A REVISTA GUITAR PLAYER NORTE-AMERICANA FOI FUNDADA DURANTE O VERÃO DE 1967 QUANDO JIMI HENDRIX PÔS FOGO NA SUA STRATOCASTER EM MONTEREY E DETONOU UMA REVOLUÇÃO NA GUITARRA ELÉTRICA. EM TRÊS DÉCADAS, DESDE AS CHAMAS SAGRADAS DE JIMI, MILHARES DE ÁLBUNS DE GUITARRAS FORAM LANÇADOS E, EMBORA MUITOS APENAS OSCILARAM POR UM MOMENTO NO OUVIDO DO PÚBLICO, OUTROS MARCARAM REGISTROS PERMANENTES NA CABEÇA DOS GUITARRISTAS.
SEIS EDITORES DA GP NORTE-AMERICANA - JOHNSTON, GORE, OBRECHT, ROTONDI, THOMPSON E ELLIS - VASCULHARAM AS SUAS MEMÓRIAS, COLEÇÕES DE DISCOS, NÚMEROS ATRASADOS E LIVROS DE REFERÊNCIAS PARA DESCOBRIR OS MELHORES DISCOS DE GUITARRA DOS ÚLTIMOS 30 ANOS. A PARTIR DAÍ, HOUVE UM GRANDE ESFORÇO PARA ESCOLHER O SINGLE MAIS IMPORTANTE E INFLUENTE PARA CADA ANO. "MISSÃO IMPOSSÍVEL", VOCÊ DIRIA? ANDY ELLIS CHEGOU A ARGUMENTAR CONTRA O CONCEITO JORNALÍSTICO DE COLOCAR UM SINGLE DE UM DISCO SOBRE OUTRO. NO ENTANTO, OS DEMAIS MEMBROS DA "COMISSÃO JULGADORA" DECIDIRAM INSISTIR NO CARA-OU-COROA INTELECTUAL E PROVÁVEL DILÚVIO DE CARTAS DO TIPO "COMO VOCÊS PUDERAM DEIXAR DE FORA...?", NA ESPERANÇA QUE AS ESCOLHAS POSSAM INSPIRAR OS GUITARRISTAS A BUSCAREM A MÚSICA ESSENCIAL. A SURPRESA, AO FINAL, FOI QUE A LISTA DOS ESCOLHIDOS COMBINA COM A ÊNFASE EDITORIAL DA GUITAR PLAYER NO QUE DIZ RESPEITO AO ECLETISMO. DOS RENEGADOS DAS CORDAS DE NYLON AOS FUSIONISTAS E PUNKS PRIMAIS, AS ESCOLHAS TOP E VICE-CAMPEÃS CONFRONTAM AS POSSIBILIDADES DO INSTRUMENTO COM UMA INDIVIDUALIDADE SEM COMPROMISSO.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

DAVID BOWIE, A Volta do Desbravador

Depois de vários LPs sem expressão, David Bowie forma o conjunto Tin Machine e retoma a linha de frente do rock

Bowie e o Tin Machine: canções curtas e ríspidas com o vigor do som dos anos 60
O mundo do rock tem se lamentado que David Bowie, nos últimos anos, anda chato. E logo quem. Desde que estourou para o sucesso em 1972 com o LP The Rise and Fall of Ziggy Stardust, esse cantor e compositor inglês, hoje com 42 anos, foi uma espécie de bússola do rock, antecipando tendências e apontando novas direções com suas ousadias. Como no LP Pin Ups, de 1973, em que previa a derrocada do rock sinfônico e a explosão do movimento punk, deflagrado quatro anos depois. Ou no LP Young Americans, de 1975, em que resgatava os ritmos da música negra e antecipava o som discothèque e a onda do funk. Ou ainda em LPs como Low e Heroes, do final dos anos 70, em que usava teclados eletrônicos de uma maneira que seria a base do rock new wave da década seguinte. Recentemente, em álbuns como Let's Dance, a usina de renovação de Bowie parecia estar sem combustível.
Agora, o mundo do rock pode comemorar a volta de David Bowie à linha de frente do gênero. Essa volta, com ares triunfais, é proporcionada pelo LP Tin Machine, que chega às lojas esta semana. Tin Machine é também o nome do grupo que Bowie montou em torno de si com os irmãos Tony e Hunt Sales, no baixo e na bateria, respectivamente, e com o guitarrista Reeves Gabrels. É a primeira vez que o compositor deixa de assinar um disco com seu nome e se coloca como mero integrante de um grupo. Embora, na prática, Bowie domine o disco como compositor e cantor, o fato de trabalhar com um grupo parece ter-lhe devolvido o entusiasmo pelo rock, pela inquietude e pela experimentação que o gênero guarda em sua origem. Tin Machine é um disco seco e direto como um balaço. Os rocks são curtos, ríspidos, às vezes dissonantes. As letras, com exceção das que ilustram baladas lentas, como Amazing, falam de racismo, violência e guerras, e nelas Bowie destila o melhor de sua ironia.
FÔLEGO - A volta de Bowie ao rock rude dos anos 60 não é um fenômeno isolado. A música pop parece estar entrando num período de ressaca da explosão dos teclados eletrônicos e dos recursos tecnológicos que marcaram o gênero ao longo dos anos 80. Delineia-se também um período de baixa para os astros com pose de porta de butique e ar de absoluto tédio da vida. Da mesma forma que o punk, embora de maneira radical, buscou nas origens do rock uma forma de renovação, o gênero tem optado hoje por uma simplificação na forma e no conteúdo. Essa tendência tem proporcionado também a volta às paradas de uma série de astros que nos últimos anos pareciam relegados às enciclopédias da música popular. Não por coincidência, alguns dos melhores discos que chegaram às lojas nos últimos meses foram assinados por nomes como George Harrison, Keith Richards e Lou Reed. A esse grupo, junta-se agora David Bowie, num dos grandes LPs de sua carreira.
Bowie já havia ensaiado uma volta à música dos anos 60 em seu penúltimo LP, Never Let Me Down, e nas canções que fez para a trilha sonora do filme Absolute Beginners - disponível no Brasil apenas em vídeo. Nesses discos, porém, o que se ouvia era um Bowie diluído, um som feito de encomenda para as paradas de sucessos, agradável e só. Em Tin Machine o que se ouve é uma banda energética e brilhante. Tony e Hunt Sales tocaram anteriormente com Iggy Pop, um outro precursor do punk. Reeves Gabrels é um dos melhores guitarristas surgidos nos últimos tempos, e por isso mesmo ganhou um espaço privilegiado nos arranjos, recheando todas as músicas com solos exuberantes.
A versatilidade dos músicos permite que Bowie voe alto e aterrisse com segurança em variados estilos. Heaven's in Here é um típico rock dos anos 60, composto sobre um compasso de doze tempos, característico do blues. A faixa título tem um delicioso vocal que remete aos primeiros tempos do rock. Há também uma brilhante recriação de Working Class Hero, de John Lennon, que junta o clima visceral da letra com um instrumental agressivo. O efeito é de tirar o fôlego. Nos últimos anos, Bowie parece ter se desinteressado da linha evolutiva que ele próprio inaugurou no rock. Atuou como ator em filmes como Furyo - Em Nome da Honra e Labirinto, compôs trilhas sonoras para cinema e, em seus próprios discos, produzia novos enfeites para velhas ideias. Com Tin Machine, o rock recupera um de seus compositores mais completos. VEJA (5/7/1989)

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