A REVISTA GUITAR PLAYER NORTE-AMERICANA FOI FUNDADA DURANTE O VERÃO DE 1967 QUANDO JIMI HENDRIX PÔS FOGO NA SUA STRATOCASTER EM MONTEREY E DETONOU UMA REVOLUÇÃO NA GUITARRA ELÉTRICA. EM TRÊS DÉCADAS, DESDE AS CHAMAS SAGRADAS DE JIMI, MILHARES DE ÁLBUNS DE GUITARRAS FORAM LANÇADOS E, EMBORA MUITOS APENAS OSCILARAM POR UM MOMENTO NO OUVIDO DO PÚBLICO, OUTROS MARCARAM REGISTROS PERMANENTES NA CABEÇA DOS GUITARRISTAS.
SEIS EDITORES DA GP NORTE-AMERICANA - JOHNSTON, GORE, OBRECHT, ROTONDI, THOMPSON E ELLIS - VASCULHARAM AS SUAS MEMÓRIAS, COLEÇÕES DE DISCOS, NÚMEROS ATRASADOS E LIVROS DE REFERÊNCIAS PARA DESCOBRIR OS MELHORES DISCOS DE GUITARRA DOS ÚLTIMOS 30 ANOS. A PARTIR DAÍ, HOUVE UM GRANDE ESFORÇO PARA ESCOLHER O SINGLE MAIS IMPORTANTE E INFLUENTE PARA CADA ANO. "MISSÃO IMPOSSÍVEL", VOCÊ DIRIA? ANDY ELLIS CHEGOU A ARGUMENTAR CONTRA O CONCEITO JORNALÍSTICO DE COLOCAR UM SINGLE DE UM DISCO SOBRE OUTRO. NO ENTANTO, OS DEMAIS MEMBROS DA "COMISSÃO JULGADORA" DECIDIRAM INSISTIR NO CARA-OU-COROA INTELECTUAL E PROVÁVEL DILÚVIO DE CARTAS DO TIPO "COMO VOCÊS PUDERAM DEIXAR DE FORA...?", NA ESPERANÇA QUE AS ESCOLHAS POSSAM INSPIRAR OS GUITARRISTAS A BUSCAREM A MÚSICA ESSENCIAL. A SURPRESA, AO FINAL, FOI QUE A LISTA DOS ESCOLHIDOS COMBINA COM A ÊNFASE EDITORIAL DA GUITAR PLAYER NO QUE DIZ RESPEITO AO ECLETISMO. DOS RENEGADOS DAS CORDAS DE NYLON AOS FUSIONISTAS E PUNKS PRIMAIS, AS ESCOLHAS TOP E VICE-CAMPEÃS CONFRONTAM AS POSSIBILIDADES DO INSTRUMENTO COM UMA INDIVIDUALIDADE SEM COMPROMISSO.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

SEX PISTOLS, Malcolm McLaren Convida O Funk Para Uma Valsa

Em entrevista ao Caderno 2, o multi-agitador cultural inglês que inventou os Sex Pistols anuncia sua volta, lança seu terceiro LP e uma nova dança - o "vogueing"

McLaren: "A música não lidera os modismos. Pintura e moda é que lançam as ideias"
EVA JOORY

Quatro anos de silêncio não mataram a criatividade do inventor do marketing da cultura punk - o inglês Malcolm McLaren. Aos 43 anos de idade, ele se prepara para lançar seu novo e terceiro LP, intitulado Waltz Darling. Em vez de triturar parodicamente o glam ou investir no hardcore, ele resolveu mostrar a qualidade revolucionária da valsa vienense e uni-la com o funk de James Brown. Uma espécie de tradução musical de um argumento elaborado por outro Mac, MacLuhan, em 1964, no livro Understanding Media. Para MacLuhan, a valsa representou a revolução burguesa na música de salão.
Em 1983, McLaren foi o primeiro a brincar com conceitos alheios. Casou música africana com o rap americano em seu LP Duck Rock. Logo depois, em 1984, aventurou-se no álbum Fans, pelo mundo da ópera, misturando-a com pop e hip hop. Mais do que ninguém, McLaren pode ser chamado de lançador de modas e precursor de tendências. Nos idos de 1975 abriu a loja mais famosa da era punk - a Sex - na rua mais agitada de Londres - a King's Road. Criou a moda do glam rock e virou empresário dos extintos New York Dolls. Inventou e organizou o grupo mais obsceno e radical dos anos 70 - os Sex Pistols - e pôs no mercado várias outras modas, como os piratas do Adam and the Ants e Bow Wow Wow, além da menor de idade - na época, começo dos anos 80 - Annabela Lwin.
De volta a Londres e sempre em posição de caça, McLaren acaba de fundir valsa, funk e house music. Com a ajuda do legendário Bootsy Collins, ex-baixista de James Brown, e do guitarrista Jeff Beck, ele mistura Strauss, Barry White, funk, Philadelfia soul, musicalidade de Detroit. Em entrevista ao Caderno 2, de Londres, por telefone, ele chamou a atenção para um novo estilo de dançar - o vogueing.
Caderno 2 - Vamos falar do seu novo LP. Como funciona essa fusão entre funk, valsa e house?
McLaren - O que eu queria fazer, quando gravei Fans, era uma maneira de gravar um disco europeu mais conservador. Uma maneira de introduzir novidades na música. Quando acabei, vi que estava realmente compondo música como um diretor de cinema. Como não toco nenhum instrumento, o que faço é achar novas fontes musicais e botá-las para funcionar junto. Mas percebi que o que gostaria mesmo de fazer, com esses tipos de ideias musicais, era cinema. Então fui morar em Hollywood. Lá tentei fazer cinema, mas as pessoas queriam que eu continuasse na música. Decidi então gravar um novo LP.
Caderno 2 - Qual é exatamente a proposta do disco?
McLaren - Esse disco surgiu de uma proposta que vendi para a companhia de Spielberg, baseada na ideia de que o rock'n'roll foi descoberto em 1860 e não em 1960. Em suma, mandei o rock de volta 100 anos. A ideia de fazer um filme de rock baseado no século passado agradou bastante, só que ninguém entendeu como soaria esse tipo de música. Então tive de inventar essa música. pensei que o ideal seria algo que viesse e fizesse parte desse período. E, naquela época, a valsa era a música da moda. Tive de achar um meio de introduzir a valsa dentro do rock'n'roll. Tentei me lembrar de quem seria o típico feiticeiro do ritmo: só podia ser James Brown. A ideia era James Brown encontrando Johann Strauss e como fazê-la funcionar. Escolhi a banda de James Brown, para trabalhar comigo em Detroit. Antes disso, gravei em Londres no Abbey Road Studios todas as valsas com a Royal Philarmonica Orchestra: gravei fragmentos e pequenos movimentos e segui para Detroit para tentar escrever as músicas.
Caderno 2 - Você foi um dos primeiros, em 1988, a misturar música africana com hip hop, rap e ópera. Você se considera um lançador de modas?
McLaren - Sim. De fato, as pessoas me veem como um lançador de modas. Mas, neste terceiro LP, desenvolvi um estilo que é o de não ter um estilo. Talvez porque eu venha do mundo da moda, do mundo da pintura e das artes visuais; isso faz com que as pessoas estejam sempre à frente. As pessoas pensam que a música lidera os modismos, que é o começo de tudo. Mas é o contrário: moda e pintura lançam as ideias. Se você é uma artista visual, está sempre nas ruas tentando descobrir o que acontece, a sua antena é muito maior. Se você é músico, porém, sua tendência é se concentrar unicamente no seu instrumento. Não creio que os músicos estejam atentos ao que acontece lá fora tanto quanto os artistas visuais. Quando faço música, visualizo mais longe que muitos músicos, porque presto atenção no que acontece nas ruas: eles escutam, eu olho. Faço meus discos de uma maneira mais visual, e frequentemente as pessoas os comparam com filmes ou pinturas. Acho que é uma boa analogia. Talvez por não tocar nenhum instrumento uso a música como cores numa palheta. Assim, consigo captar as diversas tendências musicais e juntá-las como se fossem um quebra-cabeça. Quando não escrevo a música escrevo um menu com todos os ingredientes e chamo os músicos para "preparar a comida".
Caderno 2 - Este disco foi um projeto muito ambicioso? Você demorou quantos anos para gravá-lo? 
McLaren - Estava muito apaixonado naquela época e frequentemente parava de trabalhar. Isso foi um dos motivos. O outro foi a dificuldade técnica que muitos músicos tiveram para entender essa proposta, e muitos falharam.
Caderno 2 - Waltz Darling é um disco bastante dançável. Você se influenciou pela atmosfera disco da Europa, como Ibiza, pelos balearic beats e pelos house balls americanos? E até por Barry White?
McLaren - Você não pode deixar de se influenciar por tudo isso. Está em toda parte. Eu queria manter essa sensação e, ao mesmo tempo, retomar aquela antiga sensação romântica. Gosto da ideia de discos que fazem as pessoas sonhar quando dançam. Por isso coloquei a figura de uma jovem dormindo, sonhando, na capa do LP, tirada do século XIX. E, claro, Barry White foi uma enorme influência, porque ele é extremamente romântico.
Caderno 2 - Está satisfeito com o resultado?
McLaren - É um bom começo, e o disco foi muito bem recebido pela crítica. Devo estar no caminho certo. Mais uma vez trata-se de uma tentativa de captar o clima do momento, o que as pessoas desejam da música neste momento. Tem muito a ver com sonhar, trazer de volta o passado. Mais do que nunca, queremos ideias culturais diferentes nas músicas.
Caderno 2 - Então para você o futuro da música é este, uma mistura de estilos e épocas?
Jeff Beck
McLaren - Basicamente, devemos nos convencer que o rock'n'roll não começa em 1950. Vamos trazer de volta o século passado. Tudo já foi incorporado pela música, sejam ritmos latino-americanos, africanos ou asiáticos. Então, por que não incorporar a música europeia do século XIX? Tudo pode ser cultura pop, depende da maneira que for apresentada. Meu próximo LP, que começa a ser gravado dentro de três semanas, é inspirado na música latino-americana: salsa, mais precisamente, misturada com ideias e sons distintamente europeus. Mas é difícil de explicar.
Caderno 2 - O que vem a ser o vogueing?
McLaren - Vogueing é a dança da moda originária de Nova York, tenta-se imitar as poses das modelos saídas da revista Vogue ou o jeito de desfilar das manequins. Ilustro meu vídeo Deep in Vogue com essa dança, porque é bastante elegante e charmosa, parece ser antiga.
Caderno 2 - Neste LP, você trabalha com Bootsy Collins, Jeff Beck e Dave Stewart do Eurythmics. Como foram esses encontros e esse trabalho?
McLaren - Como você sabe, Bootsy Collins tocava baixo na banda do James Brown. Foi ótimo trabalhar com ele, pois ele tem um senso de ritmo fabuloso. O que eu queria mesmo era mesclar valsa com música latina, mas não consegui ir mais longe que Detroit, e lá não há músicos latinos. Escolhi Jeff Beck porque não consegui pensar em um guitarrista de rock mais típico. Achei que seria um excelente casamento com a valsa. E foi mesmo. Bootsy criou os ritmos de Barry White, Jeff Beck criou o som californiano da surf music, e eu usei a valsa da Viúva Alegre de Lehar para criar a melodia. Dave Stewart é um grande admirador meu. Este LP foi escrito inicialmente para a voz de Annie Lennox, mas ela estava de férias. Em compensação, descobri as excelentes cantoras anônimas com India, Lourdes e Pretty Fat.
Caderno 2 - Você deixou Hollywood de vez?
McLaren - Sim, não aguentei muito tempo. Hollywood é como um hotel gigante: pessoas indo e vindo e você nunca sabe quem mora ao lado, estão sempre de mudança. Na Europa, as coisas duram um pouco mais. No momento quero morar em Madri.
Caderno 2 - Você sente falta da época punk?
McLaren - Não, nem um pouco. Acho que foi maravilhoso, adorei ter participado. Mas quando se termina uma tela, a gente começa outra. Mas não faria nada de maneira diferente: ainda sou meio punk, meio anárquico no jeito que uso música. A atitude é a mesma, ainda não sou músico.
Caderno 2 - Neste LP você canta mais. Você gosta de cantar?
McLaren - Estou melhorando a cada vez (risos). No próximo disco deverei fazer mais esforços nessa área. A gravadora decidiu que seria mais fácil se eu cantasse, só assim as pessoas ficariam sabendo de quem é o disco!
Caderno 2 - Finalizando, qual sua ambição?
McLaren - Apaixonar-me de novo e ser feliz. É o mais importante. Você não aproveita a vida e as coisas se não estiver apaixonado. 

Strauss se casa com James Brown em Waltz Darling

Waltz Darling, o novo disco de Malcolm McLaren, levou dois anos para ser gravado e passeou entre Londres e Detroit em diversas sessões de estúdio. O disco chegará às lojas brasileiras em setembro, encurtando ainda mais a diferença entre lançamento nacional e internacional. McLaren sempre teve projetos ambiciosos, mas, desta vez, atinge o limite de uma aparente insanidade: pretende misturar funk com valsa e promover um encontro utópico entre James Brown, o rei do funk, e Johannes Strauss, o rei da valsa.
Ele nunca aceitou o convencionalismo do rock'n'roll. Trabalhou mercadologicamente o movimento punk no fim dos anos 70 e chegou até a pensar em ópera. Para celebrar o casamento entre o funk e a valsa, ele chamou o baixista Bootsy Collins, ex-integrante da banda de James Brown, os guitarristas Jeff Beck e Dave Stewart. Procurou cantoras desconhecidas e encontrou vozes perfeitas. Finalmente, gravou as valsas com a Orquestra Filarmônica Real de Londres. Resultado? O disco Waltz Darling, uma colagem de melodias e vozes indianas, chinesas, japonesas, fragmentos de riffs de rock de garagem, trechos de valsa e rap. Darling, wa wa waltz with me, canta no rap introdutório.
Logo depois, a faixa House of the Blue Danube mistura, como o título deixa claro, a famosa valsa de Strauss com house music. Uma associação tão excêntrica quanto dançável. E, de excentricidade em excentricidade, McLaren chega aonde quer. O primeiro single tirado do LP, Deep in Vogue, por exemplo, está lançando nos Estados Unidos e Europa a moda do vogueing, uma dança baseada em movimentos simétricos e sensuais que tentam imitar os das modelos das revistas de moda e das passarelas. "O vogueing faz com que as pessoas se sintam rainhas do glamour", explica. O single em 12 polegadas foi remixado por Mark Moore, líder do grupo S'Express, o mago da acid music inglesa.
O disco inteiro lembra um coquetel dançante. Faixas como Jumping in my Shirt podem arrasar nas pistas. O que não impede McLaren de imitar o romântico Barry White em I Call a Wave. Waltz Darling é uma suinvaganza musical típica daquele que merece o título de eminência ruiva do pop. CADERNO 2 (1º/8/19989)

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