A REVISTA GUITAR PLAYER NORTE-AMERICANA FOI FUNDADA DURANTE O VERÃO DE 1967 QUANDO JIMI HENDRIX PÔS FOGO NA SUA STRATOCASTER EM MONTEREY E DETONOU UMA REVOLUÇÃO NA GUITARRA ELÉTRICA. EM TRÊS DÉCADAS, DESDE AS CHAMAS SAGRADAS DE JIMI, MILHARES DE ÁLBUNS DE GUITARRAS FORAM LANÇADOS E, EMBORA MUITOS APENAS OSCILARAM POR UM MOMENTO NO OUVIDO DO PÚBLICO, OUTROS MARCARAM REGISTROS PERMANENTES NA CABEÇA DOS GUITARRISTAS.
SEIS EDITORES DA GP NORTE-AMERICANA - JOHNSTON, GORE, OBRECHT, ROTONDI, THOMPSON E ELLIS - VASCULHARAM AS SUAS MEMÓRIAS, COLEÇÕES DE DISCOS, NÚMEROS ATRASADOS E LIVROS DE REFERÊNCIAS PARA DESCOBRIR OS MELHORES DISCOS DE GUITARRA DOS ÚLTIMOS 30 ANOS. A PARTIR DAÍ, HOUVE UM GRANDE ESFORÇO PARA ESCOLHER O SINGLE MAIS IMPORTANTE E INFLUENTE PARA CADA ANO. "MISSÃO IMPOSSÍVEL", VOCÊ DIRIA? ANDY ELLIS CHEGOU A ARGUMENTAR CONTRA O CONCEITO JORNALÍSTICO DE COLOCAR UM SINGLE DE UM DISCO SOBRE OUTRO. NO ENTANTO, OS DEMAIS MEMBROS DA "COMISSÃO JULGADORA" DECIDIRAM INSISTIR NO CARA-OU-COROA INTELECTUAL E PROVÁVEL DILÚVIO DE CARTAS DO TIPO "COMO VOCÊS PUDERAM DEIXAR DE FORA...?", NA ESPERANÇA QUE AS ESCOLHAS POSSAM INSPIRAR OS GUITARRISTAS A BUSCAREM A MÚSICA ESSENCIAL. A SURPRESA, AO FINAL, FOI QUE A LISTA DOS ESCOLHIDOS COMBINA COM A ÊNFASE EDITORIAL DA GUITAR PLAYER NO QUE DIZ RESPEITO AO ECLETISMO. DOS RENEGADOS DAS CORDAS DE NYLON AOS FUSIONISTAS E PUNKS PRIMAIS, AS ESCOLHAS TOP E VICE-CAMPEÃS CONFRONTAM AS POSSIBILIDADES DO INSTRUMENTO COM UMA INDIVIDUALIDADE SEM COMPROMISSO.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

CROSBY, STILLS, NASH & YOUNG, Caminhando & Cantando...

O disco que recupera uma turnê histórica de Crosby, Stills, Nash & Young confirma a potência da banda que encarnou o espírito contestatório dos anos 60 e 70

VELHA GUARDA - Da esquerda para a direita, Stephen Stills, Graham Nash e David Crosby em um show deste ano: talento e ego enormes
SÉRGIO MARTINS
Nova York

Era 8 de agosto de 1974 e o quarteto Crosby, Stills, Nash & Young se apresentava no Estádio Roosevelt, em Nova Jersey, quando o presidente americano Richard Nixon anunciou que renunciaria ao cargo no dia seguinte. Era o intervalo do show (o grupo, hoje reduzido ao trio Crosby, Stills & Nash, ainda faz questão dessa pausa), mas Graham Nash voltou ao palco para dar a notícia à plateia. "Eu me senti na obrigação de contar que Nixon estava indo embora", recorda ele, quarenta anos depois, em entrevista a VEJA. Infelizmente, o áudio do anúncio de Nash ficou de fora de CSNY 1974, uma caixa com CD e DVD que traz os melhores momentos da turnê daquele ano. Ainda assim, a caixa (no Brasil, disponível apenas em versão digital) é o retrato mais fiel do grupo que combinou a militância política e o discurso de amor livre dos hippies com o melhor do folk, do country e do rock americanos - um grupo cuja marca segue presente no rock que se faz hoje (veja abaixo).
Como tantos outros roqueiros entres as décadas de 60 e 70, Crosby, Stills, Nash & Young foram inflamados autores de canções de protesto, como Ohio, música-denúncia sobre quatro universitários mortos pela polícia durante protestos contra a Guerra do Vietnã na Universidade de Kent. A rebeldia de Nash vem de casa, ainda que nem sempre tenha tido coloração política: seu pai passou um ano na prisão porque se recusou a dizer de quem tinha comprado uma câmera fotográfica - que fora roubada. Nash usa termos altissonantes para definir seu grupo: "Somos descendentes de uma longa tradição de trovadores que denunciam as injustiças do mundo". Entre os tais trovadores que o influenciaram, cita o cantor folk Woody Guthrie (ídolo também de um certo Bob Dylan). A militância permanece. Em 2006, Crosby, Stills, Nash & Young excursionaram pelo país com a turnê Freedom of Speech, na qual protestavam contra a guerra no Iraque e pediam nada menos que o impeachment do então presidente George W. Bush. Três anos atrás, Graham Nash e David Crosby tocaram para os assentados do movimento Occupy Wall Street.
O trio reuniu-se em 1968, durante uma festa na casa de Joni Mitchell. Stephen Stills cantava You Don't Have to Cry, composição na qual estava trabalhando, e Graham Nash e David Crosby resolveram ajudar nas harmonias vocais. O resultado entusiasmou - e ali mesmo decidiram montar o grupo, que no ano seguinte estreava em disco. Em 1969, o cantor e guitarrista canadense Neil Young - que, como Stills, vinha do grupo Buffalo Springfield - juntou-se à trupe (até hoje, ele entra e sai regularmente da banda). "No início, fui contra a entrada dele. Young e Stills brigaram muito no Buffalo Springfield", lembra Nash. "Mas Young me disse que não existia uma dupla de guitarristas mais perfeita que os dois."
Não é preciso concordar com o programa político de Nash e companhia para admirar sua música. CSNY 1974 é o registro de uma das turnês mais vibrantes e espetaculares da história do rock. Em menos de dois meses na estrada, o quarteto fez 31 apresentações por 24 cidades americanas. Nash combinou quarenta músicas desse período num único CD. "O critério adotado foi a qualidade. Se não está no disco, é porque não trazia uma versão que atendia às minhas exigências", diz. A tarefa é mais difícil do que parece, pois os quatro músicos são conhecidos por serem irascíveis. "Somos talentosos e temos um ego enorme. Mas eu contornei essas questões porque sempre fui o mais político", diz Nash (e aqui "político" vai no sentido de "conciliador, disposto a negociar"). No mesmo dia da entrevista, Graham Nash e seus dois parceiros apresentaram parte do repertório do álbum no Beacon Theater, em Nova York. Em quase três horas de espetáculo, Crosby, Stills & Nash, já entrando na faixa dos 70 anos, desfilaram composições sobre amor, igualdade e idealismo hippie (Our House, que Nash fez para a então namorada Joni Mitchell) com a mesma inocência do trio que tocou no Festival de Woodstock, em 1969. Bom, a inocência hoje convive com uma certa amargura geracional: "Republicanos e democratas são a mesma porcaria", vociferou Crosby em um de seus momentos-solo.

...e seguindo a canção
O legado dos quatro hippies do Crosby, Stills, Nash & Young para a música pop

Harmonias vocais
Graham Nash diz que Crosby, Stills & Nash nasceu a partir da união vocal do trio na canção You Don't Have to Cry - a princípio cantada apenas por Stills. Ao lado da mistura de folk, rock e country, o casamento das três vozes (uma solo, outra na harmonia e a terceira cantando por cima da voz principal) se tornou a marca registrada do trio - mais tarde quarteto, com a inclusão do compositor, guitarrista e vocalista Neil Young. Uma receita que tem sido aproveitada, com resultados louváveis, por bandas como Mumford & Sons e Fleet Foxes.
Engajamento
O quarteto Crosby, Stills, Nash & Young surgiu nos Estados Unidos em um período conturbado. Não foram os únicos radicais de então, mas ajudaram a consolidar a imagem do roqueiro radical em canções como Ohio, sobre o assassinato de quatro estudantes por policiais na Universidade de Kent, em 1970. Em 2008, a banda excursionou pelos Estados Unidos para protestar contra a Guerra do Iraque. O estilo combativo pode ser percebido nas letras de bandas como Pearl Jam (cujos músicos nunca esconderam sua paixão por Neil Young) e Rage Against the Machine.
Supergrupo
O termo foi criado para definir bandas formadas por integrantes egressos de outros grupos consagrados. David Crosby era guitarrista e vocalista do The Byrds; Stephen Stills era um dos líderes do Buffalo Springfield (de onde saiu também Neil Young); e o inglês Graham Nash veio dos Hollies. Supergrupos são comuns no rock contemporâneo, como provam Chickenfoot, formado por ex-integrantes do Van Halen, por um membro do Red Hot Chili Peppers e pelo guitarrista Joe Satriani, e Them Crooked Vultures, que reúne gente do Led Zeppelin, Foo Fighters e Queens of the Stone Age. VEJA (17/9/2014)

Nenhum comentário:

Postar um comentário