A REVISTA GUITAR PLAYER NORTE-AMERICANA FOI FUNDADA DURANTE O VERÃO DE 1967 QUANDO JIMI HENDRIX PÔS FOGO NA SUA STRATOCASTER EM MONTEREY E DETONOU UMA REVOLUÇÃO NA GUITARRA ELÉTRICA. EM TRÊS DÉCADAS, DESDE AS CHAMAS SAGRADAS DE JIMI, MILHARES DE ÁLBUNS DE GUITARRAS FORAM LANÇADOS E, EMBORA MUITOS APENAS OSCILARAM POR UM MOMENTO NO OUVIDO DO PÚBLICO, OUTROS MARCARAM REGISTROS PERMANENTES NA CABEÇA DOS GUITARRISTAS.
SEIS EDITORES DA GP NORTE-AMERICANA - JOHNSTON, GORE, OBRECHT, ROTONDI, THOMPSON E ELLIS - VASCULHARAM AS SUAS MEMÓRIAS, COLEÇÕES DE DISCOS, NÚMEROS ATRASADOS E LIVROS DE REFERÊNCIAS PARA DESCOBRIR OS MELHORES DISCOS DE GUITARRA DOS ÚLTIMOS 30 ANOS. A PARTIR DAÍ, HOUVE UM GRANDE ESFORÇO PARA ESCOLHER O SINGLE MAIS IMPORTANTE E INFLUENTE PARA CADA ANO. "MISSÃO IMPOSSÍVEL", VOCÊ DIRIA? ANDY ELLIS CHEGOU A ARGUMENTAR CONTRA O CONCEITO JORNALÍSTICO DE COLOCAR UM SINGLE DE UM DISCO SOBRE OUTRO. NO ENTANTO, OS DEMAIS MEMBROS DA "COMISSÃO JULGADORA" DECIDIRAM INSISTIR NO CARA-OU-COROA INTELECTUAL E PROVÁVEL DILÚVIO DE CARTAS DO TIPO "COMO VOCÊS PUDERAM DEIXAR DE FORA...?", NA ESPERANÇA QUE AS ESCOLHAS POSSAM INSPIRAR OS GUITARRISTAS A BUSCAREM A MÚSICA ESSENCIAL. A SURPRESA, AO FINAL, FOI QUE A LISTA DOS ESCOLHIDOS COMBINA COM A ÊNFASE EDITORIAL DA GUITAR PLAYER NO QUE DIZ RESPEITO AO ECLETISMO. DOS RENEGADOS DAS CORDAS DE NYLON AOS FUSIONISTAS E PUNKS PRIMAIS, AS ESCOLHAS TOP E VICE-CAMPEÃS CONFRONTAM AS POSSIBILIDADES DO INSTRUMENTO COM UMA INDIVIDUALIDADE SEM COMPROMISSO.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

GEORGE CLINTON, Setentão do Groove

Rei da psicodelia dançante é um dos destaques do festival que começa hoje

Carnaval. George Clinton (à direita) chega com sua trupe colorida
ROBERTO NASCIMENTO

O DNA da música negra contemporânea estará à mostra durante três dias a partir de hoje, na Arena Anhembi, onde quatro décadas de afro revolucionários sobem aos palcos, cada um com sua receita para o denominador comum da música popular ocidental, o groove. Talvez o mais influente desta lista (que inclui Lee "Scratch" Perry, Jorge Ben e Public Enemy) seja George Clinton, o insaciavelmente sampleado rei da psicodelia dançante, que define grande parte da sonoridade do funk dos anos 70 e do hip hop dos anos 80 e além. O show de sua trupe, o carnavalesco Parliament Funkadelic, versão atualizada de suas bandas das décadas de 60 e 70, é acompanhado de um marco: seus 70 anos. Será, como outras apresentações da banda por aqui nesta década, um desfile de hits que mesclam sonoridades experimentais e refrões que já atingiram status de hinos (Bring the Funk, Flashlight) sobre a sólida pulsação do funk.
Aos 70 anos, o impacto de George Clinton em quatro décadas de música popular só perde para o de James Brown, cujo cubismo sonoro serviu literalmente de alicerce para as experimentações do Parliament e do Funkadelic nos anos 70, pois o músico contratou boa parte dos instrumentistas de Brown, incluindo o genial baixista William "Bootsy" Collins. No palco, George opera mais como técnico do que músico para o grupo, que sempre incluiu de 12 a 15 integrantes: ele canta, mas tem apoio vocal, toca teclado, mas tem um tecladista. Antes de desmanchar a banda e seguir carreira solo, nos anos 80, a banda operava como um coletivo em que nenhum membro era o centro das atenções. Se George chamava atenção com seus adereços bizarros, ele a dividia com os óculos em formato de estrela de Bootsy, com as fraldas que o guitarrista Garry Shider, que morreu no ano passado, usava no palco.
A história da banda começou nos anos 60, quando George Clinton trabalhava em uma barbearia e formou um grupo de doo wop chamado The Parliaments. Clinton pegou gosto pelas harmonizações e chegou a trabalhar na Motown como compositor durante a mesma década.
Influenciado pelas inovações rítmicas que James Brown fez nos anos 60, transformando o soul em algo cru, despindo-o de qualquer adereço que velasse sua sexualidade, George começou a elaborar sobre a batida hoje conhecida como funk. As experimentações de Jimi Hendrix e o sentido coletivo de Sly Stone deram as diretrizes sobre o que George faria com o ritmo: o manteria contagiante enquanto abriria espaço para experiências com sintetizadores e guitarras psicodélicas sobre o groove. O visual da banda também seria fundamental e sua fase afro futurista, do final dos anos 70, tem influência até os dias de hoje em artistas como Janelle Monáe, que fez sucesso no ano passado com o hit Tightrope.
O sucesso do Funkadelic, cujo lineup incluiu muitos dos músicos da primeira banda de George Clinton e estaria sempre em transição, chegou no meio da década de 70, embora  a discografia que antecede o disco One Nation Under a Groove, que trazia os hits Flashlight e Aqua Boogie, seja tão importantes quanto. O disco Maggot Brain, de 1971, primeiro com a participação de Bootsy Collins, tem suas inimitáveis linhas de baixo, assim como o histórico solo de guitarra de Eddie Hazel na faixa título, que renderia ao músico seguidores em todos os shows da banda até esta década. O fanatismo chegou a ser algo parecido com o que o Grateful Dead de Jerry Garcia conseguiria nos anos 90, em que uma base de neo hippies seguia a banda pelos Estados Unidos. Quando Garcia morreu, em 1996, muitos de seus seguidores passaram a fazer caravanas para as turnês de George Clinton.
No início dos anos 80, George deixou as bandas para embarcar em carreira solo, gravando ótimos discos como Computer Games, de 1982. Houve diversas reuniões das duas bandas, os Parliaments e o Funkadelic sob o nome de P-Funk All Stars durante os anos 80 e 90, com a participação de Bootsy. O show de hoje pode trazer um Clinton abalado, devido a uma recente infecção que o obrigou a ser internado por alguns dias. De acordo com uma resenha do respeitado Times-Picayune, jornal de Nova Orleans, o artista ficou boa parte do show deste fim de semana sentado e, quando cantou, estava rouco. Mesmo assim, de acordo com a autora, a pulsação da banda estava em dia e garantiu a noite. George toca às 2h30 da madrugada de sábado. CADERNO 2 (22/7/2011)

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