zeppelin) quanto Lifeson são influências fortes, mas Alex é mais importante para mim, sou um grande fã do Rush", lembra o guitarrista.
A fama pós-progressiva do Dream Theater só chegou mesmo nos anos 90. Em 1993, durante a turnê Music in Progress, de 1993, vendiam muitos discos e mantinham públicos fiéis no mundo todo. No mesmo ano, lançaram Live at the Marquee, além de um vídeo, Live in Tokio. Em janeiro de 1995, Imagens and Words alcança disco de ouro. Entre maio e julho de 1994 eles gravam o terceiro disco de estúdio, Awake - e, desde então, se dedicaram quase exclusivamente às turnês.
"Nosso som ao vivo é especial, é o que alcança as pessoas de maneira mais imiediata, não tem truques nem demasiado overdubbing", diz o guitarrista. "É por isso que gravamos agora um disco ao vivo, tentando manter a mesma fidelidade e o respeito que temos pelos fãs nos nossos shows", avaliou.
Segundo Petrucci, o show em São Paulo terá como base o novo disco, o álbum duplo Once in a Livetime, que incluiu os sucessos Ytse Jam, Hollow Years, Puppies on Acid e outras 20 canções.
O Philips Monsters of Rock será realizado no sábado, na pista de atletismo do Estádio do Ibirapuera.
CD duplo é versão enxuta de 23 dos sucessos da banda
Continental apresenta em outubro 'Once in a Livetime', gravado em Paris, em junho.
No dia 27 de outubro, chegará às lojas Once in a Livetime (Continental Eastwest), álbum duplo do Dream Theater gravado ao vivo em junho em show no Le Bataclan, de Paris. As canções selecionadas remontam um espectro de dez anos de carreira, incluindo as mais pesadas e mais soft músicas da banda, além de algumas das mais longas.
"Canções longas não tocam no rádio, mas isso não importa", diz John Petrucci. "Mantemos uma boa reputação em relação às gravadoras, que não nos pedem concessões para que façamos uma música mais comercial."
O CD abre com a plácida A Change of Seasons I (o álbum tem ainda as versões II e VII dessa composição) e envereda pelo hardcore em outras como Take Away My Pain. É um som mais elaborado e informado do que o comum dessa turma, claramente inspirado no Rush, mas que rende homenagens aqui e ali a outros mentores - em Peruvian Skies, citam Have a Cigar do Pink Floyd e Enter Sandman do Metallica.
O baixista John Myung tem surpreendido plateias tocando um instrumento de cordas chamado chapman stick, curiosidade extra que também está presente no disco ao vivo. Mike Portnoy diz que procurou manter os arranjos das canções executadas ao vivo da mesma maneira que são apresentadas no álbum, abrindo mão da "auto-indulgênciaa obrigatória" dos solos instrumentais.
O resultado é um CD enxuto, interessante, com a amostragem de um show de aproximadamente três horas de duração do Dream Theater, um corpo estranho no meio dos dinossauros heavies do Monsters of Rock. CADERNO 2 (22/9/1998)

terça-feira, 17 de abril de 2018

STONE TEMPLE PILOTS, Banda Torna Grunge Sofisticado

No novo CD, 'Purple', o grupo abandona letras ousadas, mas também a capacidade de invenção

Stone Temple Pilots: tratando a raiva grunge com prazer pop no seu segundo disco, 'Purple'
SONIA NOLASCO

NOVA YORK - Quando os Stone Temple Pilots (STP) surgiram (numa segunda encarnação dos Mighty Joe Young), em 1992, foi um assombro - e 3,5 milhões de pessoas compraram seu disco de estreia, Core, e seus três compactos excelentes, Plush, Wicked Garden e Sex Type Thing. Ainda assim a crítica torceu o nariz, disse que era "grunge de Seattle requintado". A banda resistiu ao ataque e apresentou-se no Unplugged da MTV, provando que podia manejar com truques próprios um som já estabelecido. E o encanto do material do STP fez o resto. Agora acabam de lançar um segundo LP, Purple (Warner), que rendeu uma turnê animada e vendas surpreendentes: Purple debutou direto no primeiro lugar do Top 200 Pop, uma das paradas mais disputadas da Billboard.
De uma faixa a outra, as novas melodias e os riffs do grupo são cativantes, do barulhão metálico típico dos anos 70 de Silvergun Superman ao seco Big Empty. Em Unglued, misturam riffs antiquados do Led Zeppelin e na abertura de Still Remains colocam um som inusitado, que bem poderia se chamar country grunge. Nos quesitos melodia, técnica vocal e divertimento, a banda é a melhor invenção atual: formalistas da dance music tratando a raiva grunge com prazer pop. No camarim do Beacon Theater, após sua última apresentação em Nova York, os integrantes da banda concederam entrevista exclusiva ao Caderno 2.
***
Caderno 2 - O relacionamento da banda parece sólido. O que aconteceu?
Scott Weiland - Musicalmente, muitas coisas assombrosas nos aconteceram. Há um monte de personalidades fortes da banda e bastante obstinação. Mas há também muito amor. E assim vamos. Robert e eu fazemos músicas juntos há três anos. Temos uma história a zelar.
Caderno 2 - Por que não há em 'Purple' letras ousadas como 'Sex Type Thing'?
Weiland - Não componho intencionalmente tendo em mente a percepção dos outros. Purple fala mais de nós. Cada um de nós passou, individualmente, por tremendas dificuldades. Como quem escreve as letras, me sinto à vontade falando de minhas experiências e sentimentos. Talvez os outros sejam mais introspectivos. Eu falo por eles. 
Caderno 2 - 'Vasoline' é sobre a experiência de vocês com a indústria do disco. Uma gozação. Como foi o choque com a crítica de 'Core'?
Weiland - Ficamos com o gosto ruim na boca nos últimos dois anos. Parece que fomos patos sentados de tiro-ao-alvo. A maior parte da artilharia foi em cima de mim. Entenderam totalmente errado o significado da letra de Sex Type Thing. Agora, não espero que todo mundo goste do que estamos fazendo. Mas a música é uma coisa tão pessoal que, quando atacam alguma que fiz, é como se criticassem minha personalidade.
Caderno 2 - Os sentimentos que soltou em 'Lounge Fly' são verdadeiros?
Weiland - Muito. Tenho uma namorada antiga, Janina. Estamos noivos. Coisa séria. Escrevi a canção há cerca de um ano, quando estávamos meio separados. Olhei para trás, para minha relação com Janina, no tempo em que eu não tinha um tostão. Ela trabalhava, nos sustentava e eu bebia e gastava o dinheiro dela em coisas que não eram boas para mim. Pensei nisso e tive a maior culpa. Escrevi sobre o sentimento.
Caderno 2 - Quais são seus planos para o futuro?
Robert De Leo - A excursão está tão boa que poderíamos passar a vida nela. Mas eu gostaria de parar essa coisa de rock e fazer algo mais sério. Não sei o quê. Talvez continue a compor. Pergunte depois da turnê. C2 (8/11/1994)

sexta-feira, 13 de abril de 2018

LED ZEPPELIN, Os Nove CDs Que São Uma Escada Para O Paraíso

Pacotaço do Led, com todos os discos de estúdio da banda remasterizados, chega ao Brasil

O grupo Led Zeppelin, liderado pela cabeça musical de Jimmy Page, mudou toda a concepção de blues até então existente: som definido que resiste até hoje
NÉRIO OLLEANDER

Se você é fã de Guns N'Roses e não conhece Led Zeppelin, não leve a mal, mas está pondo a carroça na frente dos bois. Agora, se você é fã do Led daqueles que canta Stairway to Heaven de cor e ainda toca aquela maldita abertura no violão, bem-vindo a bordo. Para felicidade geral da nação do rock, está chegando ao Brasil uma caixa com todos os discos de estúdio do Led. É mole? Tem mais: os nove discos foram remasterizados, ou seja, transferidos para o sistema digital, pelo dono da ideia, o guitarrista Jimmy Page.
Quem conferiu o último Hollywood Rock pôde ouvir muita coisa que está nesses discos. Afinal, Jimmy Page e Robert Plant, os dois principais integrantes do Zeppelin, foram a atração maior do festival. Agora, aproveitando o embalo, a gravadora dos caras resolveu mostrar para a galera mais nova tudo que o Led fez nos bons tempos, quando o grupo era o mais importante do rock na década de 70. Por que eles foram tão importantes assim? Porque o Led Zeppelin, liderado pela cabeça musical de Jimmy Page, mudou toda a concepção de blues até então existente.
O primeiro disco do Led está recheado de canções de mestres do blues tocadas de uma maneira totalmente incomum. Mesmo que Page & Plant insistissem que o Led era uma banda de blues, a verdade é que eles foram bem além disso. Criaram um som com um estilo tão bem definido que conseguiu vencer a barreira dos anos e resiste até hoje.
A caixa que a Continental está lançando é importada e traz, em CD, os nove discos da banda lançados entre 1969 e 1982. Coda, de 82, é um disco póstumo, pois foi lançado depois da morte do baterista John Bonham em setembro de 1979. Esta nova edição de Coda traz quatro faixas bônus além das nove originais. As originais, aliás, eram restos de sessões de estúdios. Mas antes é preciso ouvir os primeiros discos.
Desde o primeiro, chamado apenas Led Zeppelin, com aquele dirigível pegando fogo na capa, até o duplo Physical Graffiti, o Led Zeppelin provou que rock é rock mesmo. Sem frescura e com muito talento. Peso foi a alma do negócio no caso do Led. Guitarras no volume máximo, uma bateria demolidora e aquele vocal do Robert Plant que influenciou toda a turma do heavy metal desde então. Os dois primeiros discos foram gravados num ligeirão. O segundo saiu do forno menos de um ano depois do primeiro. O motivo? Todo mundo estava querendo mais, muito mais, daquele bando de cabeludos ruidosos que tinham à frente um cantor que se movia com a elegância de um deus grego.
Já no terceiro disco, os caras tiveram tempo de parar e sentar um pouco para pensar. Saiu um disco mais maneiro, cheio de canções acústicas, muitos violões. No quarto, eles viraram heróis mundiais com o hino Stairway to Heaven. Depois, tudo foi festa. Viagens pelo mundo, shows viajandões que viraram um filme chamado The Song Remains the Same. A festa foi interrompida em setembro de 1979. O baterista John "Bonzo" Bonham, que além de pegar pesado nas baquetas também detonava no álcool, morreu de tanto beber. A baixaria tomou conta dos sobreviventes. Achando que seria muito difícil encontrar um substituto adequado para "Bonzo", a banda anunciou seu fim em 1980.
As músicas imperdíveis do Led
Confira aqui o que você não pode deixar de ouvir na caixa do Led.
Led Zeppelin - You Shook Me, blues de Willie Dixon, músico dos anos 50; Dazed and Confused, típica de Jimmy Page. Plant é o demônio no vocal; Babe I'm Gonna Leave You, canção tradicional em tom menor para rachar o coração.
Led Zeppelin II - Whole Lotta Love, clássica total; Ramble On, embalinho, Plant em tempo exato; Moby Dick, riff clássico seguido de solo de bateria. A partir daqui, solo de bateria em show de rock virou obrigação.
Led Zeppelin III - Gallows Pole, regravada com maestria por Page & Plant no retorno de 1994. Since I've Been Loving You, blues arrasa-quarteirão para ouvir quando alguém te deixa na mão. Immigrant Song, rockão para ouvir se empapuçando de cerveja.
Untitled - Stairway to Heaven, precisa dizer alguma coisa?; Black Dog e Rock and Roll, duas faixas para te deixar de quatro, babando que nem cachorro louco; Going to California, para o café da manhã com suco de laranja (e algumas gotinhas de vodca...)
Houses of the Holy - Ouça todo.
Physycal Graffiti - Kashmir, que dúvida! In My Time of Dying, megablues de 11 minutos para viajar no cosmos.
Presence - Se salvam, gloriosamente, Achilles Last Stand e Nobody's Fault but Mine.
In Through the Outdoor - All My Love é a clássica.
Coda - I Can't Quit You Baby, versão ensaio para mais um blues de Willie Dixon. Tente também Darlene. Das faixas bônus, ouça Baby Come On Home, de 1968. ZAP! (11/4/1996)

DEPECHE MODE, Grupo Grava Baladas Melancólicas Em Meio À Tormenta

Trio volta ao estúdio com aura romântica e expõe seu lado mais pop no álbum "Ultra"

Dave Gahan (no centro): "Estive morto por dois minutos"
THOMAS PAPPON

Se existe um grupo que conheceu o percurso que vai do anonimato à fama mundial, e do céu ao inferno particular sobre a terra, ele se chama Depeche Mode. Com 17 anos de showbiz nas costas, mais de 30 milhões de discos vendidos e fã-clube até na Albânia, é o grupo de maior sucesso nascido da new wave. Todos os seus álbuns foram Top 10 na Grã-Bretanha e, desde Violator (91), eles têm repetido a façanha nos EUA.
Seus shows ao vivo são grandes eventos. Mas as viagens intermináveis, que sedimentaram sua fama, também abalaram os alicerces físicos e psíquicos de seus integrantes. Em 1994, passados os 156 shows da última turnê mundial, Devotional, sobraram cacos. O vodu culminou com a saída de Alan Wilder - durante 13 anos, tecladista e coordenador musical do grupo. Reduzidos a um trio, mas com o auxílio fundamental do novo produtor Tim Simenon (Bomb The Bass) eles voltaram ao estúdio para, em meio à tormenta, completar o 12º álbum.
Não é surpresa que Ultra, com lançamento mundial marcado para 15 de abril, seja marcado por baladas confessionais e melancólicas. Mas é um espanto que esta aura romântica de "obra escrita com sangue" acabasse expondo o lado mais pop do Depeche Mode. Não se deixe confundir com o single Barrel of a Gun, que é meio industrial pesado. As outras músicas são bem mais lentas e climáticas e o vocal de Dave Gahan está mais dilacerante do que nunca.
Em entrevista exclusiva ao Estado, em Londres, um Gahan saudável, que fuma e toma café, de 35 anos e aparência de 30, falou sobre o seu calvário, sua redenção e seu novo disco.
Estado - Houve muita pressão para que vocês repetissem o sucesso dos discos anteriores, Violator e Songs of Faith & Devotion?
Dave Gahan - Fazemos música para nós mesmos. Temos todo o controle do processo criativo e de gravação. Mas quando o álbum está pronto, ele segue o próprio caminho.
Estado - Por que escolheram Tim Simenon (Bomb The Bass) para a produção de Ultra?
Gahan - Ele nos foi sugerido pelo Daniel Miller, dono da Mute Records. Estávamos à procura de um produtor desde que Alan (Wylder) saiu do grupo. Tim veio com uma equipe de músicos, um programador, um tecladista e seu próprio engenheiro. Ele tentou preservar os aspectos que considerava os mais positivos de nossa música. As canções e a minha voz estão em primeiro plano. Sempre achei que essa era a força do Depeche Mode: a combinação das músicas de Martin (Gore) com o meu vocal. Ultra parece uma coletânea do que há de melhor do lado melódico do grupo.
Estado - Vários músicos participam do álbum. Jaki Liebezeit, o lendário baterista do Can (superinfluente grupo alemão da década de 70), por exemplo.
Gahan -  Ele toca em Bottom Line. Doug Wimbish (ex-Living Colour e Rolling Stones) toca baixo em algumas canções. B.J. Cole toca steel-guitar. Há uma seção de cordas em Home. David Clayton, da equipe de Tim Simenon, toca teclados. Deixamos várias pessoas interferirem na nossa música.
Estado - Vocês tem escutado jungle, trip-hop ou as novas guitar bands?
Gahan - Só ouço esse tipo de música quando vou a clubes noturnos. Em casa, eu prefiro ouvir Rolling Stones ou Jimi Hendrix. O último disco que comprei, e gostei muito, foi o dos Smashing Pumpkins.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

WOODSTOCK, Evento Foi O Fracasso Mais Celebrado do Rock

Documentário de Michael Wadleigh sobre Woodstock, que o Cinemax exibe às 23 horas, capta o caos da organização, os conflitos e a impotência dos produtores, além de música

Hippies em Woodstock: moradores ameaçaram matar os primeiros que aparecessem
MARCEL PLASSE

Agosto de 1969. Michael Lang de cabelos longos, jaqueta de couro, cigarro na boca, sobre uma motocicleta. A única música é o barulho de martelos ao fundo. A voz vem de fora do quadro. "Para onde você pretende seguir?", pergunta o entrevistador. "Vai fazer outro?" Lang é seco: "Se der certo."
Deu tudo errado. Choveu, cerca de 300 mil pessoas invadiram o evento sem pagar ingressos, a superlotação deu lugar ao caos, a infraestrutura se mostrou precária, o maior engarrafamento da história nos EUA tornou o local inacessível, não havia higiene ou comida, as bandas descumpriram horários, o prejuízo financeiro só não foi maior que o pessoal, enterrando a credibilidade dos envolvidos, que acabaram brigando na justiça. Mas a cena volta ao ar hoje, um dia antes de Lang fazer seu terceiro festival de nome Woodstock. Ela faz parte do documentário de Michael Wadleigh, que o Cinemax exibe às 23 horas, preparando o público para Woodstock 99, programa do fim de semana na HBO.
Antes de Woodstock, os documentários de rock não tinham visibilidade e rentabilidade. Monterey Pop, rodado no ano anterior, fora um fracasso de bilheteria e Hollywood mostrava-se desinteressada pelo segmento. Eis que surge Michael Wadleigh, um cineasta independente de 27 anos, que abandonara a escola de medicina para traçar um perfil cinematográfico da América na década de 60. Wadleigh acompanhara Martin Luther King e a campanha presidencial de Robert Kennedy. Sua preocupação política e social só não era maior que sua paixão pela trilha de seus filmes: o rock. Quando os organizadores de Woodstock bateram em sua porta, a ideia lhe pareceu irresistível. O dinheiro, não. Mas Wadleigh aceitou.
A Kodak exigia dinheiro para os negativos. A produção não adiantou nada e o diretor precisou tirar US$ 50 mil do próprio bolso. A ele, juntaram-se outros entusiastas, que só receberiam se o filme desse lucro - um deles ficaria famoso, Martin Scorsese.
Não era só paz e amor, bicho. Semanas antes de Woodstock, moradores de Bethel diziam que iam atirar no primeiro hippie que aparecesse. Poucos meses atrás, já com publicidade na imprensa nova-iorquina, a cidade que ia abrir o festival, Wallkill, exigiu o cancelamento. Nenhuma comunidade queria hippies em seus quintais. Os caipiras os matariam como fizeram com o personagem de Jack Nicholson em Easy Rider. Wadleigh colocou a câmera sobre essa história. Queria saber dos personagens, da peregrinação, da chuva, das drogas, do sexo, dos banhos no lago, do trânsito, das opiniões sobre a Guerra do Vietnã, da pressão da comunidade sobre o fazendeiro Max Yasgur, que cedeu seu terreno para o evento. A história ainda impressiona. Podia ser sobre ravers em 1999.
Superlotação: público recorde e invasões espalharam o caos na região de Bethel em 1969
Mas o verdadeiro personagem de Woodstock chama-se Michael Lang. Ele era o único envolvido no projeto que andava de pés descalços. Seus parceiros usavam ternos e gravatas. Dois eram abastados, John Roberts e Joel Rosenman. O quarto era um executivo de gravadora, Artie Kornfeld, vice presidente da Capitol Records. O mais velho tinha 26 anos. Possuíam projetos diferentes, encontraram-se de maneira fortuita, mas Lang, que já tinha reunido 40 mil pessoas num festival na Flórida, conseguiu convencê-los a investir em Woodstock - a ideia original era montar um estúdio de gravação na cidade de Woodstock, onde Bob Dylan, Jimi Hendrix e Janis Joplin tinhas casas. O nome foi registrado e acabou batizando o evento.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

PINK FLOYD, Os Inventores do Pop

Os melhores momentos da turnê 'The Wall' vão estar no CD 'Is There Anybody Out There'

THOMAS PAPPON

LONDRES - Um estádio lotado em Los Angeles, 7 de fevereiro de 1980. As luzes se apagam, a expectativa é grande, o show vai começar. Holofotes iluminam o palco. A banda entra. Os músicos usam máscaras e a plateia começa a adivinhar quem é quem: "Aquele na guitarra deve ser o Dave, ali no baixo o Roger..."
De repente se abre uma cortina atrás  do palco e uma outra banda, a verdadeira atração da noite, com músicos sem máscaras, toca junto. Enquanto a banda desfila o repertório do último álbum, aparece um muro gigantesco entre o palco e o público. Para surpresa geral, o grupo toca metade do show escondido da plateia, por causa do muro. Um arsenal de efeitos de última geração faz da noite um espetáculo grandioso. Enfim, a apoteose: o muro é derrubado num estrondo e a banda, nas ruínas, tocas Another Brick in the Wall.
Esse foi o show de estreia da turnê promocional do álbum The Wall, do Pink Floyd, lançado em 1979. Finalmente, os melhores momentos dessa turnê - que entrou para a história do rock como uma das mais megalomaníacas - podem ser conferidos a partir de 7 de fevereiro, data do lançamento mundial, pela gravadora EMI, do CD duplo Is There Anybody Out There? - The Wall Live. "Sabíamos que perderíamos dinheiro, mas também que o disco venderia bem", conta David Gilmour em entrevista ao Estado, em Londres.
The Wall vendeu mais de 50 milhões de cópias e é, ao lado de Dark Side of the Moon, um dos trabalhos mais conhecidos de um dos últimos grandes dinossauros do rock, um dos poucos dessa linhagem que nunca se apresentaram na América do Sul. O show The Wall era tão complicado e grandioso que só foi realizado em quatro cidades: Los Angeles, Nova York, Dortmund (Alemanha) e Londres. "Eram seis ou sete shows em cada cidade", diz Gilmour, hoje um senhor, baixo, gordinho e falante. "Era mais fácil o público vir até nós, do que nós levarmos o show a tudo quanto é lugar."
O guitarrista, cantor e hoje líder do grupo lembra como foi difícil preparar o evento: "Terminamos o disco The Wall em novembro de 79; nos meses seguintes nós procuramos os músicos para a tal banda mascarada, que acompanha o show." Ele informa que, enquanto ensaiavam, outras equipes em Los Angeles e outras partes do mundo preparavam os efeitos.
Separação - The Wall é cria das obsessões do baixista e cantor Roger Waters com os muros emocionais entre as pessoas. Waters, a essa altura, era o líder, principal compositor e visionário do grupo. Seu controle ditatorial culminou com a separação da banda em 84, após o relativo fracasso do álbum The Final Cut. Mal-aconselhado por advogados, Waters processou a banda em 86 para impedir a utilização do nome Pink Floyd. Perdeu a parada, foi obrigado a ver o Pink Floyd retomar o sucesso comercial sem ele - com a chegada de A Momentary Lapse of Reason (87) às paradas - e amargou uma carreira-solo de mais baixos do que altos.
Já Gilmour, que entrou no Pink Floyd em 68, substituindo o primeiro líder e guitarrista Syd Barrett - compositor da psicodelia dos anos 60 - peitou Waters, assumiu a liderança do grupo e provou que o Pink Floyd sem Waters poderia dar certo. "Muita gente, na época, me perguntou como é que eu faria isso, mas eu já cantava mais da metade das músicas e o som do Floyd ainda estava ali."
Seja como for, foi Waters quem concebeu The Wall. Mas David Gilmour garante que o produto final é bem diferente da demo tape inicial de Waters. Gilmour e Waters não se falam desde a briga. Mas os interesses financeiros juntam os dois, indiretamente, na produção de Is There Anybody Out There? - The Wall Live. As gravações ao vivo da turnê estão sendo ouvidas, selecionadas e mixadas pelo produtor John Guthrie, engenheiro de som de vários discos do Pink Floyd. Segundo Gilmour, após cada seção de mixagem, Guthrie envia o resultado em CD. "Eu ouço, faço anotações e envio os comentários por e-mail; sei que ele está fazendo o mesmo com o Roger."

terça-feira, 10 de abril de 2018

LED ZEPPELIN, O Zepelim de Chumbo Continua Voando

O guitarrista Jimmy Page e o cantor Robert Plant, principais integrantes do lendário Led Zeppelin, encerram o sábado do Hollywood rock mostrando as músicas do disco 'No Quarter'

Robert Plant (à dir.) e Jimmy Page: músicos eram o coração e o cérebro do Led Zeppelin
MAURO DIAS

Conta-se que Keith Moon, baterista do The Who, ouvindo o som da nova banda criada por James Patrick Page, em 1968, vaticinou: "Esse seu conjunto vai subir como um zepelim de chumbo." Moon era um grande baterista, mas péssimo profeta. James Patrick Page, ou melhor, Jimmy Page, adotou o "zepelim de chumbo" como nome da banda - Led Zeppelin - e inaugurou um novo capítulo na história do rock.
Tinha de ter ocorrido no final dos anos 60, quando tudo o que parecia estabelecido ruiu por terra, estilhaçou-se como a vidraça atingida pela pedra da juventude que no mundo inteiro dispunha-se a quebrar as vitrines e colar os cacos de maneira a formar um novo desenho. O Sgt. Pepper's, as guitarras de Eric Burdon e Jimi Hendrix, a voz de Janis Joplin, o som pesado do Zeppelin - que definiu  o que viria a ser o heavy metal: foi tudo concomitante.
O Zeppelin nasceu por acaso (como as coisas ocorriam então). O guitarrista Jimmy Page, líder do Yardbirds, saiu do grupo original, criou o New Yardbirds e convocou três outros músicos - desconhecidos - para uma excursão: John Paul Jones (baixo), John Bonham (bateria) e Robert Plant (vocais). Foi quando Keith Moon fez a incorreta profecia.
De cara, o Zeppelin tirou os Beatles do primeiro, como o compacto Whole Lotta Love. Porque ficou claro desde logo que o som estranho, pesado, sensual, que usava elementos da música inglesa tradicional colados ao som negro da origem do rock, era muito, mas muito mais do que apenas um "novo" qualquer coisa. Era novo, sem aspas: era o Led Zeppelin, o improvável zepelim de chumbo, a prova de que o mais pesado do que tudo podia ser agradável para a imaginação ansiosa da juventude da década.
SHOW E DISCO TÊM ORQUESTRA E MÚSICOS ORIENTAIS, MAS MANTÉM TRADIÇÃO
O primeiro disco, Led Zeppelin I, subiu direto para o topo das paradas, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Led Zeppelin II foi o tiro de misericórdia nos que ainda não entendiam muito bem o que estava acontecendo. Eles fariam ao todo nove discos, sendo que Coda saiu em 1982, depois da banda oficialmente acabada.
Em dezembro de 1980, o baterista John Bonham morreu depois de tomar 40 doses de vodca. Em janeiro de 1981, Jimmy Page convocou a imprensa internacional e comunicou a morte do Led Zeppelin (John Lennon também havia morrido no mês de dezembro: era o fim do fim do sonho). Mas foi uma morte formal. O Zeppelin continua sendo referência para os grupos de música pesada.
Costuma-se dizer que Jimmy Page e Robert Plant eram o cérebro e o coração do Zeppelin. Pois a guitarra de Page e a voz de Plant juntaram-se novamente em 1994 para gravar o disco (e o vídeo) No Quarter, com repertório quase todo baseado no do Led Zeppelin. Desde então, Page & Plant vêm correndo o mundo para divulgar No Quarter. Estiveram no Brasil, ano passado, mas só para dar entrevistas. A primeira apresentação por aqui, ao vivo, do novo trabalho, vai ser agora, no Hollywood Rock. 
O som de No Quarter incorpora elementos orientais, coisa que Zeppelin chegou a fazer, de forma discreta, nos últimos anos de existência, mas que aqui ganha prioridade. Dessa forma, clássicos como Kashmir, Since I've Been Loving You, Thank You e outros mais merecem roupagem nova, afinada com o som multiculturalista da nossa década.
Page & Plant terão uma orquestra no palco, mas advertem que No Quarter continua sendo bom e velho rock pesado. Eles só não tocarão o maior sucesso do Zeppelin, Stairway to Heaven. Mas não custa insistir, na hora do bis. CADERNO 2 (19/01/1996)

RED HOT CHILI PEPPERS, Grupo Lança Álbum Depois de Três Anos

Com 'By the Way', banda californiana, preferida de skatistas e surfistas do mundo todo, volta a explorar a fórmula de aproximação do hard rock, do rap e do funk, mas agora em busca de senso melódico

Michael 'Flea' Balzary, Chad Smith, John Frusciante e Anthony Kiedis, o quarteto que forma o grupo californiano Red Hot Chili Peppers, uma das grandes forças do pop rock mundial
JOTABÊ MEDEIROS

Chega na segunda-feira às lojas By the Way (Warner Music), o novo disco da banda californiana Red Hot Chili Peppers, uma das mais bem-sucedidas comercialmente do mundo, amada por skatistas e surfistas dos quatro recantos do planeta.
O disco anterior a By the Way, Californication, lançado em julho de 1999, vendeu cerca de 13 milhões de cópias em todo o mundo (600 mil no Brasil). A vantagem é que não se trata apenas de um grande sucesso comercial, mas também um pop rock de boa qualidade. Som feito por um grupo que tem boa consciência política e social - mas que, ao mesmo tempo, não é uma legião de chatos militantes.
Um dos dados inegáveis sobre os Peppers é que aperfeiçoaram seu papel como porta-vozes de uma geração tatuada. By the Way chega às lojas com a exigência de que todo o material dos CDs fosse feito de papel reciclado. No Brasil, a Warner informou que a fábrica de papel Suzano doou 3 toneladas de seu material reciclado para que a companhia imprimisse a tiragem  inicial do disco, de 100 mil cópias.
By the Way foi gravado em duas etapas. A primeira foi no Sunset Strip Studio de Los Angeles, no começo do ano. Em abril, eles migraram para um hotel em Hollywood, o Chateau Marmont (lugar onde o vocalista Anthony Kiedis morou em algum lugar no passado) e instalaram-se num quarto. Colocaram microfones no quarto e fizeram da sala um estúdio improvisado.
O clima literalmente muito íntimo fez com que as coisas fluíssem também com mais naturalidade, contou Kiedis. "Eu chorei algumas vezes", disse. Apesar do lançamento, o Red Hot não tem planos de fazer turnês até o ano que vem, mas fará pocket shows pelo circuito universitário. "Estou requerendo alguns shows de guerrilha", disse o vocalista. "Queremos tocar para nossos fãs."
GRUPO EXIGIU CDS COM PAPEL RECICLADO
Apesar de manterem-se longe das turnês, a superbanda teve um lançamento de disco à altura. A arte da capa do álbum é do cineasta Julian Schnabel (diretor de Basquiat e Before Night Falls). O single da música que dá título ao disco, By the Way, foi dirigido pela mesma equipe de Californication, Dayton & Ferris, e mostra Anthony Kiedis como um astro sequestrado por um motorista de táxi.
Quando o Red Hot Chili Peppers surgiu na cena roqueira, com seu visual tatuado, a pose e o estilo de garotos de rua disputando espaço nas calçadas para o skate e os shorts enroscados na metade do traseiro, o mundo era diferente. O grupo mudou um pouco nesses 20 anos e oito discos.
Eles agora parecem mais dândis, passaram a assimilar vantagens vindas da grana e do prestígio. By the Way é um disco mais eclético, alegre e diversificado, embora professe certa fidelidade ao som p-funk dos primeiros anos e às experiências melódicas, coisa que eles tinham resolvido cobrir com grande carga de peso e sujeira.
Alguns dos Peppers, como o baixista Flea, assumiram suas influências mais inconfessáveis, como o jazz de Louis Armstrong. Ele está soando quase como um baixista de power trio de jazz. Há ecos também de Beach Boys e Beatles no disco, mas em essência é o mesmo som de sempre.

ELVIS COSTELLO, Um Inventor No Rock

Com o LP Spike, o ex-punk Elvis Costello se firma como o novo superastro da música pop

Costello: arranjos que fogem à padronização do rock atual e letras entre a ironia e o humor
JOÃO GABRIEL DE LIMA

Depois de eletrizar plateias e reinar no rock por mais de duas décadas, Elvis Presley deixou a coroa ao morrer, em 1977. Naquele mesmo ano, outro Elvis surgiu para disputar o trono. Em meio às guitarras distorcidas e ensurdecedoras do punk, tendência dominante no final dos anos 70, o cantor e compositor inglês Elvis Costello se destacou como um dos músicos mais criativos, embora sua música destoasse dos cânones de simplicidade do movimento punk. Mesmo apontado como revelação, Costello, para a maioria do público, foi durante anos apenas o que seu nome sugere - o outro Elvis. Esta situação começa a mudar. Spike, o novo LP de Costello, que chega esta semana às lojas do país, vem galgando rapidamente os primeiros lugares nas paradas de sucessos em todo o mundo. O LP merece essa aclamação: ele desde já figura entre os melhores discos do ano e pode guindar seu autor à condição de um dos pontas-de-lança do rock dos anos 80, aqueles que, como Prince e David Byrne, o líder dos Talking Heads, apontam novos caminhos para a música pop.
A originalidade de Costello está, primeiro, na variada gama de ritmos e gêneros musicais que ele acopla ao rock. Suas canções combinam jazz, soul, folk e até músicas de retreta - bandinhas caipiras -, numa fusão que surpreende pelo bom gosto e pela novidade. A segunda característica que chama a atenção em seu trabalho é que ele nada tem a ver com os arranjos padronizados de Madonna ou Cindy Lauper. Suas instrumentações são ricas, fora da rotina. Costello, por fim, se destaca pela qualidade de suas letras - retratos sarcásticos da sociedade, cenas oníricas ou simplesmente boas piadas.
TRÊS ACORDES - Elvis não é um nome comum, e Elvis Costello pode sugerir, à primeira vista, um pai aparentado com o Costello da dupla de comediantes americanos Abbott e Costello ou um pai maníaco por Elvis Presley que quis transferir essa devoção ao filho. Ledo engano. O compositor, na verdade, não se chama Elvis e tampouco Costello. Seu verdadeiro nome é Declan MacManus, e é assim que ele assina, até hoje, as músicas em parceria com outros compositores. O pseudônimo não passa de um truque usado no início da carreira para entrar com mais facilidade no mercado fonográfico. Desde a adolescência, Costello fazia músicas que misturavam vários estilos, com letras carregadas de imagens delirantes.
Quando resolveu seguir a carreira musical, essa complexidade de suas composições dificultou seu acesso às gravadoras. Em 1975, aos 20 anos, já casado e com um filho, ele se desiludiu com as recusas constantes e foi procurar emprego para sustentar a família. Acabou se tornando programador de computadores em Londres e viveu desse ofício durante bom tempo.
O advento da onda punk fez com que a informática perdesse um trabalhador dedicado e o rock ganhasse um de seus mais completos artistas. Elvis Costello percebeu que, no punk, qualquer acorde chinfrim que soasse diferente ou exótico era logo tomado como uma agressão às instituições, e fazia sucesso. Já rebatizado com o pseudônimo, o compositor pegou algumas de suas músicas mais esquisitas, simplificou-as a ponto de ficarem parecidas com as canções de três acordes que pontificavam nas paradas, adotou uma interpretação agressiva, chamou a decadente banda californiana The Clovers para acompanhá-lo e lançou o LP My Aim Is True no final de 1976. O disco foi considerado um dos melhores de todo o período punk, e Costello ganhou notoriedade entre os seguidores do gênero. Além de representar um sintoma da fragilidade da música da época, a ascensão de Costello ao posto de revelação foi resultado de sua habilidade em escrever canções em qualquer estilo. Algumas das músicas daquele primeiro disco foram escritas quando o compositor tinha 15 anos.