A REVISTA GUITAR PLAYER NORTE-AMERICANA FOI FUNDADA DURANTE O VERÃO DE 1967 QUANDO JIMI HENDRIX PÔS FOGO NA SUA STRATOCASTER EM MONTEREY E DETONOU UMA REVOLUÇÃO NA GUITARRA ELÉTRICA. EM TRÊS DÉCADAS, DESDE AS CHAMAS SAGRADAS DE JIMI, MILHARES DE ÁLBUNS DE GUITARRAS FORAM LANÇADOS E, EMBORA MUITOS APENAS OSCILARAM POR UM MOMENTO NO OUVIDO DO PÚBLICO, OUTROS MARCARAM REGISTROS PERMANENTES NA CABEÇA DOS GUITARRISTAS.
SEIS EDITORES DA GP NORTE-AMERICANA - JOHNSTON, GORE, OBRECHT, ROTONDI, THOMPSON E ELLIS - VASCULHARAM AS SUAS MEMÓRIAS, COLEÇÕES DE DISCOS, NÚMEROS ATRASADOS E LIVROS DE REFERÊNCIAS PARA DESCOBRIR OS MELHORES DISCOS DE GUITARRA DOS ÚLTIMOS 30 ANOS. A PARTIR DAÍ, HOUVE UM GRANDE ESFORÇO PARA ESCOLHER O SINGLE MAIS IMPORTANTE E INFLUENTE PARA CADA ANO. "MISSÃO IMPOSSÍVEL", VOCÊ DIRIA? ANDY ELLIS CHEGOU A ARGUMENTAR CONTRA O CONCEITO JORNALÍSTICO DE COLOCAR UM SINGLE DE UM DISCO SOBRE OUTRO. NO ENTANTO, OS DEMAIS MEMBROS DA "COMISSÃO JULGADORA" DECIDIRAM INSISTIR NO CARA-OU-COROA INTELECTUAL E PROVÁVEL DILÚVIO DE CARTAS DO TIPO "COMO VOCÊS PUDERAM DEIXAR DE FORA...?", NA ESPERANÇA QUE AS ESCOLHAS POSSAM INSPIRAR OS GUITARRISTAS A BUSCAREM A MÚSICA ESSENCIAL. A SURPRESA, AO FINAL, FOI QUE A LISTA DOS ESCOLHIDOS COMBINA COM A ÊNFASE EDITORIAL DA GUITAR PLAYER NO QUE DIZ RESPEITO AO ECLETISMO. DOS RENEGADOS DAS CORDAS DE NYLON AOS FUSIONISTAS E PUNKS PRIMAIS, AS ESCOLHAS TOP E VICE-CAMPEÃS CONFRONTAM AS POSSIBILIDADES DO INSTRUMENTO COM UMA INDIVIDUALIDADE SEM COMPROMISSO.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

MORGANA LEFAY, A Santa Inquisição & Novo Cenário Metálico Nórdico

FERNANDO SOUZA FILHO

Ouvir o grupo sueco Morgana Lefay é um exercício de bom gosto para qualquer ouvido iniciado no heavy tradicional. Os riffs fortes entrecortados pelas batidas pesadas e vocais rasgadões, formam uma tríade perfeita para os apreciadores de um bom heavy inteligente.
Formado por Charles Rytkönen (vocal), Tony Eriksson (guitar), Joakim Heder (baixo), Daniel Persson (guitarra) e Jonas Söderlind (bateria), o Morgana Lefay é uma prova viva de que a Escandinávia está se tornando o novo centro irradiador do heavy tradicional, na mesma proporção em que a Alemanha vai perdendo este posto. Do primeiro trabalho da banda, Symphony for the Damned (lançamento independente que só saiu na Suécia), até o novo disco do conjunto, Maleficium, o quinteto só vem confirmando seu talento.
Maleficium é conceitual e trata das perversidades cometidas pela famigerada Inquisição medieval. Um disco fantástico.
Da redação da BRIGADE, batemos um fio direto para a gélida Suécia para conversar com o vocalista Charles Rytkönen, que  descansava da turnê que a banda completou ao lado do Gamma Ray pela Europa.

ROCK BRIGADE - Maleficium é um disco conceitual que fala de algumas das atrocidades cometidas pela Santa Inquisição... Por que vocês escolheram este tema?
CHARLES RYTKÖNEN - Antes de mais nada, esse assunto é muito interessante, tem muitas nuances que podem ser exploradas. A Idade Média foi uma era de trevas e a Santa Inquisição foi muito mais maléfica à humanidade do que as próprias pessoas que eles acusavam de serem malignas. Os cristãos daquela época contribuíram com boa dose de crueldade para as trevas que cobriram o mundo naqueles dias.
RB - Vocês souberam retratar aquela hipocrisia toda de forma bastante poética nesse álbum...
RYTKÖNEN - Nossa ideia era passar uma mensagem de que essas formas antiquadas de praticar a religião são inócuas e, muitas vezes, extremamente, cruéis.
RB - O título do álbum seria então o adjetivo com a qual vocês conceituariam a Santa Inquisição?
RYTKÖNEN - Exato. "Maleficium" é uma palavra que vem do latim e que serve para designar algo realmente maligno. Esse é o nosso conceito da Inquisição.
RB - No final do ano passado, o cardeal Joseph Ratzinger, da Sagrada Congregação Para a Doutrina da Fé, do Vaticano, disse que o rock é algo maligno para a alma humana. No entanto, a instituição que ele preside é justamente a mesma que se chamava Santa Inquisição, na Idade Média. O que você achou dessa declaração?
RYTKÖNEN - [irritado] Ele não tem a menor ideia sobre o que está falando! Como ele pode dizer que o rock'n'roll faz mal para as pessoas? O que ele tem na cabeça? A música eleva o espírito, faz as pessoas se sentirem bem. Se a música não faz bem para alguém específico, a culpa não é da música. Por que não ver os problemas pessoais dessa pessoa antes de acusar uma música de maléfica?
RB - As torturas, crueldades e injustiças promovidas pela Inquisição medieval é que certamente foram algo maligno para a alma...
RYTKÖNEN - É claro! Na minha opinião, não havia bruxas nem hereges na Idade Média. O que havia era interesses políticos de determinados clérigos que usavam a religião para manter o povo dominado. A religião era apenas uma arma para manipular as pessoas através do medo. O homem comum daquela época era aterrorizado com a ideia de inferno que a Igreja passava.
RB - Você acha que heavy metal e religião são uma boa mistura?
RYTKÖNEN - Sim, não vejo problema nenhum em misturar os dois. O heavy metal permite ao músico se expressar de formas infinitas. Você pode ser muito pesado, sombrio, triste, alegre, poderoso, melancólico etc. Combinando esses sentimentos com uma letra forte, você pode ter uma combinação que funciona muito bem.
RB - Aí mesmo nos países nórdicos, há algum tempo, houve uma grande polêmica envolvendo grupos de black metal noruegueses que levaram a mistura com a religião aos extremos, chegando mesmo a cometer crimes [assassinatos de homossexuais, incêndios a igrejas etc.]. Sob esse aspecto, a mistura do rock com religião foi extremamente desfavorável à música. Como você vê esse fato?
RYTKÖNEN - Isso foi muito ruim. Tudo que eles conseguiram foi arruinar a imagem do heavy metal. Eles se apegaram ao rótulo black metal para justificar seus atos, mas tudo que conseguiram transparecer foi que são muito ingênuos. O que eles fizeram não tem nada a ver com música, foi crime puro e simples.
RB - Além disso, eles pregavam ideias neonazistas, que não combinavam com o heavy.
RYTKÖNEN - Só posso dizer uma coisa para esse tipo de gente: Acordem! Coloquem seus pés no chão!
RB - Como foi o processo de escolha da belíssima ilustração da capa de Maleficium?
RYTKÖNEN - Nós pegamos as ideias básicas do álbum e procuramos imaginar uma ilustração que as representassem. Levamos a ideia para Kristian Wahlin [ilustrador] e ele fez a pintura para nós.
RB - As faixas de Maleficium são de uma homogeneidade ímpar. Vocês gravaram os instrumentos todos de uma só vez?
RYTKÖNEN - [rindo] Já nos perguntaram isso antes, mas nós não gravamos tudo de uma vez. Primeiro nós gravamos a bateria, arrumamos os defeitos e partimos para gravar o baixo e as guitarras. No final, ficaram os solos e o vocal. É o processo usual, não há nada de especial. Apenas, de alguma forma, soou diferente.
RB - Com os álbuns anteriores, o Morgana Lefay conseguiu uma boa repercussão nos EUA, o que não é muito comum para uma banda de heavy metal hoje em dia. Maleficium também conquistou os americanos?
RYTKONEN - Para ser sincero, eu não sei. O que acontece é que na Inglaterra, por exemplo, eles nos ouvem e dizem: "É uma banda legal, mas eles não são ingleses". Mas nos EUA isso não acontece muito, pois o público está mais interessado na música.
RB - Bem, tradicionalmente, o público americano está mais interessado em moda do que em música...
RYTKÖNEN - Isso não nos afeta muito porque jamais seguiremos a moda. Nós odiamos qualquer tipo de moda. O heavy metal que tocamos é o que sai do fundo de nossos corações. Nós amamos o estilo que fazemos. Os grupos que mudam seu som de acordo com a moda acabam ficando perdidos, sem personalidade. O tipo de heavy metal que fazemos é o que nós adoramos. Se ele está na moda ou não, nós não damos a mínima. Se fizer sucesso nos EUA, ótimo. Se não fizer, não vamos mudar nosso estilo por causa disso!
RB - Apesar do estilo pesado, vocês fizeram um cover para Voulez-Vous, do grupo pop ABBA, na coletânea Past, Present, Future [lançada em 1995]. Vocês escolheram essa música porque o ABBA é seu conterrâneo ou vocês realmente gostam do trabalho deles?
RYTKÖNEN - [rindo] O ABBA tem muitas músicas legais, não temos nada contra eles. No início, tirávamos esse cover só de brincadeira, pois eles também são suecos e o mundo inteiro os conhece. Mas a gravação ficou legal e acabamos deixando no CD. Os fãs têm aprovado a nossa versão pesada. ROCK BRIGADE  (01/1997)

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