A REVISTA GUITAR PLAYER NORTE-AMERICANA FOI FUNDADA DURANTE O VERÃO DE 1967 QUANDO JIMI HENDRIX PÔS FOGO NA SUA STRATOCASTER EM MONTEREY E DETONOU UMA REVOLUÇÃO NA GUITARRA ELÉTRICA. EM TRÊS DÉCADAS, DESDE AS CHAMAS SAGRADAS DE JIMI, MILHARES DE ÁLBUNS DE GUITARRAS FORAM LANÇADOS E, EMBORA MUITOS APENAS OSCILARAM POR UM MOMENTO NO OUVIDO DO PÚBLICO, OUTROS MARCARAM REGISTROS PERMANENTES NA CABEÇA DOS GUITARRISTAS.
SEIS EDITORES DA GP NORTE-AMERICANA - JOHNSTON, GORE, OBRECHT, ROTONDI, THOMPSON E ELLIS - VASCULHARAM AS SUAS MEMÓRIAS, COLEÇÕES DE DISCOS, NÚMEROS ATRASADOS E LIVROS DE REFERÊNCIAS PARA DESCOBRIR OS MELHORES DISCOS DE GUITARRA DOS ÚLTIMOS 30 ANOS. A PARTIR DAÍ, HOUVE UM GRANDE ESFORÇO PARA ESCOLHER O SINGLE MAIS IMPORTANTE E INFLUENTE PARA CADA ANO. "MISSÃO IMPOSSÍVEL", VOCÊ DIRIA? ANDY ELLIS CHEGOU A ARGUMENTAR CONTRA O CONCEITO JORNALÍSTICO DE COLOCAR UM SINGLE DE UM DISCO SOBRE OUTRO. NO ENTANTO, OS DEMAIS MEMBROS DA "COMISSÃO JULGADORA" DECIDIRAM INSISTIR NO CARA-OU-COROA INTELECTUAL E PROVÁVEL DILÚVIO DE CARTAS DO TIPO "COMO VOCÊS PUDERAM DEIXAR DE FORA...?", NA ESPERANÇA QUE AS ESCOLHAS POSSAM INSPIRAR OS GUITARRISTAS A BUSCAREM A MÚSICA ESSENCIAL. A SURPRESA, AO FINAL, FOI QUE A LISTA DOS ESCOLHIDOS COMBINA COM A ÊNFASE EDITORIAL DA GUITAR PLAYER NO QUE DIZ RESPEITO AO ECLETISMO. DOS RENEGADOS DAS CORDAS DE NYLON AOS FUSIONISTAS E PUNKS PRIMAIS, AS ESCOLHAS TOP E VICE-CAMPEÃS CONFRONTAM AS POSSIBILIDADES DO INSTRUMENTO COM UMA INDIVIDUALIDADE SEM COMPROMISSO.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

ALICE IN CHAINS, Grupo Põe O Pé Frio Na Estrada

Atração do Hollywood Rock em janeiro, o grupo Alice in Chains trabalha intensamente para superar a má fase, que deixou marca até no pé esmagado do vocalista Layne Staley num acidente

Alice in Chains: "Muitas bandas parariam mesmo na hora, mas nós continuamos"
JEFFREY RESSNER
Rolling Stone

Os chicotes batem duro na Basement de Dallas, um clube underground no qual a última noite de cada semana é celebrada com o nome de Domingo Sádico. Nesta peculiar noite de outubro, várias "dominadoras" de corpo pintado açoitam as costas descobertas de um freguês e cravam as unhas nos ombros dele. Então, derramam vinagre sobre as feridas, e depois espalham mel e penas na parte superior de seu torso. À pouca distância dali, assistindo a tudo isso, está sentado Layne Staley, de 25 anos, o encrencado e enigmático vocalista da banda de hard rock Alice in Chains, de Seattle. Ele está bêbado até a raiz dos cabelos, rindo, tentando tomar parte na ação, enquanto suporta, ele mesmo, uma dor bem real.
Staley, cujo vocal é responsável em grande parte pelo som sombrio do Alice, está engessado desde setembro, quando esmagou o próprio pé num acidente com um veículo atrás do palco, num show em Oklahoma. "Meu pé está totalmente estropiado, segurado por pinos", disse o cantor mais tarde. Staley visitou um especialista em ortopedia, que trabalha com um time de basquete, o Seattle Supersonics. O acidente não poderia ter vindo em hora pior: só recentemente o cantor conseguiu se livrar das drogas, e o álbum mais forte do Alice, Dirt, só conseguiu um sexto lugar no ranking da Billboard. Em Dallas, executando uma canção que fala sobre heroína, God Smack, Staley gira numa cadeira de rodas, sacudindo o microfone com se fosse a seringa de algum junkie. Não há, é claro, nenhum simbolismo oculto.
"Eu gosto muito do efeito da cadeira de rodas", diz o baixista Mike Starr, 26 anos. "De algum modo, ela faz Staley parecer mais... maligno". O baterista da banda, Sean Kinney, de 26 anos, vê a determinação de Staley em se apresentar logo depois de um grave acidente como um sinal da força do Alice. "Staley não quebrou a voz, e não dá chutes nem faz movimentos de dança", diz Kinney. "Muitas bandas teriam parado na mesma hora, mas nós continuamos fazendo excursões".
De fato, o trabalho intenso tem sido um fator chave na ascensão do Alice in Chains. O grupo surgiu em 1990 com o álbum Facelift: a faixa Man in the Box ganhou o prêmio Grammy e o da MTV, no ano passado. Antes de gravar Dirt, o grupo continuou trabalhando, com o EP Sap e com uma participação no filme Singles, de Cameron Crowe. Embora o estilo "pesadelo" do Alice possa ter parecido esquisito nos tons doces de Singles, o carismático guitarrista da banda, Jerry Cantrell, de 26 anos, gostou do filme. "Ele toca em algumas emoções e sentimentos muito profundos, e isso é o que nós também fazemos", afirma. "Não é porque tocamos um certo tipo de música que eu não vou apreciar outros, mesmo que com sentimentos mais leves".
Com Would como carro chefe, Dirt chegou às lojas na mesma semana que a trilha sonora de Singles. O álbum de estreia do Pearl Jam também atingiu o Top Ten, seguindo os assaltos mais recentes ao ranking, feitos pelo Nirvana e pelo ressurgido Temple of the Dog. Esses trunfos podem representar concorrência forte, mas "cada banda tem sua própria alma", diz Cantrell. "Nós todos tocamos rock, portanto há uma identidade comum. Mas as bandas são diferentes, a nossa é mais introspectiva, Pearl Jam é cheia de vida e vigor, e por aí vai. Claro, essas são só classificações que estou tirando da minha cabeça. Mas mesmo que eu não possa apontar exatamente as diferenças individuais, elas estão lá".
O Alice in Chains foi formado no fim dos anos 80. Staley, cantando em outra banda, ofereceu a Cantrell, na época um desnorteado guitarrista de Tacoma, seu estúdio de ensaios, como um lugar em que ele pudesse arrebentar. "Era naquela casa gigantesca chamada Music Bank. Tinha 50 recintos diferentes", conta Cantrell. "O lugar ficava aberto 24 horas por dia, sempre com bandas tocando, gatinhas entrando e saindo, cerveja e drogas por toda parte. Foram tempos selvagens".
Cantrell se uniu ao baixista Mike Starr a ao baterista Sean Kinney, mas não conseguiu convencer Staley a entrar para o grupo. Mais tarde, fizeram um acordo: Cantrell tocaria na banda de funk-rock de Staley e o cantor faria parte da turma de metaleiros de Cantrell na Music Bank. Eles passaram a vadiar no mundo do rock, assumindo várias "encarnações" antes de optar pelo nome de Alice in Chains. "A gente não conseguia trabalho nem de um jeito nem de outro, então achamos que isso não nos traria problemas", diz Staley.
Enquanto o quarteto refinava seu som, vários grupos promissores estavam surgindo. Quando ocorreu o rumor de que a região de Seattle era um terreno fértil para novas bandas, caçadores de talentos vieram espiar. O Alice in Chains foi visto como uma jogada comercial melhor do que os outros heróis locais, e assinou contrato com a Columbia. Era um movimento deliberado da gravadora para recuperar terreno no mercado de rock pesado. "Eles vieram no exato momento em que estávamos famintos por esse tipo de música", afirma o presidente da gravadora, Don Ienner, que passou a ser um "tutor" da banda - especialmente de Cantrell, que segundo Ienner, será no futuro, um deus da guitarra.
Staley, a princípio, hesita em discutir seus problemas com a heroína, especialmente quando o assunto é um artigo recente da Rolling Stone sobre o ressurgir das drogas, artigo que o mencionava. Segundo ele, o artigo magoou muito sua família e amigos, mas ele também diz que acha bom ter uma chance de esclarecer todos os boatos. "O fato é que eu estava tomando um monte de drogas, e isso não é da conta de ninguém", diz enquanto descansa no ônibus da excursão, antes de realizar a abertura do show de Ozzy Osbourne em Dallas.
"Não estou mais nessa, dei uma caminhada longa e desgraçada pelo inferno. Decidi parar porque estava me consumindo com aquilo. A droga não funciona mais comigo, antes eu me sentia bem com ela, mas agora ela me entedia. Mas, apesar dos tempos divertidos e do sucesso comercial de Dirt, Staley diz que pretende fazer música que possa purgar seu sofrimento. "Nós não acumulamos nossos demônios dentro de nós, e sim os expulsamos. É uma terapia. Eu sei que nunca vou estar 100% em paz comigo mesmo e com o mundo. Eu sempre vou estar xingando e execrando alguma coisa". CADERNO 2 (18/11/1992)

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