A REVISTA GUITAR PLAYER NORTE-AMERICANA FOI FUNDADA DURANTE O VERÃO DE 1967 QUANDO JIMI HENDRIX PÔS FOGO NA SUA STRATOCASTER EM MONTEREY E DETONOU UMA REVOLUÇÃO NA GUITARRA ELÉTRICA. EM TRÊS DÉCADAS, DESDE AS CHAMAS SAGRADAS DE JIMI, MILHARES DE ÁLBUNS DE GUITARRAS FORAM LANÇADOS E, EMBORA MUITOS APENAS OSCILARAM POR UM MOMENTO NO OUVIDO DO PÚBLICO, OUTROS MARCARAM REGISTROS PERMANENTES NA CABEÇA DOS GUITARRISTAS.
SEIS EDITORES DA GP NORTE-AMERICANA - JOHNSTON, GORE, OBRECHT, ROTONDI, THOMPSON E ELLIS - VASCULHARAM AS SUAS MEMÓRIAS, COLEÇÕES DE DISCOS, NÚMEROS ATRASADOS E LIVROS DE REFERÊNCIAS PARA DESCOBRIR OS MELHORES DISCOS DE GUITARRA DOS ÚLTIMOS 30 ANOS. A PARTIR DAÍ, HOUVE UM GRANDE ESFORÇO PARA ESCOLHER O SINGLE MAIS IMPORTANTE E INFLUENTE PARA CADA ANO. "MISSÃO IMPOSSÍVEL", VOCÊ DIRIA? ANDY ELLIS CHEGOU A ARGUMENTAR CONTRA O CONCEITO JORNALÍSTICO DE COLOCAR UM SINGLE DE UM DISCO SOBRE OUTRO. NO ENTANTO, OS DEMAIS MEMBROS DA "COMISSÃO JULGADORA" DECIDIRAM INSISTIR NO CARA-OU-COROA INTELECTUAL E PROVÁVEL DILÚVIO DE CARTAS DO TIPO "COMO VOCÊS PUDERAM DEIXAR DE FORA...?", NA ESPERANÇA QUE AS ESCOLHAS POSSAM INSPIRAR OS GUITARRISTAS A BUSCAREM A MÚSICA ESSENCIAL. A SURPRESA, AO FINAL, FOI QUE A LISTA DOS ESCOLHIDOS COMBINA COM A ÊNFASE EDITORIAL DA GUITAR PLAYER NO QUE DIZ RESPEITO AO ECLETISMO. DOS RENEGADOS DAS CORDAS DE NYLON AOS FUSIONISTAS E PUNKS PRIMAIS, AS ESCOLHAS TOP E VICE-CAMPEÃS CONFRONTAM AS POSSIBILIDADES DO INSTRUMENTO COM UMA INDIVIDUALIDADE SEM COMPROMISSO.

terça-feira, 27 de junho de 2017

BLUR, Grupo Faz Disco Para Negar Todos Os Rótulos

O baixista Alex James fala do novo trabalho, diz que está apaixonado pela cultura norte-americana e cansado da disputa com Oasis pelo título de banda mais popular entre os grupos do chamado britpop

Os rapazes do Blur, que acabam de lançar novo CD, cujo título é o nome da banda: ironia com o Oasis, críticas ao britpop e paixão pela música e roupas americanas
MARCEL PLASSE

Blur foi a primeira banda a ser chamada de britpop. O rótulo durou alguns anos e agora Blur é a primeira banda a jogá-lo no lixo. Seu novo álbum, pela EMI, tem apenas o nome do grupo como título e é um dos melhores lançamentos da Inglaterra desde que a dance music sepultou o rock no país.
Cansada da disputa com Oasis pelo título de banda mais popular da Europa, Blur fez um disco apenas para os fãs de boa musica. O baixista Alex James confirma, por telefone, de Londres, um inesperado amor pela América e o desdém completo pelo britpop. Oasis? "Deixe que eles sejam os novos Beatles", ironiza.
***
Estado - Quem descobriu a América?
Alex James - Graham Coxon, nosso guitarrista. Ele é um velho fã de Sonic Youth. Damon Albarn, nosso vocalista, também estava no barco na expedição de descobrimento. Ele até hospedou os caras do Pavement em sua casa, agora que a banda excursionou pela Inglaterra. Uma coisa que sempre me irritou é que as bandas americanas podem cantar sobre a América e isso é visto como normal em todo o mundo. No novo disco, ainda cantamos coisas da Inglaterra. Citamos Essex, por exemplo, num título. Qual é o problema? É de onde viemos e é o que sabemos.
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Estado - Isso não é uma barreira para o mercado americano?
James - Acho que a América começou a se entediar com Hootie and the Blowfish. O grunge foi completamente absorvido pelo mainstream e deixou de ser a vanguarda - virou uma coisa chata. Não creio que a América tenha uma voz no momento, o que é triste, porque eles estavam fazendo a melhor música do mundo na época do Nirvana. As bandas americanas tinham um jeito vigoroso de expressar medo, angústia e raiva, mas acho que as pessoas ficaram saturadas. Felizmente, depois, vieram Beck, Sebadoh, Weezer e Tortoise.
Estado - Qual é a melhor coisa dos EUA?
James - Pizza. Você não consegue comer pizza tão trash na Inglaterra. Também as lojas de disco e as de roupas. Os ingleses são muito caretas no que diz respeito às roupas.
Estado - O que fez o Blur mudar tanto de estilo, desde que surgiu?
James - Somos todos bons músicos e não vejo por que deveríamos nos confinar num estilo particular. Os Beatles nunca fizeram isso. A gente toca tudo o que funciona.
Estado - O que você achou da versão dos Pet Shop Boys para Boys and Girls?
James - É uma versão ao vivo, num lado B ou numa compilação, sei lá. Sabe o que me lembra? Uma vez deixei alguém levar meu cachorro para passear. Quando voltaram, o cachorro parecia outro.
Estado - Como o novo disco, Blur vai voltar à condição de principal banda inglesa, que hoje pertence ao Oasis?
James - Tenho mais coisas a fazer do que pensar sobre o Oasis. Eles arrebentam, não? Boa sorte para o Oasis. É uma boa banda.
COMO OS BONS MÚSICOS, ROQUEIRO DEFENDE CONSTANTES MUDANÇAS DE ESTILO
Estado - Vocês têm mágoa da forma como o Oasis tornou-se adorado, uma vez que o Blur dominava a mídia inglesa?
James - Acho que esse negócio do Oasis já rendeu o que tinha de render. Vendemos milhões de discos. Eles vendem um pouco mais. Mas é estúpido da parte da imprensa inglesa creditar qualidade a vendagens. Na Inglaterra, se você não vende X discos, não é ninguém. Como poucos vendem tanto, há superexposição de determinadas bandas. O que os caras do Oasis dizem não é o que realmente querem dizer. Sempre que dou uma entrevista, alguém tenta me fazer dizer coisas horríveis sobre eles. Mas não vou dizer, porque o Oasis é uma grande banda. Pena que eles não consigam manter a cabeça no lugar. Liam parece ser o Cantona (Eric, jogador do Manchester United, famoso pelo temperamento esquentado) do pop. Mas a gente até se dá bem, apesar das intrigas. Eles estão sendo rotulados de bad boys, mas são gente fina.
Estado - Gente fina, mesmo tendo dito: "Espero que peguem aids e morram", sobre o Blur?
James - Yeah... Disseram isso no início da "briga" que a mídia armou entre a gente. Eles estão cometendo seus erros em público, o que acho normal para qualquer banda que não tem história suficiente. Dissemos coisas estúpidas também no nosso primeiro ano de exposição.
Estado - O que você acha do britpop?
James - Não gosto muito. Entre as bandas novas, prefiro ouvir Rentals, que me lembra The Cars.
Estado -  Rentals e The Cars são bandas americanas.
James - Só tenho ouvido música americana hoje em dia. A cena inglesa me dá tédio.
Estado - Mas Blur não é considerado britpop?
James - Jogaram esse rótulo sobre nós. Mas estamos fazendo shows há tantos anos - antes de alguém falar em britpop -, que acho que nós merecemos maior consideração do que ser comparados com os moleques que estão chegando.

Melhores do ano já incluem CD da banda

Quinto álbum do grupo inglês, que divide fãs, é uma obra-prima de difícil assimilação


Obra-prima ou lixo? O velho dilema voltou às resenhas de discos com Blur, o quinto álbum da banda favorita de Londres na década de 90. O álbum nem foi oficialmente lançado ainda - sai este mês -, mas os fãs já se dividiram. Só numa coisa todos concordam: não se trata de um disco de fácil assimilação.
As teses de conspiração são divertidas, como convém ao momento sensacionalista do pop inglês. O vocalista Damon Albarn, dizem, estaria querendo fazer um álbum insuportável para fracassar nas vendas, terminar o contrato com sua gravadora e ir morar no campo com sua namorada do Elastica. Ou, simplesmente, planejou voltar a tocar em lugares pequenos e, por isso, fez um disco do qual não deve emplacar nem um hit sequer.
Blur não é um novo Leisure, Parklife, Modern Life Is Rubish ou The Great Escape e quem esperava mais britpop da banda que começou a cena não se conforma. Não é, com certeza, um disco para os fãs de Oasis. Mas Blur sempre teve mais a dizer do que Oasis. O grupo de Manchester só é a melhor banda do mundo em seu marketing. Blur, por outro lado, acaba de provar que não é apenas outra banda inútil do britpop.
O guitarrista Graham Coxon sempre foi um fã confesso de Sonic Youth, a banda madrinha de todos os guitarrista de vanguarda, e agora tem a chance de demonstrar sua queda por microfonia em arranjos ardidos que ninguém imaginava que ele sabia tirar. Mais do que isso, a última faixa do álbum, Essex Dogs, foi mixada pelo próprio Thurston Moore, do Sonic Youth.
O disco tem, ainda, a participação de John Mackentire, do Tortoise, além de mixagens de Moby e dos Dust Brothers. É muito americano para uma banda que representava o máximo da atitude inglesa. Damon aproveita e canta Look Inside America, uma trégua e uma homenagem à cena rival do outro lado do Atlântico.
Lixo? Só para anglófilos que deixaram de ouvir música quando os Beatles acabaram. O britpop foi um movimento nacionalista, que insistiu até seu último fôlego que nunca existiu nada depois dos Beatles. Oasis até hoje quer competir com aquela banda. A imprensa mundial inglesa deu corda, por causa do temor da música americana, que acabou com a raça do pop britânico na época do Nirvana e das mil e uma bandas de Seattle. CADERNO 2 (4/3/1997)

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