A REVISTA GUITAR PLAYER NORTE-AMERICANA FOI FUNDADA DURANTE O VERÃO DE 1967 QUANDO JIMI HENDRIX PÔS FOGO NA SUA STRATOCASTER EM MONTEREY E DETONOU UMA REVOLUÇÃO NA GUITARRA ELÉTRICA. EM TRÊS DÉCADAS, DESDE AS CHAMAS SAGRADAS DE JIMI, MILHARES DE ÁLBUNS DE GUITARRAS FORAM LANÇADOS E, EMBORA MUITOS APENAS OSCILARAM POR UM MOMENTO NO OUVIDO DO PÚBLICO, OUTROS MARCARAM REGISTROS PERMANENTES NA CABEÇA DOS GUITARRISTAS.
SEIS EDITORES DA GP NORTE-AMERICANA - JOHNSTON, GORE, OBRECHT, ROTONDI, THOMPSON E ELLIS - VASCULHARAM AS SUAS MEMÓRIAS, COLEÇÕES DE DISCOS, NÚMEROS ATRASADOS E LIVROS DE REFERÊNCIAS PARA DESCOBRIR OS MELHORES DISCOS DE GUITARRA DOS ÚLTIMOS 30 ANOS. A PARTIR DAÍ, HOUVE UM GRANDE ESFORÇO PARA ESCOLHER O SINGLE MAIS IMPORTANTE E INFLUENTE PARA CADA ANO. "MISSÃO IMPOSSÍVEL", VOCÊ DIRIA? ANDY ELLIS CHEGOU A ARGUMENTAR CONTRA O CONCEITO JORNALÍSTICO DE COLOCAR UM SINGLE DE UM DISCO SOBRE OUTRO. NO ENTANTO, OS DEMAIS MEMBROS DA "COMISSÃO JULGADORA" DECIDIRAM INSISTIR NO CARA-OU-COROA INTELECTUAL E PROVÁVEL DILÚVIO DE CARTAS DO TIPO "COMO VOCÊS PUDERAM DEIXAR DE FORA...?", NA ESPERANÇA QUE AS ESCOLHAS POSSAM INSPIRAR OS GUITARRISTAS A BUSCAREM A MÚSICA ESSENCIAL. A SURPRESA, AO FINAL, FOI QUE A LISTA DOS ESCOLHIDOS COMBINA COM A ÊNFASE EDITORIAL DA GUITAR PLAYER NO QUE DIZ RESPEITO AO ECLETISMO. DOS RENEGADOS DAS CORDAS DE NYLON AOS FUSIONISTAS E PUNKS PRIMAIS, AS ESCOLHAS TOP E VICE-CAMPEÃS CONFRONTAM AS POSSIBILIDADES DO INSTRUMENTO COM UMA INDIVIDUALIDADE SEM COMPROMISSO.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

BOOTSY COLLINS, Sacerdote do Funk

Herdeiro de James Brown, comparsa de George Clinton, fã de Hendrix, o baixista toca hoje, no Sesc Pompeia

Lenda viva. Um dos últimos moicanos da geração que construiu a soul music
ROBERTO NASCIMENTO

A última vez que se ouviu falar de Bootsy Collins foi em 2011, quando o baixista lançou Tha Funk Capital of the World. Se serve de prévia para os três shows que o alto sacerdote do funk, o cara dos óculos galácticos e molejo perpétuo, faz no Sesc Pompeia, a partir de hoje, justificados estão os ingressos. O conceito cósmico pode soar datado; as batidas, uma mistureba de estilos de black music sem muita personalidade. Mas o balanço é incontestável. Com duas notas e um baterista econômico, Bootsy faz miséria. Sobre o palco da choperia, onde deve reler sucessos de sua passagem por duas das grandes bandas da história - os JBs de James Brown, e Parliament Funkadelic de George Clinton - assim como algumas do disco, não será diferente.
Bootsy é dos últimos moicanos da geração que construiu a soul music. A maioria de seus comparsas, aqueles que viram James Brown transformar o pop negro, está morta ou aposentada - para não falar dos que enlouqueceram com a quantidade de ácido tomada na época de sua segunda grande banda, o Parliament Funkadelic. Mas em Tha Funk Capital, Bootsy mostra-se um fiel guardião de uma herança brilhante, cósmica e inenarravelmente suingada.
Décadas depois de sua formação nos JBs, banda que estabeleceu os alicerces rítmicos para todo tipo de dance music a partir de então, Bootsy ainda retém a reverência pelo pai do soul.
Em JB - Still the Man, por exemplo, o baixista conta com a participação do reverendo Al Sharpton, figura próxima de James Brown, para um sincero speech de louvação ao cantor. Em entrevista ao apresentador Jools Holland, Bootsy disse sobre sua homenagem: "James Brown é o meu pai. Eu era moleque de rua, não tinha pai. Brown me adotou. Mas sempre senti que ele não estava satisfeito, como se eu não estivesse dando o meu melhor. Queria agradá-lo, mas pensava 'caramba, esse cara realmente não gosta de mim'", contou, antes de emendar: "Anos depois me contaram que ele se sentia responsável por mim, queria ser sério, e não sabia como controlar um moleque doido, solto na rua".
As gravações da época servem de atestado para o pulso firme de JB. Só Sex Machine e Super Bad já garantiriam a presença de Bootsy no cânone dos grandes. Mas estes são apenas o aperitivo. O legado de Brown e sua magistral banda contém aulas e mais aulas de precisão rítmica.
Mas não é só. Bootsy participou também da revolução afro-futurista de George Clinton, na década de 70, na qual tocaria em discos visionários e faixas essenciais, como Flashlight, para a estética do hip-hop, anos depois. A proposta cósmica do Funkadelic define a música de Bootsy até hoje. "Imagine uma orgia", contou o baixista, certa vez, ao Guardian, sobre os idos de George Clinton. "Muitas gatas e muita gente andando pelado - gente fazendo sexo por todos os cantos, todo mundo tomando LSD, fumando maconha, e ninguém tem medo de nada. Pense em qualquer coisa, e faça isto. E era assim antes do show, a caminho do show, durante o show, e depois do show. O circo era interminável", contou.
Na época, Bootsy tomou ácido todo dia, por dois anos, até que a sensação de estar vivendo em outro mundo o incomodou. Era a fase em que, além de George Clinton, Bootsy era intensamente influenciado por Jimi Hendrix. Até hoje, é um dos especialistas em memorabilia hendrixiana, tendo construído em sua casa algo que se aproxima a um santuário para o guitarrista.
No novo álbum, por sinal, Bootsy conseguiu que a família de Hendrix liberasse alguns samples vocais para que o músico as incorporasse a uma jam cósmica. "Hendrix era deus", disse ao jornal britânico. "Ainda é". CADERNO 2 (25/01/2013)

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