A REVISTA GUITAR PLAYER NORTE-AMERICANA FOI FUNDADA DURANTE O VERÃO DE 1967 QUANDO JIMI HENDRIX PÔS FOGO NA SUA STRATOCASTER EM MONTEREY E DETONOU UMA REVOLUÇÃO NA GUITARRA ELÉTRICA. EM TRÊS DÉCADAS, DESDE AS CHAMAS SAGRADAS DE JIMI, MILHARES DE ÁLBUNS DE GUITARRAS FORAM LANÇADOS E, EMBORA MUITOS APENAS OSCILARAM POR UM MOMENTO NO OUVIDO DO PÚBLICO, OUTROS MARCARAM REGISTROS PERMANENTES NA CABEÇA DOS GUITARRISTAS.
SEIS EDITORES DA GP NORTE-AMERICANA - JOHNSTON, GORE, OBRECHT, ROTONDI, THOMPSON E ELLIS - VASCULHARAM AS SUAS MEMÓRIAS, COLEÇÕES DE DISCOS, NÚMEROS ATRASADOS E LIVROS DE REFERÊNCIAS PARA DESCOBRIR OS MELHORES DISCOS DE GUITARRA DOS ÚLTIMOS 30 ANOS. A PARTIR DAÍ, HOUVE UM GRANDE ESFORÇO PARA ESCOLHER O SINGLE MAIS IMPORTANTE E INFLUENTE PARA CADA ANO. "MISSÃO IMPOSSÍVEL", VOCÊ DIRIA? ANDY ELLIS CHEGOU A ARGUMENTAR CONTRA O CONCEITO JORNALÍSTICO DE COLOCAR UM SINGLE DE UM DISCO SOBRE OUTRO. NO ENTANTO, OS DEMAIS MEMBROS DA "COMISSÃO JULGADORA" DECIDIRAM INSISTIR NO CARA-OU-COROA INTELECTUAL E PROVÁVEL DILÚVIO DE CARTAS DO TIPO "COMO VOCÊS PUDERAM DEIXAR DE FORA...?", NA ESPERANÇA QUE AS ESCOLHAS POSSAM INSPIRAR OS GUITARRISTAS A BUSCAREM A MÚSICA ESSENCIAL. A SURPRESA, AO FINAL, FOI QUE A LISTA DOS ESCOLHIDOS COMBINA COM A ÊNFASE EDITORIAL DA GUITAR PLAYER NO QUE DIZ RESPEITO AO ECLETISMO. DOS RENEGADOS DAS CORDAS DE NYLON AOS FUSIONISTAS E PUNKS PRIMAIS, AS ESCOLHAS TOP E VICE-CAMPEÃS CONFRONTAM AS POSSIBILIDADES DO INSTRUMENTO COM UMA INDIVIDUALIDADE SEM COMPROMISSO.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

DEPECHE MODE, Um Passeio Pela Evolução Eletrônica

Music For The Masses: a obra mais complexa e obsessiva da banda inglesa Depeche Mode

FERNANDO NAPORANO

Em meados de 80 três garotinhos de Basildon, Essex, montaram o Depeche Mode e, um ano depois, sob a febre tecno-pop que assolava a Inglaterra (Gary Numan, Soft Cell, Fad Gadget), já tinham um LP e dois hits na parada. No LP seguinte, Vince Clarke abandona a banda para formar o Yazoo, sendo substituído por David Gahan. Mas é no terceiro álbum, em que já apareciam como quarteto, que as letras perdem de vez o caráter de descartabilidade e passam a ter preocupações políticas, com base na utopia do realismo socialista. Tal temática se torna um fanatismo em Some Great Rewards, um trabalho em que também são solidificadas os antigos flertes com o pop pós-industrial. Com Black Celebration, o Depeche hiberna pela amargura e pelo berro anticapitalista, entremeando depressões em cores monocórdicas e até maçantes.
Agora, aparece entre nós Music For The Masses, lançamento WEA, a obra mais complexa e obsessiva das vozes e teclas de Andy Fletcher, Alan Wilder, David Gahan e Martin Gore, o autor de todas as dez faixas. Como sempre, o Depeche passeia pelas evoluções da eletrônica, pactuando com os mais radicais e novíssimos circuitos eletrônicos de computadores, além da utilização de teclados antigos, como o sintetizador ARP e moogs e da meticulosa manipulação de Fairlight, emulators, Kurzweil e diversos outros samplers, sequenciadores e sintetizadores. Em termos de produção (Depeche e David Bascombe), nada mais pode ser exigido, pois é o máximo da perfeição tecnocrática, mas sem aquela frieza reles e populista.
No hit Never Let Me Down Again, transpira a erótica (homos)sexualidade do grupo, numa rara tonalidade extremamente pop, mas sem recair na baba ou em vulgares pasteurizações. Na canção seguinte The Things You Said (Martin Gore on lead vocals), a entrevista eroticidade surge massacrada em gelados acordes de floating-ballad, enquanto em Strangelove, popice-semi-pós-industrial, é esse mesmo corpo, essa mesma carne que reaparece buscando seus prazeres em acepções masoquistas. A tentativa de sacralizar o amor é o mote que conduz a mediana Sacred, contrastada pela ácida beleza minimal de Little 15, em que, quiçá, a desgraçada mundana pode ser esquecida pela sublevação do desejo.
A peculiar disco-obsessiva Behind The Wheel abre o segundo lado propondo metafóricas formas de entrega, ao passo que na desesperadora I Want You Now (Gore nos vocais), perpetuada por uma aflita/orgasmática respiração, a paixão é declarada, pronta para consumir e ser consumida, até não restar mais nada do nome. A barra pesa em To Have And To Hold, em que a decadência e a doença desse rosto apaixonado tatejam, em atmosferas gélidas, o significado do abismo. Nothing é uma composição mais fraquinha e pouco original em seus retalhos afuncalhados. Pimpf encerra essas "músicas para as massas" numa tétrica atmosfera de vozes, que tanto podem ser um brado de fanático totalitarismo como réquiem para alguém que passou um disco inteiro sofrendo perdas e danos do discurso amoroso. (CADERNO 2, 27/01/1988)

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